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O Fenômeno dos Rios Voadores e a Segurança Estratégica do Brasil

Égua, mano! A Amazônia é a Nossa Bomba d'Água que Sustenta o Brasil Todo! Olha já, parente, presta atenção nesse babado que eu vou te...
InícioEstilo de VidaCulturaUma Análise Sociológica da Programação Matinal na Televisão Brasileira

Uma Análise Sociológica da Programação Matinal na Televisão Brasileira

A Verdade Nua e Crua: Por que a TV de Manhã é Sangue, Gritaria e Bucho de Lontra (E não Dondoca Perfumada)

1. Introdução: A Visagem da Manhã na TV

Égua, parente! Tu já parou pra pensar nessa doidice? Lá fora, na terra dos gringos, a TV de manhã é tudo de bubuia: gente bonita, cozinha chique, tudo padrão. Mas aqui no Brasil, se tu liga a TV cedo, é uma bumbarqueira só: sangue correndo, apresentador gritando igual doido e, muitas vezes, um anão ou um boneco fazendo mizura no palco.

A pergunta que não quer calar é: “Por que diacho as emissoras botam um cara com bucho de lontra e um anão falando de morte, em vez de uma cunhantã bonitona falando de flor e poesia?”

A resposta não é porque os diretores são lesos. É tudo calculado, meu sumano. É a tal da “estética da brutalidade”. É trocar o bonito pelo feio porque o feio paga as contas. Bora entender esse bafafá.

1.1. O “Já Era” das Revistas Eletrônicas Chiques

Antigamente, a Globo tentava empurrar aquele padrão “Zona Sul”, tudo limpinho, cheiroso. Mas os números mostram que isso levou o farelo. Programas que tentaram botar mulher bonita falando de “coisa boa” (tipo aquele Aqui na Band ou o Manhã com Você da RedeTV) traçaram no Ibope. Foi um passamento total. O povo olhou e disse: “Me erra! Quero ver é a realidade”.

2. A Economia da Sangueira: É Barato e Rende

O primeiro motivo é a grana, pai d'égua. A TV é um comércio e eles querem lucro.

  • A Conta não fecha: Fazer programa bonito, com luz de rico e artista famoso, custa uma nota preta. É muita pavulagem pra pouco retorno.

  • Crime é de graça: A desgraça tá aí na rua, discunforme. Não precisa de roteiro. É só mandar o repórter pra baixa da égua e filmar. A violência é um recurso que nunca acaba.

  • Enche linguiça: Um crime só rende horas de papo furado. O apresentador fala, grita, repete… enche o tempo sem gastar um tostão a mais.

  • Quem paga a conta?: Marca de luxo não anuncia de manhã. Quem anuncia é farmácia (remédio pra velho), empréstimo pra quem tá liso e agora essas casas de aposta (Bets). Esse povo quer ver gente, quer ver fuzuê, não quer ver dica de moda que custa um rim.

3. O “Bucho de Lontra” é Gente da Gente

Aqui tá o pulo do gato, ou melhor, do boto. Para a elite, esses apresentadores gordos, suados e carrancudos são bregas. Mas pro povão, pro trabalhador que tá no ônibus lotado, eles são “de verdade”.

  • Beleza ofende: Uma apresentadora magérrima, com a pele de pêssego, falando de viagem pra Paris às 8 da manhã, é um tapa na cara do pobre. O povo olha e pensa: “Tua mãe não te vende, garota! Tu não sabe o que é pegar um carapanã na veia”.

  • O Bucho é Credibilidade: O tal “bucho de lontra” (o apresentador gordo, desarrumado) passa a imagem de quem trabalha, de quem sua a camisa, de quem tá peitada na luta. Ele é falho, igual a nós. Ele come chibé, ele se irrita. Isso gera confiança.

  • O Anão e a Gaiatice: E o anão? Ele tá lá pra aliviar. Depois de 3 horas vendo morte, o povo precisa rir. É a bandalhêra organizada. O anão subverte a ordem, é o pequeno vencendo o gigante. Pro povo, ver o anão ganhar um carro é vitória, é só o filé.

