O Império da Madrugada: A Saga 1000 graus da Boite Lapinha e a Era de Ouro da Boemia em Belém do Pará

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Sob o Véu da Madrugada Equinocial: A Odisseia da Boite Lapinha e a Reinvenção da Boemia no Jurunas

A crônica definitiva sobre o santuário noturno que redefiniu a sociologia, a música e a resistência cultural nos bairros do Jurunas e da Condor — unindo a alta sociedade e a malandragem sob o mesmo teto.


A umidade equatorial de Belém do Pará tem uma espessura quase tátil. Quando o sol se põe sobre a Baía do Guajará e a mansa escuridão avança sobre as águas barrentas do rio Guamá, a cidade passa por uma metamorfose indelével.

Entre as décadas de 1960 e 1980, esse rito de passagem do dia para a noite não marcava apenas o fim do expediente em uma capital amazônica em franco processo de urbanização — marcava a abertura de portais para uma realidade paralela.

Enquanto os casarões coloniais e os boulevards arborizados dos bairros de Nazaré e Batista Campos mergulhavam no silêncio de uma moralidade conservadora, a periferia da cidade começava a pulsar. A bússola da elite, dos políticos, dos bicheiros, dos intelectuais e da classe artística apontava para uma única direção: a fronteira fluida entre os bairros do Jurunas e da Condor.

O destino final dessa procissão noturna era um estabelecimento que transcendeu a sua vocação comercial para se tornar o mais lendário santuário profano do Norte do Brasil: a Boite Lapinha.

A memória urbana é um terreno pantanoso, frequentemente pavimentado por esquecimentos convenientes, demolições e pela gentrificação silenciosa que transforma templos de cultura em farmácias ou terrenos baldios. No entanto, o imaginário coletivo de Belém resiste a esse apagamento.

A Boite Lapinha não foi um mero bar com música ao vivo. Ela operou como um epicentro sociopolítico e cultural inigualável, um caldeirão onde as rígidas hierarquias sociais de uma sociedade estratificada eram suspensas e reescritas sob a luz neon e a fumaça espessa dos cigarros.

No interior de suas paredes, senhoras da alta sociedade com suas joias reluzentes, jornalistas esportivos de renome nacional, trabalhadores ribeirinhos, malandros locais e transformistas geniais dividiam a mesma atmosfera esfumaçada — embalados por boleros chorosos, sambas e pelo som metálico dos copos de uísque resfriados com pedras de gelo de coco.


O Tabuleiro Social e Geográfico: A Nação Jurunense e o Exílio da Boemia

Para compreender o magnetismo paradoxal que a Boite Lapinha exercia sobre a elite belenense, é absolutamente necessário analisar o solo sociológico sobre o qual suas fundações foram erguidas.

O bairro do Jurunas, historicamente forjado às margens sinuosas do rio Guamá, sempre foi um território marcado por profundos contrastes. Povoado inicialmente por populações ribeirinhas, indígenas e migrantes do interior do Pará, o bairro desenvolveu-se sob o signo da desigualdade social, da ausência de infraestrutura básica e da marginalização ostensiva por parte do poder público.

As ruas alagadiças, as palafitas debruçadas sobre o rio e a rotina ditada pelo regime das marés formavam a paisagem cotidiana de uma população que a elite urbana preferia ignorar à luz do dia.

A chamada “Nação Jurunense” não é um mero apelido romântico; é uma constatação antropológica de um povo que construiu suas próprias trincheiras de dignidade.

Essa mesma negligência estatal e o isolamento geográfico fomentaram uma rede de solidariedade comunitária e uma identidade cultural inquebrantável. O bairro tornou-se um celeiro inesgotável de expressões artísticas e folclóricas:

  • O Rancho Não Posso Me Amofiná — a maior e mais laureada campeã dos carnavais de Belém — nasceu no asfalto quente e nas vielas do Jurunas.
  • Décadas mais tarde, o bairro viu surgir ícones da música contemporânea paraense, como a cantora Gaby Amarantos.

