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O Canto do Sabiá no Coração da Amazônia: A Trajetória Selada e Di Rocha de Roberto Villar no Brega Paraense

Abertura Impactante: O Ecoar do Sabiá nas Noites da Amazônia

Quando a buca da noite começa a cair sobre as docas, vielas e palafitas de Belém do Pará, e a maré da Baía do Guajará atinge o seu lançante, a atmosfera da cidade se transforma de maneira estorde. A brisa morna traz consigo o cheiro inconfundível do tucupi fervendo nas esquinas, misturado ao aroma do tacacá e ao leve pitiú que emana dos mercados de peixe à beira-rio. Égua, não tem como ficar imune a esse cenário. Das rabetas e cascos que cortam silenciosamente os rios calmos, até os imensos paredões de som das periferias que anunciam uma bumbarqueira daquelas, a música popular paraense pulsa intensamente, tal qual o sangue nas veias do caboclo. Nesse vasto cenário onde o rio comanda o ritmo da vida e a umidade ingilha a pele de quem vive da pesca, do roçado e do suor diário, um nome se ergueu de rocha para transformar a história sonora da região amazônica: Roberto Villar. O homem que, sem embaçamento algum, capturou o sentimento mais profundo do povo ribeirinho e o transformou em discos de ouro e platina.1

Falar sobre a figura de Roberto Villar não é apenas destrinchar a biografia de um cantor de sucesso; é realizar uma análise antropológica da própria alma do brega paraense. Ele não é e nunca foi um artista de meia tigela. Tratado com reverência pela imprensa local e idolatrado pelo povo como o verdadeiro Rei do Pop Brega e o pioneiro incontestável do ritmo Calypso, Villar é a tradução musical e visceral de quem cresceu à pulso.1 É a representação daquele que enfrentou os maiores pau d'água da existência, que sentiu o peso das intempéries, mas que nunca permitiu que as dificuldades vergassem o seu compasso. A relevância de sua extensa obra transcende o mero entretenimento de fim de semana nas fulhancas; ela atua como um documento sociológico de uma Amazônia urbana e periférica que, durante muito tempo, foi alvo de estigmas e olhada com pavulagem e desprezo pelo eixo Sul-Sudeste do país.4 No entanto, essa mesma região encontrou em seus acordes acelerados, repletos de malícia e paixão, a sua mais pura e autêntica identidade cultural.

A trajetória de Villar é, para dizer no mais puro amazonês, o bicho. É a crônica cantada de um artista ladino que soube ler com perfeição as dores, os amores, as traições e as bebedeiras homéricas do trabalhador comum, embalando tudo isso em um ritmo purrudo e absurdamente contagiante.1 Em uma época em que a indústria fonográfica nacional tapava o sol com a peneira para ignorar o que era produzido de forma independente no Norte do Brasil, ele meteu a cara, deu uma peitada no sistema, fundou sua própria gravadora e espocou fora rumo ao estrelato.1 Ele provou que a música feita sob a sombra acolhedora das imensas mangueiras tinha força suficiente para conquistar e arrepiar o Brasil inteiro. Seja tocando nas bandalheiras de bairro sem hora para acabar, seja liderando as paradas nas rádios de ponta a ponta, a voz inconfundível de Roberto Villar cravou-se na memória afetiva do paraense, ficando selado, sacramentado e eternizado como uma lenda viva da cultura amazônica.

Origem e Trajetória: De Curumim Sonhador a Rei do Norte

A odisseia desse ícone começa bem longe dos holofotes brilhantes e das colossais aparelhagens que fariam sua fama. Roberto Villar nasceu no município de Primavera, no interior profundo do estado do Pará.1 Um lugar pacato, onde a vida passava mansa, sem os sobressaltos da metrópole, e o tempo era ditado pelas fases da lua, pelas marés e pelo ciclo das chuvas. Como todo bom caboco nativo, sua infância foi marcada pela simplicidade rústica do interior, cercado por igarapés cristalinos, roças de mandioca e o som constante dos pássaros que habitam a floresta. O curumim corria solto, brincando até ficar com tuíra na perna que parecia uma perna de caranguejo, só osso, cabelo e lama, exigindo que os pais tivessem que esfregar o uma bucha com sabão na hora do banho para tirar a sujeira das brincadeiras no chão de terra. No entanto, o destino já matutava planos muito mais macetas para aquele jovem. Em 1974, aos oito anos de idade, sua família decidiu que era hora de capar o gato daquele isolamento e mudou-se para a cidade de Castanhal, conhecida afetuosamente como a “Cidade Modelo”, buscando novas oportunidades e um futuro que lhes permitisse escapar de estar sempre na roça, no sentido mais duro e financeiro da expressão.1