4. A Cabeça do Povo: Medo e Vingança

Por que a morte dá mais Ibope que a vida? É coisa da nossa cabeça mesmo, mano.

  • Ficar de mutuca: O ser humano evoluiu pra prestar atenção no perigo. Saber onde o ladrão tá é mais importante pra sobreviver do que saber a cor do esmalte da moda. É instinto.

  • Vingança: A justiça no Brasil é devagar, nem te conto. Quando o apresentador xinga o bandido e diz “CPF cancelado”, o povo sente uma lavada na alma. É a vingança do povo na voz do apresentador. As dondocas falando de “good vibes” não entregam essa raiva que a gente sente.

5. Quem Assiste TV de Manhã? (Os Velhos e os Lisos)

A demografia mudou, parente.

  • Quem foi embora: A juventude e a galera da grana foram pro streaming, pro YouTube. Eles pegaram o beco da TV aberta.

  • Quem ficou: Quem sobrou na frente da TV de manhã são os idosos e a classe C, D e E. E o que esse povo quer? Quer saber se o bairro tá perigoso (segurança) e qual remédio tomar pra dor no joelho.

  • As tentativas de “gourmetizar” a manhã (como a Band tentou) falharam porque o público que gosta de coisa chique não tá mais lá. Tentar vender caviar pra quem quer comer tacacá não dá certo, né sumano?

6. Resumo da Ópera: O Sucesso do “Mundo Cão”

Olha o sucesso do Balanço Geral e do Primeiro Impacto. Eles misturam:

  1. Sangue: O medo do bandido.

  2. Fofoca: A “Hora da Venenosa”, que é a boca miúda comendo solta.

  3. Humor: A gaiatice do palco.

A Globo teve que se render. Acabou com o Vídeo Show e teve que botar sangue no jornal pra competir. Se não fizesse isso, ia ficar falando sozinha.

7. Conclusão: É Feio, mas Funciona

Então, respondendo tua pergunta na lata: A TV coloca o anão e o apresentador carrancudo falando de morte porque isso vende. As “mulheres bonitonas” vendem um sonho que o povo não pode comprar. O “mundo cão” vende a realidade que o povo vive e teme. O apresentador que grita é o caboclo que nos defende. Enquanto o Brasil for desigual e violento, a “estética da brutalidade” vai ser pai d'égua de audiência. O resto é potoca de gente rica.

Tá safo? Agora tu já sabe: quando ver o Datena ou o Ratinho gritando, lembra que aquilo ali é puro suco de Brasil e estratégia de mercado.

A Estética da Brutalidade e a Economia do Grotesco: Uma Análise Sociológica da Programação Matinal na Televisão Brasileira

1. Introdução: A Dissonância Cognitiva da Manhã Televisiva

A paisagem midiática brasileira apresenta, nas suas faixas matinais, um fenômeno que desafia as convenções estéticas tradicionais da televisão global. Enquanto o padrão hegemônico ocidental — historicamente influenciado pelo modelo norte-americano de morning shows como Good Morning America — privilegia a leveza, o “lifestyle”, a culinária e figuras apresentadoras que epitomizam padrões de beleza inalcançáveis, a televisão aberta brasileira, notadamente em emissoras como Record, SBT e Band, consolidou um modelo antagônico. Este modelo é caracterizado pela exploração exaustiva da violência urbana, narrada por figuras masculinas que rompem com a etiqueta burguesa e a estética de “galã”, frequentemente acompanhadas por assistentes de palco que remetem ao circo e ao teatro de revista, como pessoas com nanismo ou figuras caricatas.

A questão central que orienta este relatório — “O que leva um canal de televisão a colocar um anão e um apresentador fora dos padrões estéticos (‘bucho de lontra') falando de morte, em vez de mulheres padronizadas falando de coisas boas?” — exige uma dissecção multidimensional. Não se trata de uma simples escolha de “mau gosto” por parte dos diretores de programação, mas de uma resposta racional e calculada a imperativos econômicos, demográficos e psicológicos. A substituição do “belo e bom” pelo “feio e trágico” é o sintoma de uma crise de representatividade na mídia de massa e da consolidação de uma “estética do realismo visceral” que dialoga diretamente com as classes C, D e E.