A Diáspora Boêmia e a Chegada à Alcindo Cacela

A relação do Jurunas com o entretenimento noturno sofreu uma guinada estrutural drástica em meados do século XX, motivada por políticas de higienização urbana no centro de Belém.

Historicamente, a prostituição, os cabarés de luxo e a vida noturna mais permissiva concentravam-se na área central da cidade, orbitando a famosa e temida zona de meretrício da rua Riachuelo. Quando as autoridades decidiram fechar compulsoriamente essa zona, o vasto ecossistema boêmio não desapareceu — ele simplesmente entrou em diáspora.

As prostitutas, os proprietários de bares, os músicos de cabaré e a imensa clientela órfã encontraram nos bairros da Condor e do Jurunas o terreno fértil para inaugurar uma nova era de entretenimento. A Avenida Alcindo Cacela tornou-se a artéria coronária dessa nova anatomia noturna.

O Circuito Noturno de Belém: Roteiro da Madrugada

Dinâmica BoêmiaLocalizaçãoPerfil do PúblicoFunção
O “Esquenta” CentralCampina, Praça da República (Bar do Parque, Bar do Biriba, Primavera)Intelectuais, estudantes, artistas de teatro, classe médiaPonto de partida. Discussões políticas, ebulição cultural
Transição Familiar-BoêmiaPraça Princesa Izabel, Condor (Palácio dos Bares)Misto. Público familiar até às 22h; boêmio após 23hZona de amortecimento entre o familiar e o transgressor
Polo de Celebridades e ExcessosAv. Alcindo Cacela (Pagode Chinês, Tapera)Boemia pesada, jornalistas esportivos, celebridades nacionaisO ápice do encontro entre o local e o nacional
O Refúgio de Elite e VanguardaAv. Alcindo Cacela / Jurunas (Boite Lapinha)Alta sociedade, bicheiros, políticos, transformistas, artistas renomadosA consagração da exclusividade. O destino final mais cobiçado

Enquanto os clubes tradicionais de elite — como a pomposa Assembleia Paraense, o Automóvel Clube, o Jóquei Clube e o Clube do Remo — abrigavam os bailes oficiais da alta sociedade sob os holofotes do colunismo social, as madrugadas exigiam um refúgio que oferecesse menos amarras morais.

O bairro do Jurunas oferecia à elite o bem mais valioso da madrugada: o anonimato geográfico. A Boite Lapinha nasceu exatamente dessa simbiose improvável.


O Arquiteto do Desejo: Alencar e a Engenharia do Entretenimento

Nenhuma instituição reflete de maneira tão simbiótica a alma de seu criador quanto a Boite Lapinha refletiu a essência de José Alencar Rocha. Conhecido em todos os estratos sociais de Belém apenas como “Alencar”, ele era um homem constituído por dualidades fascinantes e um pragmatismo genial.

Durante os fervilhantes domingos de clássicos esportivos, Alencar transmutava-se: ele era o torcedor mais fervoroso e folclórico do Clube do Remo. Não se tratava de um torcedor comum — Alencar era o líder supremo da lendária Charanga do Clube do Remo, a ruidosa banda de metais e percussão que inflamava o estádio Evandro Almeida, o Baenão.

A imagem de Alencar entrando no gramado empunhando uma rústica batuta de madeira ficou gravada na memória de gerações de torcedores. Com ela, regia não apenas os trompetes e tambores de sua banda, mas comandava as emoções da massa nas arquibancadas.

O Visionário Antes dos Manuais de Marketing

Amigos íntimos e frequentadores assíduos descreviam Alencar unanimemente como um homem “visionário”. Ele compreendeu, muitas décadas antes que os manuais de marketing modernos teorizassem sobre o assunto, que a elite paraense não queria apenas um lugar para consumir bebidas importadas — ela queria uma experiência sensorial.