Crescer nas ruas de Castanhal nas décadas de 1970 e 1980 moldou definitivamente o espírito duro na queda de Villar. A vida não oferecia facilidades em uma bandeja de prata, e a família sofreu mais que cachorro de feira nos primeiros tempos de adaptação. Ele precisou dar seus pulos desde muito cedo, entendendo que, para não levar o farelo nas artimanhas da vida, era necessário ter pulso firme e trabalhar incansavelmente. A paixão pela música, contudo, já estava firmemente embiocada em sua mente e em seu coração. Em 1982, um jovem Roberto, ainda um tanto encabulado, mas impulsionado por uma cuíra incontrolável de cantar, decidiu que era hora de dar um passo à frente.1 Ele começou a participar de shows de calouros, eventos populares que funcionavam como o verdadeiro e rigoroso celeiro de talentos do interior paraense.1 Nesses palcos muitas vezes improvisados, construídos sobre tablados simples de madeira que mais lembravam imensos jiraus de lavar louça, ele soltava a voz e deixava a galera presente tá pagando, de queixo caído com a potência e a afinação de seu canto. Aquele curumim já não era mais uma simples promessa local; o papo desse bicho era sério, e a voz de boca miúda já começava a espalhar seu nome pelos arredores.

Antes de sequer pensar em uma carreira solo brilhante e de gravar o seu nome nos cobiçados discos de vinil, Villar ralou de forma discunforme. Ele trabalhou arduamente como crooner em diversas bandas de baile que animavam a região.1 Essa fase inicial foi, sem dúvida, a sua grande e mais rigorosa escola musical. Nas noites intermináveis, cantando de tudo um pouco para animar o povo trabalhador que, após uma semana de lida, só queria esquecer a murrinha do dia a dia e curtir uma fulhanca, ele aprendeu a dominar o palco. Aprendeu a ler o público, entendendo exatamente o que fazia o povão dançar freneticamente e o que os fazia chorar de saudade e desespero amoroso. Foram anos levando peitada das circunstâncias, trabalhando nos bastidores escuros, perambulando de festa em festa, cantando sob torós impiedosos e enfrentando o cheiro forte dos mercados pelas manhãs de ressaca da cidade, quando muitos amanheciam com a cara branca de cansaço ou dando passamento pela fome. Essa vivência nua, crua e sem maquiagem deu a ele o estofo poético e existencial necessário para, mais tarde, não apenas entoar palavras vazias, mas sim cantar a verdadeira vivência de quem entende o que é apanhar mais do que vaca quando entra na roça e, ainda assim, levantar com a cabeça erguida e pronto para a próxima batalha.

A transição de um talentoso cantor de bandas de baile para um artista solo de renome incontestável não aconteceu do dia para a noite, como num passe de mágica. Foi preciso muita malandragem (no bom sentido da sobrevivência), muito suor derramado nos ensaios exaustivos e uma visão de futuro aguçada. Villar era um sujeito escovado, extremamente ladino, e sabia perfeitamente que, para não ficar para trás na concorrência acirrada e impiedosa da música regional, ele precisava trazer um fato novo, algo que fosse diferente do costumeiro, algo que fosse só o creme mano, só o filé. E foi munido com essa mentalidade obstinada e cismada que ele começou a matutar o seu próprio, único e irrepetível caminho na complexa indústria fonográfica.

Ascensão no Brega Paraense: Do Vinil ao Disco de Platina

O grande e definitivo salto para as gravações oficiais de estúdio ocorreu na buca da década de 1980, um período de grande efervescência, transição e revolução cultural no estado do Pará. Em 1987, Villar teve a sua primeira oportunidade de ouro ao gravar duas faixas em uma coletânea em disco de vinil chamada “Os Populares do Norte Vol. 2”, lançada pela lendária e emblemática gravadora Gravodisco, sediada em Belém do Pará.1 Esse disco seminal foi o passaporte necessário para que a sua voz grave e marcante espocasse fora dos limites municipais de Castanhal e ganhasse os ares da grande capital. Em 1991, já mais conhecido pela boca mole dos fãs de música popular, ele emplacou mais duas faixas de destaque no LP “Semente do Brega”, produzido pela M. Produções.1 O sucesso foi crescendo de forma orgânica e acelerada. O público cativo do brega já não queria apenas ouvir aquelas canções isoladas nas coletâneas; a cambada inteira queria saber quem era, de fato, aquele artista que cantava com tamanha paixão e desespero, transmitindo a dor de quem estava na pedra, sofrendo por amor.

