1. INTRODUÇÃO: DEIXA DE LERO-LERO E VEM OUVIR A VERDADE
Puxa o teu banco, ajeita o teu paneiro de açaí e presta atenção, porque o papo hoje aqui no ver-o-peso.com não é miúdo, é papo de gente grande, de caboclo que não baixa a cabeça. Tu já deves ter percebido, seja rolando o feed do Instagram, assistindo ao Jornal Nacional ou naquela conversa torta de quem vem de fora visitar a gente, que existe um “olhar torto”, uma visagem feia que o pessoal lá do Sul e Sudeste lança pra cima do nosso Norte. É um misto de desconhecimento com uma soberba que dá nojo, uma pavulagem descabida de quem acha que o Brasil acaba na divisa de Minas Gerais.
A missão deste dossiê, meu chibata, é desmascarar essa conversa fiada de que o Norte é um peso morto pro Brasil, de que a gente vive de favor ou de repasse. Vamos te mostrar, com dados, tabelas, história e muito orgulho da nossa terra, que se não fosse a força das nossas águas, a riqueza do nosso subsolo e o suor da nossa gente, o “Brasil desenvolvido” lá de baixo ia estar no escuro, sem bateria no celular e com o bolso furado na balança comercial.
Nós vamos revirar o baú da história, desde o tempo em que Belém e Manaus davam de calcanhar em cidades europeias durante o Ciclo da Borracha, até a esculhambação tributária que fizeram com a gente na tal da Lei Kandir. Vamos falar da COP30, que tá deixando muita gente lá do Sul roxa de inveja (tão goriando que só!), e vamos explicar, tim-tim por tim-tim, por que eles discriminam a gente. É racismo? É ignorância? É medo da nossa potência?
É tudo isso junto e misturado num tacacá azedo que a gente não vai mais engolir. Então, te ajeita, deixa de ser leso e bora mergulhar nesse rio de informações, porque aqui o sistema é bruto e a gente não leva desaforo pra casa. Tu vai ver que quem sustenta a balança comercial desse país, muitas vezes, somos nós, enquanto eles ficam lá na “boca miúda” falando besteira.
2. A ECONOMIA QUE ELES FINGEM NÃO VER: QUEM SUSTENTA QUEM NESSA BAGAÇA?
Mano, tem uma lenda urbana que corre solta por aí, principalmente na boca de uns políticos e influenciadores lá do “Sul Maravilha”, dizendo que o Sul e o Sudeste sustentam o Norte e o Nordeste. Eles enchem a boca pra dizer que pagam mais impostos federais do que recebem de volta, e que o Norte é “deficitário”. Mas olha já! Tu é leso se acredita nisso sem ver os números reais da produção.
Essa conta é viciada, parente. Sabe por quê? Porque a sede das empresas tá lá! O banco que tu usa aqui em Santarém ou Marabá, a sede fiscal é em São Paulo. O sabonete que tu compra no supermercado em Belém, o imposto sobre a produção ficou lá. Mas a riqueza real, a matéria-prima que gira o mundo, sai daqui. Vamos aos fatos, porque contra fatos não tem argumento, nem pavulagem que segure.
2.1. O Pará é a Locomotiva, Eles São os Passageiros da Agonia
Bora falar de mineração, porque é aqui que a porca torce o rabo e a gente vê quem é quem no jogo do bicho. O Estado do Pará não é pouca coisa não. Se tu pegar os dados recentes de 2024 e as projeções para 2025, tu vai cair pra trás. O Pará se consolidou como um dos maiores polos de mineração do planeta Terra.
Em 2024, só pra tu teres uma noção da maceta, o setor mineral paraense faturou uma fortuna. Estamos falando de bilhões que saem da nossa terra vermelha. O Pará e Minas Gerais, juntos, seguram a onda de 76% de todo o faturamento mineral do Brasil.1 Ou seja, sem o Pará, a mineração brasileira ficava manca, capenga, pedindo esmola na esquina.