Neste documento, analisaremos como a “economia do medo” 1 torna o crime uma mercadoria mais rentável que o entretenimento; como a demografia envelhecida e empobrecida da audiência matinal rejeita a “positividade tóxica” das revistas eletrônicas de elite; e como figuras grotescas (no sentido bakhtiniano) geram índices de confiança e identificação superiores aos de apresentadoras que simbolizam uma perfeição inatingível.

1.1. O Declínio do Modelo “Revista Eletrônica” de Variedades

Historicamente, a TV Globo tentou impor um “Padrão Globo de Qualidade” que higienizava a tela, apresentando um Brasil moderno, urbano e sofisticado. No entanto, os dados de audiência dos últimos anos mostram um esgotamento desse formato nas faixas matinais. Programas que tentaram replicar a estética de “mulheres bonitas falando de coisas boas” — como o extinto Manhã com Você da RedeTV! 2, o Superpoderosas e Aqui na Band 3 — enfrentaram fracassos retumbantes, muitas vezes registrando traço (zero de audiência).

Em contrapartida, formatos como Balanço Geral e Primeiro Impacto, que misturam jornalismo policial sangrento com humor de palco caótico, mantêm uma base de audiência sólida e, crucialmente, rentável.5 O fracasso das “coisas boas” na TV aberta não é um acidente; é uma rejeição sistêmica por parte de um público que vê na “conversa fiada” sobre moda e decoração uma afronta à sua realidade de luta pela sobrevivência.

2. A Economia Política do Sangue: Custo, Lucro e Publicidade

A primeira camada de resposta para a predominância do jornalismo policial sensacionalista reside na estrutura de custos da produção televisiva. A televisão é, antes de tudo, um negócio que visa maximizar a margem de lucro. A disparidade de custos entre produzir “coisas boas” e “coisas ruins” é abissal.

2.1. A Assimetria dos Custos de Produção

Produzir “beleza” é caro. Um programa de variedades matinal que pretenda abordar temas positivos exige:

  • Cenografia e Iluminação: Ambientes que simulem salas de estar luxuosas exigem investimento pesado em direção de arte.
  • Direitos Autorais e Cachês: Levar cantores, atores ou especialistas renomados muitas vezes envolve custos de logística, cachês ou complexas negociações de permuta.
  • Roteirização: “Coisas boas” precisam ser criadas. É necessário uma equipe de pauta para descobrir a “história de superação”, o “novo método de emagrecimento” ou a “tendência de verão”. O conteúdo não existe a priori; ele precisa ser fabricado.

Por outro lado, o crime é uma matéria-prima gratuita e abundante fornecida pela realidade social brasileira.

  • O Crime como Recurso Renovável: A violência urbana não exige roteiristas. O assassinato, o sequestro e a enchente ocorrem espontaneamente. As emissoras funcionam apenas como coletoras de um material que já está dado na realidade.1
  • Logística Compartilhada: Uma única equipe de reportagem na rua ou um único helicóptero pode alimentar a programação da manhã, da tarde e da noite. O custo de enviar um repórter para cobrir um homicídio na Zona Leste de São Paulo é diluído por horas de programação ao vivo.5
  • Preenchimento de Tempo: Programas como Primeiro Impacto (SBT) ou Balanço Geral (Record) têm durações extensas (frequentemente 3 a 4 horas). É impossível preencher esse tempo com “conteúdo de qualidade” ou “dicas de lifestyle” sem que o custo se torne proibitivo ou o conteúdo se torne repetitivo. O crime, com seus desdobramentos infinitos (a perseguição, a prisão, o choro da família, a audiência de custódia), preenche horas de grade com baixo custo por minuto produzido.