Queria a adrenalina do perigo controlado, o frisson da proximidade com o proibido, a convivência com as prostitutas e a malandragem do bairro — desde que tudo isso fosse embalado em um casulo de conforto, luxo e segurança absoluta.

Aliás, se você curte receber bem em casa com aquele toque especial, vale a pena dar uma olhada em eletrodomésticos modernos que transformam qualquer ambiente em um espaço de hospitalidade — assim como Alencar fazia com sua boate.

O Segredo do Gelo de Coco

Para garantir que a experiência em sua boate fosse inesquecível, Alencar prestava atenção a requintes que se tornaram lendas urbanas na Amazônia.

O exemplo mais notório de seu perfeccionismo era o fornecimento de gelo. Alencar recusava-se a servir os melhores uísques escoceses com cubos de água insípida. Ele estabeleceu uma rede de fornecedores para comprar exclusivamente blocos de “gelo de coco” — fabricados artesanalmente a partir da água de coco congelada, que derretiam lentamente nos copos de cristal, misturando a doçura tropical ao malte escocês maturado.

Era um toque de sofisticação regional inusitado — uma assinatura de requinte que fascinava e fidelizava seus clientes mais exigentes. Além da apoteótica Lapinha, Alencar também era proprietário do “Bolero”, outro estabelecimento nas imediações que completava a oferta da noite, consolidando um verdadeiro império do entretenimento na fronteira entre o Jurunas e a Condor.

Ao seu lado, a esposa Celeste atuava como figura respeitada nos bastidores, garantindo que a engrenagem do império funcionasse perfeitamente enquanto Alencar transitava pelo salão distribuindo sorrisos e apertos de mão.


A Arquitetura do Pecado: Da Modéstia à Suntuosidade

A trajetória física da Boite Lapinha é um testemunho arquitetônico de seu crescimento exponencial. Em sua primeira encarnação, a boate funcionava de maneira quase improvisada na própria Avenida Alcindo Cacela, estrategicamente imprensada ao lado de um posto de gasolina.

Era um espaço mais modesto, rústico, mas que já atraía a atenção pela qualidade irretocável da música ao vivo e pelo magnetismo pessoal de Alencar, que ficava na porta recebendo cada cliente pelo nome.

O sucesso foi tão estrondoso e a demanda da elite tão crescente que as paredes daquele primeiro espaço se tornaram asfixiantes. Alencar adquiriu um novo e vasto terreno na mesma região e ali ergueu o que viria a ser a versão definitiva, suntuosa e lendária da Boite Lapinha.

O Salão dos Ilustres

O imenso ambiente interno era dominado por mesas estrategicamente distribuídas pelo salão — muitas delas cativas, permanentemente reservadas para clientes ilustres, políticos e famílias abastadas. O nível de intimidade era tamanho que não era incomum que tradicionais famílias belenenses utilizassem o salão para realizar suas festas de confraternização particulares.

A logística que envolvia a operação da Boite Lapinha transbordava os limites do casarão. Do outro lado da rua operava um motel que funcionava, na prática, como um imenso anexo logístico e residencial da boate — onde grande parte do elenco artístico residia, dormia e se preparava horas antes de cruzar o asfalto escuro da Alcindo Cacela para subir ao palco.


A Invulnerabilidade e o Código de Honra da Marginalidade

Talvez o aspecto mais intrigante, e que mais atesta a complexidade sociológica da Lapinha, fosse a sua aura de completa invulnerabilidade. Em uma Belém que já começava a sofrer agudamente com os reflexos da desigualdade social e a escalada da criminalidade urbana, a boate de Alencar era unanimemente considerada o lugar “mais seguro da cidade”.

Essa segurança hermética não derivava, de forma alguma, da presença de uma força policial ostensiva na porta ou de milícias privadas. Ela era o resultado de um profundo código de conduta não escrito, um pacto de respeito e temor imposto pelo próprio submundo belenense.