E o que a gente manda pra fora? É ferro, é cobre, é ouro, é manganês, é bauxita. É a terra de Carajás virando carro, prédio, celular e computador na China, na Europa e, claro, nas indústrias de São Paulo. O minério de ferro, nosso carro-chefe, representou quase 60% desse faturamento.1
Agora, te liga no “pulo do gato”: a Balança Comercial. Sabe aquele saldo que diz se o Brasil tá vendendo mais do que comprando e que segura o valor do Dólar? Pois é. A mineração, puxada fortemente pelo Pará, respondeu por 47% do saldo da balança comercial brasileira em 2024.2 Quase metade do lucro do comércio exterior do Brasil vem do buraco que cavam aqui no nosso quintal.
O Pará teve um saldo comercial positivo de mais de US$ 20 bilhões (dólares, mano, não é real não!).3 Enquanto isso, muitos estados do Sul e Sudeste importam mais do que exportam produtos básicos, dependendo da nossa “gordura” pra fechar a conta nacional no azul.
Para te deixar mais escovado, olha essa tabela que preparamos com os dados que eles tentam esconder:

| Indicador Econômico (2024/2025) | Dados do Pará / Região Norte | Impacto no Brasil |
| Faturamento Mineral | R$ 97,6 bilhões (crescimento de 14,4%) 1 | Garante a liderança global do Brasil em minério de ferro. |
| Saldo da Balança Comercial | US$ +20,9 bilhões (Superávit) 3 | Responsável por segurar o déficit de outros estados industrializados. |
| Contribuição no PIB Mineral | 2º Maior do Brasil (disputando o 1º com MG) | Base da arrecadação de royalties (CFEM). |
| Investimentos Previstos | US$ 13,48 bilhões até 2029 2 | Um dos maiores destinos de capital estrangeiro do país. |
Tu tá vendo, mano? O dinheiro entra grosso aqui. Mas a pergunta que não quer calar é: onde fica esse dinheiro?
2.2. O Roubo Oficializado: A Maldita Lei Kandir
Mana, essa tal de Lei Kandir é o maior “migué” que a União já passou na gente. Criada lá em 1996, no governo Fernando Henrique Cardoso, essa lei diz que produto primário (como o nosso minério, a soja, a carne) e semielaborado que vai pra exportação não paga ICMS. O ICMS é o imposto que fica pro Estado, é o dinheiro da nossa escola, do nosso hospital, da nossa segurança.
A desculpa era “incentivar as exportações” e deixar o produto brasileiro barato lá fora. Bonito no papel, né? Mas na prática, funciona assim: a Vale, a Hydro e outras grandes empresas arrancam o nosso minério, mandam pra China, lucram bilhões em dólar, e o Estado do Pará vê ZERO de ICMS dessa exportação.
Os prejuízos são de cair o queixo e deixar qualquer caboclo revoltado. Estudos da Fapespa mostram que, entre 1996 e 2016, o Pará deixou de arrecadar mais de R$ 32,5 bilhões (valores da época, se corrigir pela inflação dá muito mais, uma fortuna incalculável).4 Outras fontes falam em perdas acumuladas de R$ 35,7 bilhões só até 2016.5
Para pra pensar na malandragem:
- Nós entramos com a riqueza (o minério que não dá em árvore e não nasce de novo).
- Nós ficamos com o impacto ambiental (o buraco, a barragem de rejeito, a floresta derrubada).
- Nós ficamos com o impacto social (cidades inchadas como Parauapebas e Canaã, pressão no hospital público).
- O lucro fiscal da exportação vai pra União (via imposto de renda e outros tributos federais) e o lucro financeiro vai pros acionistas (muitos gringos ou do Sudeste).
- O imposto estadual é ZERO.
Enquanto isso, o Sul e o Sudeste, que produzem produtos industrializados (carros, máquinas, geladeiras), vendem a maior parte pro mercado interno brasileiro. E adivinha? Venda interna paga ICMS! E quando a gente compra um carro aqui no Pará, que foi feito lá em São Paulo com o ferro que saiu de Carajás, a gente paga o imposto pra eles! Tu manja a malandragem? É ser muito escovado pra cima da gente. É uma transferência de renda brutal do pobre pro rico.