2.2. A Rentabilidade do Medo e o Perfil do Anunciante

Existe um mito no mercado publicitário de que marcas não gostam de se associar a “mundo cão”. Embora isso seja verdade para marcas de luxo (automóveis premium, perfumes importados), a TV aberta matinal não vive desses anunciantes. O intervalo comercial desses programas é dominado pelo varejo popular, farmacêuticas (suplementos para idosos, remédios para dor), empréstimos consignados e, mais recentemente, o fenômeno das casas de apostas (Bets).6

Tabela 1: Comparativo de Viabilidade Econômica

VariávelPrograma de Variedades (“Coisas Boas”)Programa Policial (“Mundo Cão”)
Custo de ProduçãoAlto (Exige exclusividade, cenários caros)Baixo/Médio (Equipes de rua, estúdio simples)
Matéria-PrimaEscassa (Precisa ser criada/roteirizada)Abundante (Fornecida pela realidade violentada)
Perfil de AnuncianteCosméticos, Alimentos, Varejo (Classe B)Farmácias, Varejo Popular, Bets, Consórcios
EngajamentoPassivo (Pano de fundo, “ruído de companhia”)Ativo (Adrenalina, medo, indignação)
ElasticidadeBaixa (Repetir pauta de moda cansa)Alta (Mesmo crime rende dias de cobertura)

Os dados indicam que marcas populares preferem a atenção garantida do espectador que está “grudado” na tela esperando o desfecho de um crime, do que a atenção dispersa do espectador de um programa de culinária. Recentemente, a entrada massiva de casas de apostas como patrocinadoras de quadros em programas populares (como no Programa do Ratinho) reforça essa sinergia: a adrenalina da aposta casa-se com a adrenalina da notícia policial, criando um ecossistema de alta excitação.6

3. Sociologia da Identificação: O Corpo Grotesco como Verdade

A pergunta do usuário destaca especificamente a figura do apresentador com “bucho de lontra” e do “anão”. Para a elite cultural, essas figuras representam o mau gosto e a exploração. Contudo, sob a ótica da sociologia da comunicação e dos estudos culturais, essas figuras operam como potentes vetores de identificação e autenticidade para a classe trabalhadora.

3.1. A Estética da Perfeição como Violência Simbólica

Para a mulher da classe C/D, que acorda às 5h da manhã para pegar transporte público lotado, a imagem de uma apresentadora “bonitona”, magra, com pele perfeita e roupas de grife, falando sobre ioga ou viagens para a Europa, não gera aspiração; gera ressentimento e alienação.

  • O Abismo de Realidade: Programas que insistiram nessa estética (como as fases finais do Vídeo Show ou tentativas de “glamourizar” as manhãs da Band) fracassaram porque a “beleza” apresentada era percebida como uma violência simbólica. Ela esfregava na cara do espectador tudo o que ele não tinha e nunca teria.
  • A “Conversa de Coisas Boas”: Falar de “coisas boas” em um país assolado pela inflação, desemprego e violência soa, para o público popular, como “conversa de rico”. É visto como futilidade, descolamento da realidade ou até mesmo deboche.

3.2. O “Bucho de Lontra” como Capital de Autenticidade

O termo “bucho de lontra”, usado pejorativamente para descrever apresentadores como Sikêra Jr., Ratinho, Datena ou Gilberto Barros, descreve corpos que não se adequam aos padrões de fitness e controle da elite.

  • O Corpo Indisciplinado: Na teoria de Mikhail Bakhtin sobre o “realismo grotesco”, o corpo popular é um corpo aberto, que come, bebe, grita e sua. O apresentador gordo, descabelado, que afrouxa a gravata e grita com a câmera, é lido pelo público como “um homem de verdade”.
  • A Performance do Trabalho: Esse apresentador performa o esforço. Ele parece estar trabalhando duro no palco, suando a camisa (literalmente), lutando pelos direitos do povo. Diferente da apresentadora de variedades que parece estar em um eterno coquetel, o apresentador policial está em uma “trincheira”. Sua aparência desleixada é, paradoxalmente, seu uniforme de batalha. Ele gera confiança porque é falho, assim como seu público.

3.3. A Função do “Anão” e a Carnavalização

A presença recorrente de pessoas com nanismo (como Marquinhos no Balanço Geral e Programa do Gugu) e outras figuras consideradas “bizarras” desempenha uma função crucial de alívio cômico e subversão hierárquica.