Os criminosos locais conheciam intimamente o peso do nome de Alencar, a sua importância para a economia invisível do bairro e, sobretudo, o calibre dos frequentadores de sua casa: generais, políticos influentes, desembargadores, delegados de polícia linha-dura e magnatas do jogo do bicho.

Causar o menor dos problemas dentro da Lapinha era sinônimo de comprar uma guerra letal contra as forças mais poderosas e violentas do estado. Havia uma espécie de salvo-conduto invisível para quem estivesse sob a proteção das asas de Alencar.

Essa bizarra garantia de integridade física — garantida pela própria criminalidade em respeito à elite — era o que permitia que senhoras da alta sociedade chegassem a bordo de seus carros de luxo, ostentando colares de pérolas e relógios de ouro no coração do Jurunas de madrugada, sem demonstrarem o menor vestígio de temor.


O Palco das Transgressões: Rudy Star e o Transformismo de Vanguarda

Se Alencar era o cérebro empreendedor da Lapinha, e a elite belenense o seu sangue financeiro, os artistas performáticos eram indubitavelmente o coração pulsante do casarão. A boate nunca se contentou em oferecer apenas música ao vivo; ela investiu pesadamente em shows de variedades, espetáculos teatrais e dublagens.

Foi exatamente nesse aspecto de curadoria artística que a Lapinha se tornou um espaço de vanguarda absoluta para a comunidade LGBTQIA+ da época.

Rudy Star: O Lennie Dale de Belém

A grande, apoteótica e mais aguardada atração da noite paraense eram os imponentes shows de transformismo. O maior ícone desse universo de plumas, lantejoulas e rebeldia atendia pelo nome de Rudy Star — o pioneiro visionário que profissionalizou a arte do transformismo, da maquiagem cênica e da dublagem lip-sync em Belém do Pará.

Assim como o lendário coreógrafo Lennie Dale revolucionou a dança contemporânea no Rio de Janeiro e em São Paulo com a estética dos Dzi Croquettes, Rudy Star foi considerado “o Lennie Dale de Belém”.

Rudy não limitava sua genialidade a apenas subir no palco e arrancar aplausos. Ele operava como um mestre e educador rigoroso para uma nova geração de artistas gays. Ele ensinava:

  • Postura física e presença cênica inabalável
  • A ciência da maquiagem corretiva
  • Profissionalismo ferrenho, rejeitando estereótipos de submissão
  • A arte das trocas de figurino e do lip-sync de alta performance

Sob as luzes quentes da Lapinha, jovens transformistas que durante a claridade do dia enfrentavam o escárnio e a violência nas ruas de Belém, à noite metamorfoseavam-se em divas intocáveis, glamourosas, aplaudidas de pé e desejadas pela mesma elite que, à luz do sol, jamais as convidaria para sentar à mesa.

A trágica e prematura morte de Rudy Star, vítima de uma fulminante overdose anos mais tarde, marcou profundamente o coração dos habitués da casa, encerrando simbolicamente o capítulo de ouro do transformismo paraense.

A Gênese Conflituosa do Terceiro Banheiro

A consagração póstuma da Lapinha como um reduto histórico de inclusão esconde, contudo, uma origem pragmática e brutalmente conflituosa. A boate tornou-se famosa por um detalhe arquitetônico inusitado: foi o primeiro estabelecimento de entretenimento de Belém a construir e disponibilizar um “terceiro banheiro”, destinado único e exclusivamente ao público homossexual e aos artistas transformistas.

O famigerado terceiro banheiro não nasceu de um arroubo de empatia. Os artistas homossexuais utilizavam os amplos espelhos e as pias do banheiro masculino como um camarim improvisado — o que gerou fortíssimo incômodo, repulsa e reclamações agressivas por parte dos homens heterossexuais clientes.

Pressionado entre a intolerância violenta de seus clientes mais ricos e a necessidade imperiosa de manter as estrelas de seu show, Alencar utilizou seu pragmatismo inabalável: mandou erguer um terceiro banheiro.