2.3. A Energia que Acende o Sul Sai dos Nossos Rios
Outra pavulagem que a gente tem que derrubar é a da energia. O Brasil adora estufar o peito pra dizer na ONU que tem uma “matriz energética limpa”. E quem garante isso? São os nossos rios, mano! É o Xingu, é o Tocantins.
Tucuruí e Belo Monte. Essas duas macetas são o coração energético do país. Sem elas, o Sudeste apagava.
- Belo Monte: No primeiro semestre de 2025, essa usina sozinha, lá em Altamira, gerou 8% de toda a energia consumida no Brasil.6 Em momentos de pico, quando todo mundo liga o ar-condicionado lá no Rio e em São Paulo ao mesmo tempo, ela segura as pontas fornecendo até 12% da carga nacional.6
- Para tu teres ideia da grandeza: a energia gerada por Belo Monte seria suficiente para abastecer 26 milhões de residências.6 Dava pra iluminar o Norte e o Nordeste inteiros e ainda sobrava troco pra vender pro Paraguai.
- Mas essa energia entra no “Linhão” do Sistema Interligado Nacional (SIN) e desce pro Sudeste, pra rodar as indústrias de lá.
E qual é a “graça” disso tudo? A gente, que produz a energia, paga uma das tarifas mais caras do Brasil! É de lascar o cano, né? A gente alaga a nossa floresta, muda o curso dos rios, impacta as comunidades ribeirinhas e indígenas, sofre com os mosquitos e as mudanças no clima local, pra garantir que a Avenida Paulista fique iluminada.
E ainda temos que ouvir que somos “atrasados”. Atrasado é esse pensamento colonialista que vê a Amazônia só como uma bateria gigante ou um almoxarifado de recursos grátis.
| Usina Hidrelétrica | Localização | Impacto Nacional | Custo Local |
| Belo Monte | Rio Xingu (PA) | Maior usina 100% nacional. Segura 12% do pico de consumo do Brasil.7 | Impacto ambiental severo na Volta Grande do Xingu. |
| Tucuruí | Rio Tocantins (PA) | Pioneira na Amazônia. Abastece grandes projetos de alumínio (que exportam sem pagar ICMS). | Alagamento de imensa área de floresta e deslocamento de populações. |
3. AS RAÍZES DO PRECONCEITO: UMA FERIDA ABERTA NA HISTÓRIA
Mas por que, diacho, eles pensam assim? Não é só ruindade de agora, não, parente. Isso vem de longe. Tem um buraco histórico aí que a gente precisa cavar pra entender por que o sulista se acha o dono da cocada preta.
3.1. O Ciclo da Borracha: Quando Paris era no Meio do Mato
Houve um tempo, mano, lá na virada do século XIX pro XX, que a Amazônia era o centro financeiro do mundo. Foi o Ciclo da Borracha. Manaus e Belém eram luxo só, “só o filé”. Manaus era a “Paris dos Trópicos”, Belém a “Paris n'América”.8 Tinha teatro de ópera, bonde elétrico, luz na rua antes de muita cidade da Europa, calçamento importado, gente falando francês nas ruas.
O dinheiro da borracha jorrava como água na torneira. E pra onde foi esse dinheiro? Muito ficou aqui nos palacetes da Cidade Velha e de Batista Campos, é verdade, mas muito foi drenado pelo governo federal e pelos bancos estrangeiros. E quando o ciclo quebrou (porque os ingleses, muito “espertos”, piratearam as sementes da seringueira e plantaram na Malásia), a região entrou numa crise braba.9
O que o governo central fez? Ajudou a reerguer? Investiu em outra coisa? Não, mano. Largaram a gente de mão. Ficaram só “tirando” o que sobrava. A partir de 1930, com Getúlio Vargas, o projeto de industrialização do Brasil foi desenhado para concentrar tudo em São Paulo.10
Não foi “natural”. Foi projeto político. Decidiram que o Sudeste seria a fábrica e o Norte seria a fazenda e a mina. O dinheiro dos impostos de todo o país foi usado para construir a infraestrutura do Sudeste. Pro Norte, sobrou o isolamento e a promessa de “integração” que na verdade era ocupação militar e estrada pra boi passar.