No ano de 1993, ocorreu a consagração material de seu esforço com o lançamento do seu primeiro disco solo em formato de vinil (LP), intitulado “A Nuvem”, também distribuído pela M. Produções.1 O álbum bateu forte e rápido nas paradas de sucesso locais. As emissoras de rádio não paravam de tocar os seus sucessos, e quem tinha um aparelho de rádio em casa ficava de butuca, atento, esperando a música do Roberto Villar começar para aumentar o volume e cantar junto. No entanto, o artista era ladino demais para se contentar em ficar nas mãos de empresários e produtores que, muitas vezes, ficavam apenas na pavulagem e não valorizavam o suor e o talento do artista local como deveriam, pagando pouco e exigindo muito. Invocado, aborrecido com as limitações impostas por terceiros e totalmente decidido a tomar as rédeas do seu próprio destino financeiro e artístico, Villar deu uma verdadeira e monumental peitada na indústria fonográfica: em 1994, com coragem e visão, fundou sua própria e independente gravadora, batizada de Aquarius Music, pela qual lançou o seu segundo LP, “O Sabiá”.1 Esse movimento de independência e ousadia foi uma espécie de gambiarra empresarial genial que deu certíssimo, demonstrando a todos que ele não era nenhum leso, gala seca ou nó cego quando o assunto envolvia contratos e negócios comerciais.

Mas o verdadeiro e avassalador toró de sucesso, aquele fenômeno estrondoso que alagou o Brasil de Norte a Sul com as batidas aceleradas do ritmo paraense, veio em 1997. Nesse ano cabalístico, Roberto Villar lançou o seu primeiro trabalho fonográfico em formato de CD, grandiosamente intitulado “Ator Principal”, também com o selo de sua gravadora Aquarius Music.1 E-g-u-á, o que aconteceu a partir daquele momento nas ruas e lojas foi história pura, inegável e assombrosa. O disco simplesmente pulverizou recordes, vendendo a marca estarrecedora de mais de 500 mil cópias em todo o território nacional.1 Era um fenômeno estorde, fora do comum. As prateleiras das lojas de disco espalhadas pelos centros comerciais esvaziavam mais rápido do que uma tigela de farinha d'água no prato de um trabalhador que tá brocado após o expediente. O sucesso foi tão retumbante, denso e maceta que rendeu a Villar o cobiçado Disco de Ouro, entregue em rede nacional no extinto programa “Quem Sabe Sábado” da TV Record, e, posteriormente, o impressionante Disco de Platina no aclamado “Programa Raul Gil”, também transmitido pela mesma emissora.1 De repente, quase num piscar de olhos, o caboco aguerrido do interior do Pará estava brilhando na televisão nacional, esbanjando carisma e mostrando para o país inteiro que a música da Amazônia era chibata demais, firme demais para ficar escondida apenas lá onde o vento faz a curva.

O CD “Ator Principal” atingiu o patamar glorioso de se tornar a produção fonográfica independente mais vendida em todo o país durante o ano de 1998, rendendo ao artista convites prestigiosos até para programas conceituados e de viés mais intelectualizado, como o programa “Vitrine”, da TV Cultura de São Paulo.1 A faixa musical que dava título ao álbum, um hino monumental de dor de cotovelo, desilusão amorosa e superação de um passamento sentimental, foi merecidamente incluída na prestigiada coletânea “TOP BREGA” da toda-poderosa gravadora Som Livre, braço fonográfico do sistema Globo.1 A partir desse ponto crucial, o céu parecia ser o único limite. Em 2000, já consolidado e sem aceitar lero lero da concorrência, lançou o álbum “Pop Brega Brasil”, que rapidamente e de forma arrasadora ultrapassou a marca de 90 mil cópias vendidas.1 Impulsionado por essa rumpança de hits, Villar passou a realizar turnês e shows lotados em mais de vinte estados brasileiros e levou o som quente e vibrante do Pará muito além das fronteiras tupiniquins, realizando fulhancas memoráveis e lotadas em regiões fronteiriças como a Colômbia, a Guiana Francesa e a distante Amazônia Peruana.1 O sucesso estava selado, di rocha, e Villar se consagrava, sem margem para dúvidas, como o monarca absoluto de um reino sonoro sem fronteiras e sem preconceitos.

Estilo Musical e Identidade Artística: A Invenção do Calypso Caboclo

Para compreender a verdadeira magnitude e a genialidade da obra de Roberto Villar, é estritamente necessário entender o ecossistema musical fértil, porém complexo, de onde ele brotou. Até o início da década de 1990, o brega romântico tradicional, encabeçado magistralmente por ícones nacionais e regionais como Reginaldo Rossi, Alípio Martins e Adilson Ribeiro, dominava de forma soberana o imaginário popular.5 Eram, em sua essência, baladas mais arrastadas, tristes, feitas sob medida para dançar de rosto coladinho, ideais para chorar as mágoas profundas bebendo solitário no balcão úmido de um bar de esquina. Contudo, a juventude da periferia de Belém, vibrante e super ativa como um muleque doido, pedia algo mais rápido. Havia uma demanda reprimida por algo que desse vazão à enorme energia acumulada durante a semana de trabalho duro; uma batida que combinasse perfeitamente com as luzes frenéticas, os lasers potentes e os painéis de LED das novas festas de aparelhagem que começavam a surgir.