  • O Bobo da Corte Moderno: Em um programa que fala de morte por três horas, a tensão se torna insuportável. A figura cômica (o anão, o boneco, o sonoplasta que solta efeitos sonoros de “ratinho”) serve como válvula de escape. Eles permitem que o programa transite do terror para o riso em segundos.7
  • Inclusão pelo Avesso: Embora criticado por ativistas como exploração, para o público popular, a presença dessas figuras é vista como inclusão. Ver o anão Marquinhos ganhar um carro, uma casa e ter destaque na TV (como ocorreu nos programas da Record) é uma narrativa de vitória do oprimido.8 É a vingança do “pequeno” contra o sistema. O programa policial torna-se um circo eletrônico onde as anomalias sociais são acolhidas e celebradas, ao contrário da estética higienista da Globo que as esconde.

4. Psicologia da Audiência: O Medo, a Curiosidade e a Proteção

Por que a morte atrai mais que a vida? A resposta reside na psicologia evolutiva e na forma como o cérebro humano processa ameaças.

4.1. O Viés de Negatividade e a Sobrevivência

O cérebro humano evoluiu para priorizar informações sobre perigo. Saber onde há um predador (ou um assaltante) é mais importante para a sobrevivência do que saber onde há uma flor bonita.

  • Vigilância Vicária: O público assiste ao noticiário policial não apenas por sadismo, mas como uma forma de aprendizado. Ao ver “onde” o crime aconteceu e “como” o bandido agiu, o espectador sente que está adquirindo informações para se proteger. O programa funciona como um sistema de radar social.9
  • Teoria do Gerenciamento do Terror: Diante da mortalidade, o ser humano busca reafirmar seus valores culturais. O apresentador policial, ao classificar o mundo entre “cidadãos de bem” e “vagabundos”, oferece uma estrutura moral clara que conforta o espectador diante do caos. Ele promete ordem através da punição.

4.2. A Teoria da Cultivação (George Gerbner)

A exposição contínua a esse conteúdo cria a “Síndrome do Mundo Malvado” (Mean World Syndrome). Quanto mais a pessoa assiste a programas policiais, mais ela acredita que o mundo é perigoso, e mais ela sente necessidade de continuar assistindo para se “proteger”.1

  • Ciclo de Dependência: Cria-se um ciclo vicioso onde o medo gerado pelo programa só é aliviado pela promessa de vigilância do próprio programa. Programas de “coisas boas” não geram essa dependência química de cortisol e dopamina; eles são dispensáveis.

4.3. A Catarse da Vingança

Em um país onde a taxa de resolução de homicídios é baixa e a sensação de impunidade é alta, o programa policial oferece uma justiça simbólica. Quando o apresentador xinga o criminoso, humilha o preso ou celebra a morte de um bandido (“CPF cancelado”), ele está oferecendo ao público uma catarse que o Estado falha em entregar. O “feio” falando de morte torna-se o vingador do povo. As “mulheres bonitas” falando de flores parecem alheias a essa sede de justiça.

5. Análise Demográfica: Quem Assiste TV de Manhã?

Para entender a programação, é essencial entender quem está do outro lado da tela. O perfil do telespectador de TV aberta no horário matinal sofreu mudanças drásticas na última década.

5.1. O Êxodo da Classe A/B e da Juventude

As classes mais abastadas e o público jovem migraram massivamente para o streaming e para o consumo on-demand. Eles não consomem TV linear para se informar ou entreter; usam a internet.

  • A “Guetização” da TV Aberta: A audiência restante na TV aberta é desproporcionalmente composta por idosos (acima de 60 anos) e pelas classes C, D e E.10
  • Interesses Específicos: Segundo pesquisas da FGV e Kantar Ibope, idosos e classes populares têm preocupações imediatas com saúde, segurança e renda.10 Um programa que fala sobre a criminalidade no bairro (segurança) e vende remédio para artrose (saúde) está perfeitamente alinhado com a demanda desse público. Um programa sobre turismo em Paris ou a nova coleção de moda outono-inverno é irrelevante.