3.2. A Invenção do “Nortista” Genérico e a Preguiça Intelectual
Tu já reparou que pra muita gente lá do Sul, do Maranhão pra cima é tudo a mesma coisa? Eles têm uma preguiça mental enorme. Confundem Norte com Nordeste, chamam a gente de “baiano” ou “paraíba” de forma pejorativa (o que já é uma xenofobia nojenta contra os irmãos nordestinos também).
Existe uma “invenção” do Nordeste e do Norte no imaginário deles.11 Eles criaram um estereótipo: terra seca (no Nordeste) ou só mato (no Norte), gente pobre, passando fome, sem cultura, vivendo de favor. Para eles, a Amazônia é um vazio demográfico.
Eles ignoram que Belém é uma metrópole de 400 anos, mais velha que muita capital do Sul, com universidades federais de ponta, centros de pesquisa como o Museu Goeldi (que tem fama mundial), prédios, trânsito caótico (até demais!), e uma cultura vibrante. Para eles, a gente ainda anda de cipó e mora em oca. Esse apagamento da nossa complexidade urbana e intelectual é uma ferramenta de dominação. Se eles convencerem todo mundo que aqui só tem “mato e bicho”, fica mais fácil vir aqui e levar o minério sem pedir licença pra quem mora aqui.
3.3. Racismo Disfarçado de “Opinião Regional”
Não dá pra não falar disso, mano. A nossa população é majoritariamente cabocla, indígena, negra. É o sangue da terra. A população do Sul, em muitas partes (não todos, claro, tem gente boa lá também), se orgulha de ser “europeia”, “branca”, “descendente de alemão e italiano”.
O preconceito contra o Norte tem uma raiz racista profunda.12 Eles associam o “branco” ao progresso, à inteligência, à civilização, à organização. E associam o caboclo, o indígena, ao atraso, à preguiça (o mito do “baiano preguiçoso” ou do “índio que não gosta de trabalhar”).14
Quando discriminam o nosso sotaque, a nossa cor, o nosso jeito de ser, estão exercitando um racismo estrutural que tenta nos colocar como cidadãos de segunda classe. É a velha história do colonialismo: o colonizador se acha superior ao colonizado pra justificar a exploração.
4. A MÍDIA E A “VISAGEM” QUE ELES CRIAM DA GENTE
A televisão e os jornais lá de baixo (o tal eixo Rio-SP) têm uma culpa grande nesse cartório. O jeito que a gente aparece na tela da Globo, da Record, da CNN, molda o que o povo lá pensa da gente. Eles criam uma “visagem”, uma assombração sobre o Norte.
4.1. Jornal Nacional: Só Desgraça e Mato Queimando
Uma pesquisa acadêmica mostrou que quando a Região Norte aparece no Jornal Nacional, a esmagadora maioria das vezes é notícia ruim.15 É desmatamento, é garimpo ilegal, é conflito de terra, é seca, é enchente, é massacre em presídio.
Claro, mano, esses problemas existem e têm que ser mostrados. A gente sabe que o bicho pega aqui. Mas cadê o resto?
- Cadê a cena cultural fervilhante de Belém?
- Cadê a tecnologia desenvolvida nas nossas universidades sobre biotecnologia?
- Cadê o turismo de luxo em Alter do Chão?
- Cadê a gastronomia paraense que ganha prêmio internacional todo ano?
Isso não aparece. Só aparece o “Território-Problema”.15 Isso cria na cabeça do brasileiro médio lá do Sul a ideia de que a Amazônia é um lugar perigoso, sem lei, um faroeste, onde só tem tragédia. Aí, quando se fala em mandar recurso federal pra cá, o pessoal torce o nariz, achando que é jogar dinheiro em saco furado.
4.2. O Exotismo na Novela e o “Sotaque de Ninguém”
E quando aparece na novela? Vixe Maria! É um show de horrores, uma falta de respeito. Os atores (quase sempre do Sudeste) tentam imitar o nosso sotaque e sai uma mistura de nordestino genérico com caipira do interior de São Paulo que não existe em lugar nenhum.14
A gente é retratado como “exótico”. O ribeirinho é sempre aquele ser “puro”, ingênuo, boboca, ou então o “bicho do mato” violento. A mulher do Norte é hipersexualizada (a “cunhã” sensual da floresta, a “Tieta”, a “Gabriela” – que mesmo sendo Bahia, o estereótipo respinga aqui).