Foi exatamente dentro desse caldeirão cultural em ebulição que Villar, culiado a produtores perspicazes e músicos incrivelmente visionários, meteu a cara sem medo e ajudou a forjar e criar o que viria a ser conhecido nacional e internacionalmente como o ritmo Calypso paraense.1 A análise rigorosa de especialistas em música regional e do próprio mercado aponta indubitavelmente que Villar desempenhou um papel fundamental na ousada transição daquele brega mais lento e lúgubre para um ritmo altamente acelerado, suingado, temperado com forte e indisfarçável influência da lambada ardente, do carimbó tradicional e dos envolventes ritmos caribenhos (como o merengue e a cumbia) que chegavam clandestinamente pelos rádios de onda curta vindos das Guianas e do Caribe.6 O andamento do contrabaixo ganhou uma malemolência única, uma ginga estorde, e a guitarra elétrica passou a fazer de forma incessante aquele chacumdum característico: um solo chorado, agudo, e ao mesmo tempo incrivelmente percussivo, que se tornou a marca registrada e o DNA do novo ritmo.12

A forte identidade artística de Villar, contudo, não se prendia única e exclusivamente ao ritmo frenético e contagiante dos instrumentos; havia também uma assinatura lírica muito peculiar, profunda e narrativa. Enquanto muito artista metido a besta e cheio de bossalidade fazia letras complexas, com vocabulário hermético que a maioria do povo não entendia direito, Villar preferia falar diretamente a linguagem do povo, a linguagem do parente, do sumano. Ele falava e cantava sem embaçamento algum. Suas composições discorriam sobre a rotina do pescador que pega o casco e o remo de madrugada para pensar nas agruras da vida, sobre as longas, poeirentas e dolorosas viagens pela rodovia Transamazônica, do calor de São Luís até o isolamento de Marabá, e sobre os amores trágicos perdidos para sempre nas plataformas frias das estações de trem.14 A voz de Villar possuía um timbre forte, agradavelmente anasalado e carregado de uma emoção tão densa, capaz de ir da euforia ensurdecedora de uma farra noturna à tristeza profunda de quem levou uma canelada brutal do destino em questão de instantes.

Com destreza, ele criou e vestiu a persona do galanteador interiorano, o homem simples que sofre amargamente por amor, que vê seu relacionamento desmoronar, mas que jamais perde a compostura ou a dignidade. As suas histórias não eram compostas por lero lero ou papo furado; as suas músicas possuíam a consistência grossa da crueira pilada no fundo do quintal. A imprensa especializada e popular o coroou, de forma unânime e justa, como o “Rei do Pop Brega” e o “Rei do Calypso” 1, um título majestoso que ele ostentava com naturalidade e sem um pingo de pavulagem ou arrogância. Ele sabia perfeitamente que sua música era uma ferramenta de união, criada sob medida para tocar com a mesma força e importância tanto nas caixas de som improvisadas de um triciclo que perambulava lentamente pelas ruas enfeitadas de Parintins, quanto nas imensas e intimidadoras torres de som dos grandes clubes de Belém. Villar posicionou-se historicamente como a ponte perfeita, a argamassa cultural entre a antiquíssima tradição musical do caboclo amazônico e as assustadoras inovações tecnológicas e sonoras que estavam prestes a explodir de vez no mercado nacional.

Impacto Cultural: A Voz Soberana da Periferia e das Aparelhagens

É terminantemente impossível mensurar ou discorrer sobre o monumental impacto cultural de Roberto Villar sem se embrenhar corajosamente no universo lisérgico e fascinante das aparelhagens de som. Em Belém e em todo o Pará, a aparelhagem não é e nunca foi apenas um equipamento eletrônico ou um amontoado de caixas de som; ela é uma verdadeira entidade cultural, um altar profano, uma nave espacial faiscante de luzes de neon, lasers rasgando os céus e graves tão porrudos que fazem tremer o chão de terra batida e a caixa torácica de quem ousa ficar muito perto. Nas calorosas décadas de 1980 e 1990, as imensas festas de aparelhagem, comandadas por equipes como o Rubi e o Super Pop, funcionavam como o grande e implacável laboratório de testes da música paraense.5 A regra era simples e cruel: se uma música tocasse lá, naquele templo do suor e do volume máximo, e a cambada aprovasse dançando, o sucesso estava absoluta e irrevogavelmente garantido. E as músicas de Roberto Villar, meu chegado, não apenas tocavam nessas ocasiões; elas simplesmente dominavam, reinavam absolutas e ditavam o andamento da noite.