5.2. O Fracasso das Tentativas de “Gentrificação” da Grade

As emissoras tentaram, várias vezes, colocar programas mais “qualificados” no ar para atrair anunciantes de elite. O caso da Band é emblemático: tentou substituir desenhos e programas populares por atrações “femininas e de culinária” (Cozinha do Bork, Superpoderosas), resultando em queda de audiência e cancelamento rápido.3 O público da Band naquele horário queria desenhos ou notícias, não receitas gourmet. Da mesma forma, a RedeTV! falhou com Manhã com Você, que tentava uma linguagem “leve e descontraída” mas registrava traço de audiência.12 O público simplesmente não estava lá para isso.

6. Estudos de Caso: O Sucesso do “Mundo Cão” vs. O Fracasso do “Lifestyle”

A análise comparativa de programas específicos ilustra a tese de que a estética popular/violenta é comercialmente superior à estética elite/positiva no contexto brasileiro atual.

6.1. Sucesso: O Fenômeno “Balanço Geral” (Record)

O Balanço Geral é o arquétipo do sucesso desse modelo. Ele combina:

  1. Jornalismo Policial: Cobertura ao vivo, helicóptero, repórteres em áreas de risco.
  2. Defesa do Consumidor: Quadros de denúncia contra serviços públicos (água, luz), posicionando a emissora como aliada do povo.
  3. Fofoca e Humor (A Hora da Venenosa): O quadro que frequentemente derrota a TV Globo em audiência não é sobre morte, mas sobre fofoca de celebridades, feita de forma “venenosa” e descontraída, muitas vezes com a presença de bonecos ou anões.13 Insight: O segredo não é a morte, mas a hibridização. O programa oferece o pacote completo de emoções populares: o medo do bandido, a raiva do político e o riso da fofoca. Tudo embalado por apresentadores que falam a língua do povo (gírias, sotaques regionais).

6.2. Fracasso: A Crise da “Manhã Global” e Concorrentes

Até a TV Globo, detentora da hegemonia, teve que “popularizar” suas manhãs. O fim do Vídeo Show e a transformação do Encontro com Fátima Bernardes (e depois Patrícia Poeta) para incluir mais pautas policiais e casos de violência mostram que a “conversa boa” pura não segura mais audiência.5 A Globo precisou sujar as mãos de sangue para competir com a Record.

  • Caso SBT: O SBT tentou criar o Chega Mais (revista eletrônica), mas historicamente sua força reside no Primeiro Impacto, um jornal sangrento apresentado por figuras polêmicas como Dudu Camargo (no passado) e Marcão do Povo. A tentativa de “sofisticar” o SBT frequentemente esbarra na resistência do seu público cativo, que foi educado por décadas de Silvio Santos a esperar programas populares e sensacionalistas.5

7. A Morte como Espetáculo e a Ética da Transmissão

É necessário abordar as implicações éticas e sociais dessa escolha. A “economia do medo” transforma tragédias humanas em commodities.

7.1. A Espetacularização da Dor

A cobertura policial matinal não é documental; é melodramática. A câmera dá zoom no rosto da mãe que chora, a trilha sonora sobe, o apresentador faz um discurso inflamado.

  • O “Zoom” Invasivo: As técnicas de filmagem buscam o detalhe grotesco. Sangue, corpos cobertos, o choro desesperado. Isso viola a privacidade das vítimas, mas aumenta a retenção da audiência.1
  • A Narrativa de “Bem x Mal”: Não há espaço para nuances sociológicas sobre as causas da criminalidade. O mundo é dividido de forma maniqueísta. Isso simplifica a realidade para o espectador, tornando o conteúdo fácil de consumir, mas politicamente perigoso ao incentivar soluções violentas.

7.2. A Regulação Falha

Apesar de existirem leis sobre Classificação Indicativa e Direitos Humanos, os programas matinais frequentemente operam em uma zona cinzenta, abusando da liberdade de imprensa para exibir conteúdos chocantes em horários onde crianças podem estar assistindo. A justificativa é sempre o “interesse público” e a “prestação de serviço”, mas a prática revela a busca incessante por pontos no Ibope.