Nunca colocam um paraense como um empresário de sucesso, um cientista renomado, um médico chefe de hospital, falando com o nosso sotaque “chiado” gostoso e usando nossas gírias (“égua”, “tu vais”). Isso é o que chamam de invisibilidade regional. Eles apagam quem nós somos de verdade e colocam um boneco de papelão no lugar. E o pior: muita gente aqui acaba acreditando nisso e ficando com vergonha de ser quem é. Mas aqui não, xará! Aqui a gente tem orgulho de ser caboclo!
5. O NOSSO FALAR: AMAZONÊS É PÁTRIA, MANO!
Uma das coisas que eles mais discriminam, e que a gente mais tem que defender, é a nossa língua. O nosso “Amazonês”. Eles acham engraçado, acham errado, acham “feio”. Mas eles são é lesos de não perceber a riqueza disso.
O nosso português é um dos mais ricos e corretos do Brasil.
- Herança Lusa: Nós “chiamos” (o S com som de X) e usamos o “tu” conjugado certo (“tu vais”, “tu queres”), herança direta de Portugal que o pessoal do Centro-Sul perdeu (eles falam “você vai” ou, pior, “tu vai”).16
- Raiz Indígena: A doçura e as palavras do Nheengatu (Língua Geral) estão na nossa boca todo dia. “Guri”, “Curumim”, “Tucupi”, “Carapanã”.
- Influência Nordestina: A malemolência e a criatividade vieram com os imigrantes da seca que viraram soldados da borracha.
Quando a gente diz que algo é “pai d'égua”, a gente tá exaltando a qualidade máxima. Quando a gente diz que tá “brocado”, é uma fome que vem da alma, não é só apetite. O “arredar”, o “te mete”, o “égua” (que serve pra alegria, tristeza, raiva e susto).
O preconceito linguístico é uma forma de tentar calar a gente. Dizer que a gente fala “errado” é dizer que a gente pensa errado. Mas tenta explicar pra um paulista a diferença sutil entre “boca miúda” (fofoqueiro) e “boca mole” (fofoqueiro leso). Tenta explicar a ironia de um “olha já” ou a profundidade de um “lá na caixa prega”. Eles não manjam! O nosso sotaque é nossa identidade. É a prova de que a gente não foi totalmente colonizado.
6. A COP30: GORARAM TANTO QUE ATÉ GRINGO ENTROU NA DANÇA
Agora, o bicho pegou de vez com a escolha de Belém pra sede da COP30 em 2025. Meu amigo, foi um “chororô” e uma gorialheira lá pra baixo que parecia menino punido sem merenda.
6.1. “Belém não tem estrutura” (A Inveja Mata)
A primeira desculpa foi a estrutura. “Ah, Belém não tem hotel 5 estrelas suficiente”, “Ah, o trânsito da BR-316 é infernal”, “Ah, é quente demais”. Olha, mano, problemas a gente tem, discunforme. O trânsito na Almirante Barroso é teste pra cardíaco. Mas o Rio de Janeiro e São Paulo também têm favela, têm tiroteio, têm engarrafamento monstro, têm poluição, e ninguém deixa de fazer evento lá por causa disso.
A verdade é que eles não aceitam perder o protagonismo. A COP30 na Amazônia coloca a gente no centro do debate mundial. O mundo quer ver a floresta, quer ver o povo da floresta. O francês, o americano, o chinês, eles querem pisar na Amazônia. Eles não querem ver prédio espelhado na Avenida Faria Lima, isso eles têm em casa. E isso dói no ego do sudestino que se acha o dono do Brasil e a porta de entrada do país.