Essa decisão pragmática, forjada a ferro e fogo para apaziguar o preconceito, acabou por subverter o seu propósito inicial e criar um território autônomo. O terceiro banheiro tornou-se muito mais do que um sanitário: tornou-se um símbolo de resistência, um camarim seguro, um confessionário e um refúgio exclusivo onde a comunidade queer de Belém podia existir e se expressar livremente.


O Eixo do Delírio: A “Quinta Sem Lei” e a Rota das Celebridades Nacionais

A engrenagem financeira da Lapinha operava em ritmo industrial, funcionando com lotação máxima quase todas as noites da semana. No entanto, de todas as noites do calendário, nenhuma superava a mística e a intensidade em torno da misteriosa e celebrada “Quinta Sem Lei”.

A “Quinta Sem Lei” não era uma festa formal; não possuía ingressos diferenciados nem cartazes de divulgação. Era uma instituição puramente informal e orgânica da boemia belenense. Era a noite específica em que as máscaras sociais caíam e estilhaçavam no chão.

Relatos de antigos frequentadores ao evocarem essa noite o fazem com um misto de saudosismo febril e um silêncio carregado de discrição. É frequente a afirmação de que o que acontecia na atmosfera densa da “Quinta Sem Lei” “deve ficar quieto”, preservado pela honra da boemia.

Faustão, Galvão e o Clube das Madrugadas Paraenses

O campo gravitacional da Lapinha havia rompido as fronteiras do estado do Pará. Artistas de televisão da Rede Globo em passagem pela cidade, cantores do eixo Rio-São Paulo em turnê de shows e, principalmente, as ruidosas equipes de transmissão esportiva que vinham cobrir clássicos no Mangueirão — todos terminavam a noite afogados em uísque no circuito da Avenida Alcindo Cacela.

Um dos satélites mais famosos desse ecossistema era o Pagode Chinês, que operava como um irmão siamês da boate de Alencar. Nesses balcões, encostaram os cotovelos figuras icônicas da televisão brasileira:

  • O narrador esportivo Galvão Bueno, no auge de suas coberturas pelo Brasil, foi levado ao circuito paraense para conhecer a hospitalidade de Alencar.
  • O apresentador Fausto Silva, o Faustão, tornou-se um frequentador entusiasta e assíduo do eixo Lapinha-Pagode Chinês sempre que aterrissava na cidade das mangueiras.

O impacto dessas noites etílicas na periferia amazônica foi tão contundente e duradouro que, mesmo décadas depois, em seus tradicionais programas de domingo transmitidos ao vivo em rede nacional, Faustão frequentemente citava o saudoso “Pagode Chinês” de Belém do Pará e mandava saudações ao passado.

Eram piadas internas e homenagens cifradas a um tempo áureo — piscadelas na tela da TV que apenas os velhos entendedores da boemia belenense, refestelados em seus sofás nas tardes de domingo, conseguiam decodificar e sorrir de volta.

Aliás, para quem curte as boas tardes de domingo em família, vale conhecer as últimas novidades em TVs e equipamentos de vídeo — porque uma boa tela faz toda a diferença para reviver (ou criar) memórias memoráveis.


Trilhas Sonoras e Sangue no Salão: Dos Boleros ao Boxe

Embora o imaginário noturno contemporâneo vincule instintivamente as madrugadas às batidas sintéticas e eletrônicas, a Boite Lapinha era dominada por uma paisagem sonora imensamente orgânica, densa, melancólica e instrumental.

A trilha sonora da casa era majoritariamente composta por:

  • A paixão derramada dos boleros românticos
  • Os sambas de raiz vindos dos morros cariocas
  • As inevitáveis execuções da fina Música Popular Brasileira (MPB)

A Lapinha também operava como o destino final de um rico intercâmbio musical regional. Exímios violonistas, como o celebrado Mário Rocha e seu grupo, após temporadas animando reuniões dançantes no Amapá ou nos estúdios das emissoras de rádio locais, retornavam a Belém — e o palco mais cobiçado era invariavelmente a Lapinha.