Quando os famosos e respeitados DJs das lendárias aparelhagens soltavam as primeiras batidas e os primeiros acordes agudos da guitarra das músicas de Villar, a imensa pista de dança se transformava instantaneamente numa verdadeira varrição, num caos organizado de corpos suados em sincronia. Ninguém ousava ficar de touca ou encostado nos cantos. Era um frenesi coletivo assombroso, um momento mágico e efêmero em que o povo esquecia temporariamente que a vida lá fora estava ralada, que o dinheiro do mês estava curto, que a feira estava cara e que todos estavam, no fundo, vivendo na roça das dificuldades financeiras.

A música “Profissional Papudinho”, por exemplo, transcendeu a categoria de sucesso radiofônico e tornou-se um autêntico e inquestionável hino sociológico da região.1 Ao entoar a plenos pulmões os versos icônicos “Sou um profissional papudinho de carteira na mão / Ô garçom, mais uma cerveja que eu quero afogar essa paixão”, Villar realizou um feito formidável: ele validou socialmente e dignificou a figura do homem simples, o trabalhador de sol a sol que enche a cara e esvazia os copos no final de semana para curar as feridas da vida, mas que na manhã de segunda-feira está lá, de pé e sóbrio, batendo ponto em seu emprego, pagando suas contas sem dever nada a ninguém e sustentando sua família com honra.1 A genialidade da canção reside em tirar o pesado estigma moralista do “bebedor irresponsável”, transformando esse indivíduo comum em um personagem extremamente orgulhoso, um verdadeiro e simpático bon vivant da periferia amazônica que apenas busca o seu merecido alívio na garrafa.

O gênero do brega, durante um tempo absurdamente longo, sofreu calado com o estigma covarde imposto pelas autoproclamadas elites culturais do país, sendo pejorativamente rotulado como música de meia tigela, arte escrota, de mau gosto, feita exclusivamente para pessoas grosseiras e sem termo.4 Roberto Villar e a sua aguerrida geração de artistas independentes pegaram esse preconceito tacanho, colocaram-no na bicuda e o chutaram para o mais longe possível. Eles provaram com números e multidões que havia um mercado consumidor gigantesco, discunforme em seu tamanho, ávido, desesperado por se ver representado de forma honesta na arte e na cultura.4 A música arrebatadora de Villar ressoava alto e forte por todos os cantos: nas feiras apinhadas de gente, nas bancas cheirosas do histórico mercado do Ver-o-Peso, nos portos e docas barulhentos, e atravessando livremente as janelas abertas das humildes palafitas ribeirinhas. E quando as nuvens carregadas se juntavam e desabava aquele toró violento na tarde quente de Belém, obrigando as pessoas a se trancarem em casa, era comum que a família se reunisse para tomar um chibé revigorante ou um tacacá pelando de quente, enquanto o som reconfortante que embalava o ambiente fechado era invariavelmente o do LP marcante do Sabiá.

A importância estrutural de Roberto Villar para todo o movimento brega vai muito, mas muito além dos discos vendidos. Ele ajudou ativamente a cimentar e a consolidar uma indústria musical independente verdadeiramente colossal na Amazônia.1 A lógica era de uma resistência feroz: se os engravatados e grandes eixos fonográficos do Sul e Sudeste não queriam distribuir ou investir nos discos paraenses, os próprios artistas locais se viravam, davam seus pulos. Eles mesmos financiavam e prensavam os CDs, vendiam de mão em mão nos camelôs espalhados pelo centro, distribuíam para os motoristas de ônibus sacrabala e divulgavam à exaustão nos carros de som que perambulavam pelos bairros. Era a famosa e subestimada gambiarra brasileira sendo elevada e operada na potência máxima de uma engrenagem econômica formidável e autossustentável. O povo genuinamente se reconhecia ali, naquelas capas simples e naquelas músicas: viam suas próprias vidas nas letras detalhadas sobre a longa e cansativa viagem pra Ilha do Marajó, identificavam-se com o sotaque sem frescuras, com as gírias do dia a dia e com a malícia inconfundível das histórias de traição e farra. Villar, com sua arte, injetou uma dose maciça de orgulho no caboclo, mostrando cabalmente que a cultura ribeirinha, da floresta e da periferia asfáltica era pai d'égua e possuía força, carisma e qualidade suficientes para botar o Brasil inteiro para dançar e cantar os seus refrões de olhos fechados.