8. Conclusão e Perspectivas

A resposta à indagação inicial é que a televisão aberta brasileira é um mercado darwinista onde a estética e o conteúdo são ditados pela sobrevivência econômica e pela relevância cultural para a massa.

As “duas mulheres bonitonas falando coisas boas” representam um ideal de sociedade que não existe para a maioria dos brasileiros. Elas vendem um mundo de consumo e tranquilidade que é inacessível. Sua presença na tela, pela manhã, gera desconexão.

Por outro lado, o “anão” e o “apresentador com bucho de lontra” falando de morte representam a verdade crua do cotidiano nacional.

  1. Identificação: Seus corpos imperfeitos espelham os corpos do público.
  2. Linguagem: Sua fala cheia de gírias e indignação ecoa as conversas nos pontos de ônibus e nos bares.
  3. Conteúdo: A violência que narram é a violência que o público teme e vive.

A TV coloca esses programas no ar porque eles funcionam. Eles vendem remédio, vendem consórcio, elegem políticos e mantêm a emissora viva em um cenário de concorrência brutal com a internet. O grotesco, neste contexto, não é uma falha estética, mas uma ferramenta de alta eficiência comunicativa. Enquanto o Brasil for um país desigual, violento e carente de representação popular autêntica, o “mundo cão” continuará reinando nas manhãs, e as “coisas boas” continuarão restritas aos canais pagos e aos feeds de Instagram das elites.

A “beleza” na TV aberta tornou-se um luxo insustentável; o “horror”, por sua vez, é a moeda corrente de maior liquidez no mercado da atenção popular.