Quando o Ringue Substituiu a Pista de Dança

Provando definitivamente que na mente de Alencar não existiam fronteiras para o conceito de espetáculo, a Boite Lapinha chocou o establishment cultural ao retirar as mesas centrais e sediar noitadas oficiais de boxe profissional e amador.

Em maio de 1989, o mesmo salão paraense que outrora brilhava com os vestidos de paetês e lantejoulas de Rudy Star foi transformado na arena de sangrentos combates interestaduais de pugilismo. A boate montou ringues profissionais no centro da pista para receber experientes boxeadores vindos de academias de São Paulo e lutadores durões do Rio de Janeiro, que desembarcaram na cidade especialmente para desafiar os jovens pugilistas paraenses.

A promoção de lutas de boxe na Boite Lapinha não representava uma contradição com sua aura de glamour — pelo contrário, era a reafirmação retumbante de que o espaço sob o comando de Alencar era um verdadeiro templo do entretenimento em todas as suas facetas.

Era um ambiente mágico e esquizofrênico, capaz de absorver a brutalidade de um nocaute violento e transformá-lo, em questão de minutos, em uma suntuosa atração de gala para uma elite sedenta por emoções fortes no coração da floresta.

Para quem quer montar seu próprio espaço de entretenimento em casa, já que os Alencares de hoje são mais caseiros, confira as melhores opções em móveis e decoração para transformar qualquer ambiente em um verdadeiro salão de experiências.


O Crepúsculo Abrupto de um Império Boêmio

O fim trágico e definitivo de grandes instituições boêmias raramente ocorre de forma poética ou gradual. Quase sempre, a cortina se fecha como resultado de uma colisão frontal, silenciosa e impiedosa de múltiplos fatores estruturais invisíveis.

O senso comum cristalizado nas calçadas de Belém frequentemente atribuiu o encerramento das atividades da Boite Lapinha exclusivamente à morte ou ao afastamento por doença de José Alencar Rocha. A verdadeira história arqueológica do colapso, no entanto, é muito mais complexa, dura e surpreendentemente abrupta.

Nas palavras cruas de quem viveu o episódio, o suntuoso negócio “arriou de uma vez”. A descrição mais recorrente e perturbadora entre os que presenciaram os últimos dias é de que o prédio da boate sofreu uma espécie de “implosão”.

A Dupla Derrocada: Estrutural e Cultural

Essa narrativa de implosão pode ser interpretada em múltiplos níveis. No aspecto físico e de engenharia estrutural, há fortes evidências testemunhais de que o imenso casarão colonial, severamente desgastado por décadas de uso predatório combinado com o solo alagadiço da transição para a bacia do Guamá, sofria de problemas crônicos e irreversíveis de manutenção.

Paralelamente, o aspecto comercial e cultural enfrentava um abalo sísmico. O final da década de 1980 e o raiar dos anos 1990 trouxeram ventos de mudança drástica no perfil do consumo noturno em todo o Brasil:

  • A chegada implacável das discotecas modernas com luzes a laser, estroboscópios e música eletrônica americana
  • As novas e restritivas leis de zoneamento urbano
  • A ascensão de uma nova geração de jovens burgueses que repudiava o gosto dos pais e buscava outra sonoridade

Com o colapso estrutural irremediável da casa e o esvaziamento iminente de seu formato de espetáculo, o imenso terreno e as paredes condenadas acabaram sendo negociados pelo mercado imobiliário. A área antes sagrada para a boemia foi posteriormente vendida, fracionada e arrendada para abrigar outros empreendimentos — em um processo voraz que foi apagando fisicamente e sepultando sob concreto as marcas do glamour e da história que ali existiram.

Esse doloroso processo de gentrificação e esquecimento comercial em Belém não foi uma exclusividade do Jurunas. Vitimou com requintes de crueldade dezenas de outros “points” antológicos da capital paraense, como o African Bar, a danceteria Pororoca, o cultuado Fiteiro e o Lobos Bar.