Discografia e Músicas Marcantes: A Trilha Sonora Definitiva de um Povo

A extensa e rica discografia de Roberto Villar funciona como um verdadeiro, profundo e detalhado compêndio antropológico das dores de amor, das traições amargas e das ruidosas alegrias etílicas do povo paraense. As suas canções não são apenas melodias soltas no ar; são crônicas urbanas e rurais complexas, que contam histórias com começo, meio e fim. A seguir, apresentamos uma tabela e uma análise profunda dos maiores pilares sonoros de sua monumental obra:

 

Título do Álbum e LançamentoFaixa de Destaque / HitTemática Abordada e Impacto Cultural Profundo
A Nuvem (1993)A NuvemO seu primeiro grande e ousado marco de gravação solo em LP. A letra evoca de forma pungente as severas tempestades amazônicas como uma poderosa metáfora poética para as incontroláveis intempéries e os sofrimentos do coração apaixonado.1
O Sabiá (1994)O Sabiá / Majestade SabiáLançado heroicamente por sua própria gravadora independente, a Aquarius Music. Esta faixa traz à tona a melancolia contemplativa do caboclo isolado, mesclando magistralmente ritmos regionais mais tradicionais ao frenético pop periférico emergente. Um apelo sonoro às profundas raízes ribeirinhas do homem do Norte.1
Ator Principal (1997)Profissional PapudinhoSem sombra de dúvida, o maior hit comercial de toda a sua longa carreira. Atuou como um verdadeiro divisor de águas na história do brega e na criação do calypso. A letra narra a saga do bebedor responsável, aquele que não perde a compostura nem o emprego, tornando-se instantaneamente o hino absoluto, imortal e inquestionável dos bares, festas de fundo de quintal e gigantescas aparelhagens. O disco superou a absurda marca de 500 mil cópias vendidas.1
Ator Principal (1997)Ator PrincipalA música-título do seu disco mais famoso disserta dolorosamente sobre a arte de fingir não sofrer e esconder as lágrimas pela perda irreparável de um grande amor, incorporando um papel dramático na difícil “novela da vida”. A faixa obteve estrondoso destaque nacional, integrando importantes coletâneas globais e rompendo as fronteiras da Amazônia.1
Pop Brega Brasil (2000)Pop Brega BrasilUm verdadeiro, ufanista e acelerado hino de expansão geográfica. Na letra de ritmo frenético, Villar relata sua jornada artística triunfal: saindo do vizinho Amapá, passando pelas belezas do Marajó, cruzando o Tocantins, Goiás, São Luís do Maranhão, Bahia, a capital federal Brasília e vários estados do Nordeste, desenhando um mapa de dominação cultural do brega pelo país afora.1
Pop Brega Brasil (2000)Minha PapudinhaUma continuação natural e esperada da narrativa hilária de seu maior sucesso, ampliando e explorando ainda mais o universo folclórico, etílico e bem-humorado das farras e festas populares.1
Volume 7 (Ao Vivo) (2004)Te Encontro em Marabá(Música imortalizada pela galera também pelo seu refrão que chama por “Sônia”). A faixa relata com riqueza de detalhes a angústia desesperadora de procurar incansavelmente por um amor volátil que pegou o trem na estação de São Luís e partiu em direção a Marabá, enfrentando a poeira da Transamazônica. É um retrato brutal, mas profundamente romântico, do processo de migração, das longas distâncias, da caixa prega e do duro isolamento geográfico na região.1
Volume 7 (Ao Vivo) (2004)SereiaUma letra bucólica e sensual que exalta apaixonadamente as incontáveis belezas da mulher nativa e da natureza intocada da mítica ilha do Marajó, descrevendo com riqueza de detalhes os banhos revigorantes de cachoeira, os banhos gelados nos igarapés, o canto límpido dos pássaros e a figura imponente dos vaqueiros tocando os búfalos e os bois. É, em essência, uma pintura em forma de música da paisagem cabocla.1

Absolutamente cada uma dessas músicas meticulosamente compostas servia a um propósito muito bem delineado na dinâmica social e nas festas da época. As canções lentas, cheias de dor de cotovelo, chifres e sofrimento serviam perfeitamente para aqueles momentos solitários e silenciosos em que o sujeito, cabisbaixo, sentia que estava literalmente na pedra, dominado por saudades lancinantes, necessitando urgentemente de um alento musical que compreendesse a sua dor sem julgamentos. Já as músicas rápidas, tocadas num andamento que beirava o colapso rítmico, como o Melô do Papudinho, funcionavam perfeitamente como o grito de guerra da sexta-feira à noite, o momento exato e aguardado de capar o gato do trabalho pesado, deixar as ferramentas de lado e ir correndo para o bar da esquina confraternizar, rir e beber com os parentes, os manos, as manas e os sumanos. Sem rodeios, Villar falava romanticamente das ilhas isoladas, das mangueiras frondosas sombreando as ruas, da cor arroxeada do açaí puro batido na hora, conectando de forma visceral e quase espiritual a geografia física de Belém à imensa e inexplorada geografia sentimental de sua população sofrida, porém incrivelmente alegre.23 Não havia qualquer migué, mentira ou potoca na sua arte: ele cantava estritamente o que o povo vivia, o que o povo sentia e o que o povo bebia.