6.2. O Chanceler Alemão e a Falta de Simancol
E não é só brasileiro não, viu? A xenofobia e o preconceito atravessam o oceano. Teve aquele caso do político alemão, Friedrich Merz, que veio aqui visitar e depois saiu falando mal na imprensa internacional. Disse que “ninguém da comitiva queria ter ficado” em Belém e que foi um alívio voltar pra Alemanha, chamando nosso lugar de “aquele lugar” com desprezo.17
Égua da falta de educação e de “simancol”! O cara vem na nossa casa, a gente recebe com o maior calor (humano e climático), serve o melhor peixe, apresenta a nossa cultura, e o sujeito sai falando mal pelas costas? Isso mostra como a visão colonialista ainda tá viva na cabeça deles. Para eles, a gente é um lugar “selvagem”, “perigoso”, “inferior”. Eles querem a Amazônia preservada, mas não gostam dos amazônidas. Querem a árvore em pé, mas desprezam quem mora debaixo dela.
Mas a resposta do povo foi na lata, na “bicuda”. O paraense é invocado. A gente não baixou a cabeça. As redes sociais foram inundadas de orgulho, mostrando que Belém é linda, sim, que nossa cultura é rica, sim, e que se ele não gostou, “pega o beco”!.18 O Senado até aprovou voto de censura, porque mexeu com um, mexeu com todos.
6.3. O “Profissão Repórter” e o Ódio nas Redes
Teve também aquele episódio do programa Profissão Repórter que focou nas contradições das obras da COP e na pobreza. Claro, jornalismo tem que mostrar problema. Mas a repercussão nas redes sociais foi nojenta.
Começaram a chamar Belém de “lixão”, dizer que o povo vive na lama, que era um absurdo fazer evento “no meio do mato”, destilando um ódio gratuito.19 Isso não é crítica construtiva. Isso é aporofobia (medo e aversão a pobre) e xenofobia pura. Eles usam os nossos problemas (causados em grande parte pelo abandono histórico que a União promoveu) para nos humilhar. É o opressor culpando a vítima pela opressão.
7. O PACTO FEDERATIVO: UMA CONTA QUE NÃO FECHA E O “CUSTO AMAZÔNIA”
Vamos voltar pros números, pra fechar a conta desse dossiê e tu teres argumento pra qualquer discussão de bar ou de internet. Existe um mito de que o Estado de São Paulo paga a conta do Brasil e o Norte gasta.
É verdade que São Paulo arrecada muito imposto federal. Mas por quê? Pela centralização econômica que explicamos lá em cima. Se a empresa tira o lucro daqui e paga o imposto lá, a estatística fica viciada.
Então, a riqueza circula. O dinheiro sai daqui (minério, energia, biodiversidade), roda lá, gera imposto lá, e depois eles dizem que “mandam de volta” via Fundo de Participação dos Estados (FPE). O FPE não é favor, mano! É obrigação constitucional pra tentar diminuir a desigualdade absurda que eles criaram ao longo de séculos!
E mesmo com o FPE, se tu colocar na ponta do lápis:
- O prejuízo bilionário da Lei Kandir.
- O custo da energia barata que a gente manda pra eles.
- O custo ambiental que fica aqui (quem paga pra recuperar o rio poluído?).
- O potencial turístico e biotecnológico que a gente não explora por falta de investimento.
A gente tá no vermelho nessa troca. O Norte é um credor ambiental e econômico do Brasil. O Brasil deve pra Amazônia, e não o contrário.
7.1. A Logística: O “Custo Amazônia” que Eles Inventaram
Eles reclamam que é caro produzir aqui. Chamam de “Custo Amazônia”. “Ah, é difícil chegar, não tem estrada”. Mas quem desenhou a logística do Brasil? Foram eles, lá de Brasília!
Fizeram tudo rodoviário pra beneficiar a indústria de caminhões do Sudeste (Mercedes, Scania, Volvo, tudo lá em SP/PR). Abandonaram nossos rios! A Amazônia tem as maiores “estradas” naturais do mundo: o Amazonas, o Tapajós, o Madeira. Se tivessem investido em hidrovias decentes, em portos modernos integrados, o transporte aqui seria o mais barato do mundo.20
Mas preferiram fazer a Transamazônica (que até hoje é lama e poeira) do que usar o rio. Foi burrice estratégica ou projeto de dominação pra manter a gente isolado? Fica a pergunta no ar. Se o Norte fosse integrado com o Caribe e os EUA via mar, a gente não precisava mandar nada pro porto de Santos. E isso assusta eles.