Se a tecnologia de hoje existisse naquela época, certamente muita gente estaria registrando cada noite com seu smartphone para preservar essas memórias para sempre. Mas o que ficou, ficou gravado na alma da cidade.


Conclusão: O Eco Eterno de um Canto de Despedida no Imaginário Belenense

A Boite Lapinha nunca foi apenas uma casa de espetáculos, um depósito de uísque escocês ou um ponto de parada para insones abastados. Avaliá-la dessa forma seria um erro histórico primário e imperdoável.

Ela foi, na realidade, um monumental, corajoso e altamente bem-sucedido experimento social involuntário montado sobre palafitas e asfalto às margens barrentas do rio Guamá. Em um período em que a nação brasileira amargava sob as botas da censura política e do conservadorismo dos Anos de Chumbo, as pesadas portas de madeira da Lapinha operavam como fronteiras e portais dimensionais para uma realidade paralela.

A Lapinha provou com excelência inquestionável, noite após noite, que a sofisticação, o brilho e o alto luxo não eram privilégios exclusivos do centro rico da capital. A periferia pulsante e estigmatizada do bairro do Jurunas possuía a capacidade para sediar as madrugadas mais seguras, cobiçadas, luxuosas e rentáveis de todo o estado.

Ao construir às pressas um terceiro banheiro como improviso prático para evitar atritos, o visionário Alencar acabou por acidentalmente erguer um altar protegido e uma trincheira intransponível para a militância existencial LGBTQIA+ da época. Ao proporcionar um camarim e um palco iluminado, ele deu a artistas geniais e marginalizados, como o icônico Rudy Star, a plataforma cênica, a dignidade e a reverência pública que o país preconceituoso sistematicamente lhes negava à luz do dia.

O legado da Lapinha é muito mais substancial do que a mera soma nostálgica de suas partes:

  • A genialidade inusitada do gelo da água de coco
  • A figura do carismático proprietário que comandava a festa com sua mítica batuta de madeira
  • A loucura surreal de assistir a combates interestaduais de pugilismo a poucos metros de taças de cristal
  • As madrugadas insanas do Pagode Chinês que cravaram suas garras na memória de comunicadores do país

E para quem trabalha de casa hoje, conectado ao mundo por meio de computadores e equipamentos de informática, talvez seja difícil imaginar como era poderosa a rede de contatos que se formava pessoalmente, cara a cara, naquelas mesas cativas da Lapinha.

A Lapinha representa, na sua essência destilada, a mais pura e inegável alma boêmia do cidadão paraense: irremediavelmente apaixonada pela música dramática, amante dos excessos carnais, hospitaleira até a última consequência e, hoje, profunda e incuravelmente saudosa do que foi.

Hoje, aquele que caminha desavisado pela extensão da Avenida Alcindo Cacela, em direção ao coração da Condor e do Jurunas, não encontrará mais as luzes intermitentes de neon refletidas no asfalto molhado. Não escutará os metais brilhantes dos conjuntos de baile vazando pelas paredes, nem o riso fácil e agudo das transformistas na calçada. O imponente prédio ruiu; a arquitetura do casarão não resistiu ao peso massacrante do tempo.

No entanto, no vasto e invulnerável território da memória afetiva e coletiva do povo de Belém — eternizada nos nostálgicos programas de rádio de domingo, nas densas teses acadêmicas de história e sociologia, e nas inesperadas recordações de gigantes comunicadores em plena rede nacional de televisão —, a lendária Boite Lapinha segue heroicamente de portas escancaradas.

A Lapinha não fechou. Ela apenas transcendeu as suas próprias ruínas, alçando-se para a imortalidade da história cultural de Belém do Pará.


Referências: YouTube (Ivo Amaral e Lili Relembra), O Liberal, Repositório UFPA, Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional, Dissertações UFF, UFBA e PUC-SP sobre boemia e cultura popular em Belém.

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