Bastidores, Fofocas e Curiosidades: A Guitarra, a Potoca e o Silêncio Estrondoso

A extensa trajetória profissional de Roberto Villar, apesar de ter sido profundamente luminosa e coroada de recordes, é, nos corredores e cantos escuros, repleta de passamentos, intrigas e histórias bizarras que rodam e se espalham em alta velocidade na boca miúda das esquinas, das feiras e dos incontáveis bares do Pará. O mundo cruel e instável da música independente é, por excelência, um terreno de muita ralação e pouca piedade, onde, por repetidas vezes, o artista é obrigado a engolir muito sapo a seco para não reinar, não perder as estribeiras ou jogar fora a razão de uma vida inteira de trabalho. Um dos capítulos mais intrigantes, misteriosos e incessantemente comentados até hoje nos bastidores poeirentos de sua carreira envolve diretamente um dos maiores e mais populares guitarristas da história recente do país: o músico Cledivan de Almeida Farias, que o Brasil inteiro passaria a conhecer e idolatrar pela alcunha de Chimbinha (ou Ximbinha, em grafias mais recentes).25

Muito tempo antes de sequer imaginar em formar a gigantesca Banda Calypso ao lado de sua então esposa Joelma, e antes de se transformar em um fenômeno pop de proporções continentais e internacionais, um jovem e cabeludo Chimbinha rodou à exaustão pelos acanhados, quentes e mal equipados estúdios de gravação de Belém. O garoto prodígio das cordas de aço foi, durante anos de formação, o fiel guitarrista de estúdio e o acompanhante de palco de Roberto Villar.12 Foi sob a batuta de mestre, as orientações vocais e rítmicas de Villar, executando o compasso acelerado e incrivelmente inovador que despontava como novidade estrondosa nos álbuns da época de O Sabiá, que o jovem Chimbinha aprimorou a técnica veloz e desenvolveu a fundo o icônico chacumdum da guitarra brega que, anos mais tarde, o consagraria como um ícone da música popular brasileira.13 Naqueles tempos difíceis de começo de carreira, eles eram verdadeiros parceiros de estrada inseparáveis, irmãos de som, culiados e unidos no propósito de enfrentar as indescritíveis dificuldades logísticas de perambular pelo vasto e lamacento interior amazônico, onde muitas e muitas vezes a estrutura oferecida pela prefeitura ou pelo dono da festa resumia-se a um palco perigoso e balançante, semelhante a um frágil jirau, precariamente iluminado por uma perigosa gambiarra elétrica puxada de um poste próximo.

Contudo, com o passar dos anos e o giro implacável da roda da fortuna, a maldita panemisse parece ter rondado e contaminado de vez essa promissora amizade. A lenda urbana, que circula fortemente como uma fumaça densa nas rodas de conversa e fervilha nas atuais redes sociais, afirma categoricamente que, após o estouro astronômico e multimilionário da Banda Calypso a partir de 1999, o guitarrista Chimbinha teria subitamente sido acometido de uma amnésia conveniente, apagando o passado e esquecendo completamente do velho amigo, do seu mentor e inquestionável Rei do Brega, Roberto Villar.27 Diz a boca mole dos fofoqueiros de plantão, e aqueles que juram de pé junto conhecer os bastidores da fama, que, inebriado pelo sucesso financeiro, pelas luzes da televisão e pelas viagens internacionais, o guitarrista simplesmente escafedeu-se, sumiu do mapa das amizades antigas e virou as costas duramente para quem, lá no início, quando o dinheiro era curto e o cachê não pagava sequer a passagem de ônibus, lhe abriu generosamente as primeiras e mais importantes portas do show business regional. Para o caboclo invocado, que valoriza a lealdade acima de tudo, ouvir uma história dessas é encarar uma malineza sem tamanho. É ver no ato a postura típica de gente metida a besta, cega pelo dinheiro, tomada por uma pavulagem insuportável, alguém que agora, morando em mansões, parece querer agir como se sua origem fosse outra, a ponto de receber a crítica ríspida de que a “tua mãe não te vende” de tanto que se exibe. Villar, por sua vez, sendo um homem maduro, sempre muito firme em seus propósitos e sem a menor intenção de criar confusões escandalosas ou de apelar para baixarias (evitando o que se chama de “só alopração”), manteve-se olimpicamente calado e polidamente reservado sobre o assunto espinhoso na grande mídia. Ele não alimentou brigas públicas, não jogou indiretas mesquinhas, e provou na prática ser um cara muito cabeça e elegante. No entanto, a galera mais antiga e saudosa do brega, os fãs que colecionam os velhos vinis arranhados, jamais esqueceram desse suposto deslize moral, e a história, sem confirmações ou desmentidos oficiais contundentes, segue viva como uma das maiores e mais intrigantes potocas (ou quem sabe, duras verdades) dos bastidores da música nortista.