8. ARREMATANDO A PROSA: TE METE, QUE A GENTE É PORRUDO!
Então, mano, pra finalizar esse artigo que já tá ficando maceta de grande, mas precisava ser assim pra não deixar pedra sobre pedra.
O Sul e o Sudeste discriminam o Norte por quatro motivos principais:
- Ignorância: Eles realmente não conhecem o Brasil. Vivem numa bolha e se alimentam de estereótipos da TV.
- Arrogância Econômica: Acham que sustentam a gente, quando na verdade parasitam nossos recursos naturais (minério, energia) sem pagar o imposto devido (Lei Kandir). É a lógica da colônia.
- Racismo/Xenofobia: Têm preconceito contra a nossa origem mestiça, indígena e cabocla, e contra o nosso jeito de falar e viver.
- Medo da Perda de Poder: Eles sabem, lá no fundo, que o futuro do mundo passa pela Amazônia. Se a gente acordar, se organizar e exigir o que é nosso, o eixo de poder do Brasil muda de lugar. A COP30 é só o começo.
O que a gente faz agora?
A gente não baixa a cabeça. A gente não muda o sotaque pra agradar ninguém. A gente não para de comer nosso açaí com peixe frito e farinha d'água.
A gente estuda, a gente se organiza politicamente, a gente cobra o fim da Lei Kandir, a gente exige respeito na mídia.
A gente usa a nossa cultura, a nossa música (o brega, o carimbó, a toada do boi), a nossa arte, como arma de guerra e resistência.
Eles podem ter o dinheiro dos bancos da Faria Lima, mas nós temos a chave do clima do mundo, a maior reserva de água doce, a maior riqueza mineral e a maior biodiversidade do planeta. E temos algo que eles parecem ter perdido na correria do trânsito de lá: a alegria de viver, a hospitalidade e o orgulho de ser quem somos.
O Norte não é o “país do futuro” que nunca chega. O Norte é o presente. É a solução. E quem não entender isso, vai ficar falando sozinho, com a boca mole, enquanto a gente passa de avião por cima (ou de balsa, porque a gente gosta do vento na cara).
É isso, parente. Espalha a mensagem. Manda no “Zap”. Mostra pra aquele teu primo que mora em Curitiba e vive falando asneira no grupo da família. Mostra que aqui não tem “coitadinho”. Aqui tem caboclo porrudo, escovado, invocado e cheio de orgulho.
Te mete com a gente!
GLOSSÁRIO PARA OS “DE FORA” (SE É QUE ELES VÃO LER)
Se algum sulista caiu de paraquedas aqui e não entendeu nada, toma aqui a tradução, pra não ficar boiando igual merenda em água de enchente:
- Égua: Expressão universal do paraense. Serve pra espanto, surpresa, alegria, raiva… o contexto é quem manda.
- Pai d'égua: Muito bom, excelente, top de linha.
- Leso: Bobo, sem noção, abestado.
- Pavulagem: Soberba, se achar o tal, ostentação.
- Goriar: Desejar azar, secar, ter inveja, “olho gordo”.
- Maceta: Algo muito grande, imenso.
- Brocado: Com muita fome.
- Carapanã: Mosquito, pernilongo (o terror dos turistas).
- Tuíra: Sujeira na pele, aquele pó branco que fica quando a gente se risca.
- Visagem: Assombração, fantasma, ou olhar feio pra alguém.
- Discunforme: Em grande quantidade, “pra dedéu”.
- Te mete: Desafio, “tenta a sorte”, ou ironia “olha como ele se acha”.
- Só o filé: Coisa boa, tranquila, de primeira qualidade.
- Pega o beco: Vai embora, sai fora.
9. IMAGEM DE ENCERRAMENTO
Descrição da Imagem para o Artigo:
Uma ilustração digital vibrante e colorida, misturando o estilo de arte de rua amazônica (grafite regional com traços indígenas) e o realismo.
- Primeiro Plano: Um casal jovem de caboclos modernos, com traços indígenas marcantes e pele morena.