Referências Citadas

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Referências citadas

  1. O crime que vende: a economia do medo no jornalismo televisivo …, acessado em janeiro 22, 2026, https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo-policial/o-crime-que-vende-a-economia-do-medo-no-jornalismo-televisivo-brasileiro/
  2. Demissão coletiva na RedeTV! tem clima de terror, e só grávida escapa do facão, acessado em janeiro 22, 2026, https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/demissao-coletiva-na-redetv-tem-clima-de-terror-e-so-gravida-escapa-do-facao-145976
  3. Band cancela programa feminino e de culinária e investe em desenhos nas manhãs – RD1, acessado em janeiro 22, 2026, https://rd1.com.br/band-cancela-programa-feminino-e-de-culinaria-e-investe-em-desenhos-nas-manhas/
  4. Band teve juízo em cancelar programa de Mariana Godoy – Jornal Cruzeiro do Sul, acessado em janeiro 22, 2026, https://www.jornalcruzeiro.com.br/canal-1/band-teve-juizo-em-cancelar-programa-de-mariana-godoy/
  5. Polícia, tragédia e Ibope: Record e SBT apostam em manhã do caos …, acessado em janeiro 22, 2026, https://natelinha.uol.com.br/colunas/coluna-do-sandro/2025/06/05/policia-tragedia-e-ibope-record-e-sbt-apostam-em-manha-do-caos-na-tv-226974.php
  6. Cassino é a nova patrocinadora oficial do quadro ‘Gol Show' no Programa do Ratinho, acessado em janeiro 22, 2026, https://igamingbrazil.com/casas-de-apostas/2025/02/17/cassino-e-a-nova-patrocinadora-oficial-do-quadro-gol-show-no-programa-do-ratinho/
  7. Morre filho do anão Marquinhos, do “Domingo Show”, aos quatro meses – NaTelinha, acessado em janeiro 22, 2026, https://natelinha.uol.com.br/noticias/2014/11/13/morre-filho-do-anao-marquinhos-do-domingo-show-aos-quatro-meses-82372.php
  8. Disputa por anão, cusparada e igreja 24h estão entre os absurdos do ano – Notícias da TV, acessado em janeiro 22, 2026, https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/disputa-por-anao-cusparada-e-igreja-24h-estao-entre-os-absurdos-do-ano-1654
  9. Por que as pessoas gostam de “true crime”, segundo psicologia – UAI Notícias, acessado em janeiro 22, 2026, https://www.uai.com.br/uainoticias/2025/11/13/por-que-as-pessoas-gostam-de-true-crime-segundo-psicologia/
  10. Brasileiros com 65 anos ou mais são 10,53% da população, diz FGV – Agência Brasil – EBC, acessado em janeiro 22, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-04/brasileiros-com-65-anos-ou-mais-sao-10-53-da-populacao-diz-FGV
  11. Kantar Ibope mostra que Classe C e público sênior dominam a audiência do streaming, acessado em janeiro 22, 2026, https://maquinadoesporte.com.br/midia/kantar-ibope-mostra-que-classe-c-e-publico-senior-dominam-a-audiencia-do-streaming/
  12. Após 5 meses, RedeTV! termina com o programa Manhã com Você – NaTelinha, acessado em janeiro 22, 2026, https://natelinha.uol.com.br/televisao/2026/01/08/apos-5-meses-redetv-termina-com-o-programa-manha-com-voce-236254.php
  13. Saiba mais sobre o telejornal Balanço Geral Manhã – Record – R7, acessado em janeiro 22, 2026, https://record.r7.com/balanco-geral-manha/saiba-mais-sobre-o-telejornal-balanco-geral-manha-22022025/
  14. Balanço Geral – Notícias e entretenimento – Record TV – R7, acessado em janeiro 22, 2026, https://record.r7.com/balanco-geral/
  15. Desgaste atinge entretenimento de auditório na TV aberta em 2025 – O Planeta TV, acessado em janeiro 22, 2026, https://oplanetatv.clickgratis.com.br/noticias/audiencia-da-tv/desgaste-atinge-entretenimento-de-auditorio-na-tv-aberta-em-2025.html
  16. Você tem fascínio por crimes e serial killers? Epa! Isso é normal? – H2FOZ, acessado em janeiro 22, 2026, https://www.h2foz.com.br/coluna/claudio-dalla-benetta/voce-tem-fascinio-por-crimes-e-serial-killers-epa-isso-e-normal/
  17. Como o Homem do Sapato Branco ajudou a moldar o mundo cão da TV brasileira | Jornal de Brasília, acessado em janeiro 22, 2026, https://jornaldebrasilia.com.br/viva/literatura/como-o-homem-do-sapato-branco-ajudou-a-moldar-o-mundo-cao-da-tv-brasileira/
  18. A mente de um pedófilo: psiquiatra alerta para comportamentos característicos – G1 – Globo, acessado em janeiro 22, 2026, https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2023/07/08/a-mente-de-um-pedofilo-psiquiatra-alerta-para-comportamentos-caracteristicos.ghtml
  19. FRANCISCA SELIDONHA PEREIRA DA SILVA, acessado em janeiro 22, 2026, https://ape.es.gov.br/Media/ape/PDF/Disserta%C3%A7%C3%B5es%20e%20Teses/Hist%C3%B3ria-UFES/UFES_PPGHIS_FRANCISCA_SELIDONHA_PEREIRA_SILVA.pdf
  20. Os 15 momentos mais bizarros e inesperados da televisão em 2013 – Fotos – UOL TV e Famosos, acessado em janeiro 22, 2026, https://televisao.uol.com.br/album/2013/12/20/os-13-momentos-mais-bizarros-e-inesperados-da-televisao-em-2013.htm?imagem=6
  21. Anão para senador da República! – Recontando histórias do domínio público, acessado em janeiro 22, 2026, https://www.portalentretextos.com.br/post/anao-para-senador-da-republica
  22. Sikêra Júnior – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em janeiro 22, 2026, https://pt.wikipedia.org/wiki/Sik%C3%AAra_J%C3%BAnior
  23. Fracasso milionário: Sem Censura espanta 8 em 10 telespectadores da TV Brasil, acessado em janeiro 22, 2026, https://revistaoeste.com/imprensa/fracasso-milionario-sem-censura-espanta-8-em-10-telespectadores-da-tv-brasil/
  24. Após contratação de Datena, Ratinho revela pedido que fez a Daniela Beyruti no SBT, acessado em janeiro 22, 2026, https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/apos-contratacao-de-datena-ratinho-revela-pedido-que-fez-a-daniela-beyruti-no-sbt-129318