- Ela: Cabelo preto liso solto, usando uma camiseta branca com a frase estampa em letras vermelhas: “ÉGUA, NÃO ENCHE!”. Ela tem um olhar desafiador, “invocado”, e aponta com o dedo indicador (ou com o bico, fazendo aquele gesto clássico com a boca).
- Ele: Vestindo uma camisa de futebol listrada (pode ser alusão a Remo ou Paysandu, ou uma neutra azul e vermelha), braços cruzados, postura firme de quem não leva desaforo.
- Fundo (Lado Esquerdo – A Raiz): O Mercado Ver-o-Peso imponente, com suas torres de ferro azul, cestos de açaí transbordando e alguns urubus voando alto (símbolo irônico e real da cidade) contra um pôr do sol laranja forte na Baía do Guajará.
- Fundo (Lado Direito – A Potência): A floresta densa se misturando com a modernidade: prédios altos de Belém ao fundo e, mais atrás, a silhueta imponente da barragem de Belo Monte e um trem da Vale carregado de minério saindo em direção a um mapa do Brasil esquemático. No mapa, a região Norte brilha em dourado e verde neon, pulsando energia para o resto do país, que está em tons mais apagados de cinza.
- Detalhes: No céu, balões de fala estilo quadrinho saindo da boca de pessoas no fundo com gírias: “Te mete!”, “Pai d'égua!”, “Respeita o Norte!”.
- Texto no Rodapé da Imagem: Em letras garrafais estilo as pinturas de letras de barco (aquelas com sombra e degradê): “AQUI O BRASIL COMEÇA. RESPEITA A TUA ORIGEM, MANO!”
Referências citadas
- A mineração como pilar econômico do Pará | Economia | O Liberal, acessado em fevereiro 7, 2026, https://www.oliberal.com/economia/a-mineracao-como-pilar-economico-do-para-1.929087
- Mineração responde por 47% do saldo da balança comercial. Investimentos sobem para US$ 68,4 bilhões | Brasil Mineral, acessado em fevereiro 7, 2026, https://www.brasilmineral.com.br/noticias/mineracao-responde-por-47-do-saldo-da-balanca-comercial-investimentos-sobem-para-us-684
- Pará encerra 2024 com saldo positivo na balança comercial – Observatório FIEPA, acessado em fevereiro 7, 2026, https://observatorio.fiepa.org.br/2025/01/14/para-encerra-2024-com-saldo-positivo-na-balanca-comercial/
- Pará segue na luta para recuperar R$ 32,5 bilhões de perdas acumuladas pela Lei Kandir, acessado em fevereiro 7, 2026, https://www.seplad.pa.gov.br/2018/01/03/para-segue-na-luta-para-recuperar-r-325-bilhoes-de-perdas-acumuladas-pela-lei-kandir/
- Impactos da Lei Kandir são tema de audiência pública no município de Santarém, acessado em fevereiro 7, 2026, https://agenciapara.com.br/noticia/1424/impactos-da-lei-kandir-sao-tema-de-audiencia-publica-no-municipio-de-santarem
- Belo Monte lidera geração de energia no 1º semestre – Aranda Editora, acessado em fevereiro 7, 2026, https://www.arandanet.com.br/revista/em/noticia/11187-Belo-Monte-lidera-geracao-de-energia-no-1%C2%BA-semestre.html
- Belo Monte é a usina que mais gerou energia para o Brasil no primeiro trimestre de 2025, acessado em fevereiro 7, 2026, https://memoriadaeletricidade.com.br/blog/143490/belo-monte-e-a-usina-que-mais-gerou-energia-para-o-brasil-no-primeiro-trimestre-de-2025
- Ciclo da borracha – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em fevereiro 7, 2026, https://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_da_borracha
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- Belém é alvo de ofensas xenofóbicas após reportagem sobre a COP30 – Alma Preta, acessado em fevereiro 7, 2026, https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/belem-vira-alvo-de-ataques-xenofobicos-apos-reportagem-do-profissao-reporter-sobre-a-cop30/
Por que o Sul do Brasil é Muito mais Rico do que o Norte? – YouTube, acessado em fevereiro 7, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=VNEEEOx15sY