Além dessas fofocas suculentas de traições artísticas (ou o clássico nem te conto repassado pelas bocas miúdas), os bastidores reais da produção técnica dos imortais discos de Villar nos precários anos 90 compunham, por si só, uma saga digna de cinema, uma aventura homérica e surreal. Sem contar com o bilionário aparato tecnológico, os enormes orçamentos e os engenheiros de som renomados das gravadoras gigantes localizadas no distante Sudeste, a diminuta Aquarius Music operava única e exclusivamente na base do peito, da raça e de uma dose descomunal de teimosia. Gravar um simples disco completo, com todas as faixas soando de forma coesa, significava obrigatoriamente passar dezenas de noites em claro, varando as madrugadas em estúdios apertados, úmidos e abafados na capital paraense. Eles passavam horas driblando as constantes e terríveis quedas de energia elétrica (os temidos “bugs” e os equipamentos que, do nada, davam prego) e superando a gritante falta de equipamentos de mixagem de ponta. Tratava-se de uma verdadeira e exaustiva teimosia poética e técnica, um cenário em que o talento bruto, rústico e visceral dos músicos de estúdio precisava ser suficiente para compensar toda e qualquer carência tecnológica ou estrutural. O simples e assombroso fato de ele ter conseguido a proeza de vender mais de meio milhão de cópias físicas no ano de 1997 contando apenas com uma produção estritamente local, prensada quase na raça 1, é a prova irrefutável e cabal de que, quando a mensagem musical é verdadeira, cantada com a alma e toca no fundo do coração do povo, não há força econômica, distância geográfica, preconceito elitista ou porta de executivo engravatado que consiga ficar eternamente fechada.

Situação Atual e um Legado Di Rocha: O Sabiá Voa Solto e em Novos Céus

Inexoravelmente, o tempo e os anos passaram, as caudalosas águas dos imensos rios amazônicos continuaram a correr e a lavar as mágoas nas margens de argila, e as intensas madrugadas frenéticas das casas de show lotadas e repletas de tentações acabaram por dar lugar, aos poucos, a uma nova, mais serena e profunda perspectiva de vida e de mundo. Assim como ocorre rotineiramente com muitos artistas geniais e populares que enfrentam as violentas subidas e descidas da implacável montanha-russa do estrelato, que sucumbem momentaneamente às pesadas tentações e sentem o cansaço físico extremo e o indescritível desgaste psicológico das intermináveis estradas sem asfalto, Roberto Villar, após muita ralação, conseguiu enfim encontrar um novo e definitivo porto seguro para a sua alma inquieta. Após décadas ininterruptas animando intensamente a imensa galera dos quatro cantos do estado e levantando enormes e asfixiantes nuvens de poeira nas arenas lotadas das cidades do interior com o seu suingue pop brega, o aclamado cantor tomou uma decisão drástica, chocando alguns fãs mais radicais: abandonou de vez a música profana, a boêmia romântica, a vida desenfreada de bar, a garrafa de cerveja gelada e as farras sem fim, convertendo-se totalmente e de coração aberto aos ensinamentos do evangelho.2 Atualmente, em uma guinada impressionante de trajetória, o antigo Rei do Calypso dedica todo o poder, a potência e o incrível alcance de sua voz única exclusivamente aos hinos e louvores como um devoto cantor da música gospel, frequentando assiduamente e com fervor os cultos religiosos, e vivendo finalmente uma vida rotineira, limpa, sossegada, pacata e totalmente de bubuia, muito distante do piché das noites insalubres e das polêmicas passageiras.2

Hoje, no ano da graça de 2026, ele reside tranquilamente com sua família na sua amada e familiar Castanhal, a mesmíssima cidade modelo que outrora, no distante e difícil ano de 1974, o acolheu com carinho quando ele chegou como um pequeno curumim amedrontado e cheio de sonhos no olhar.2 Aquela conturbada, errante e famosa vida de encarnar a persona do lendário “papudinho”, de se envolver em longas e desgastantes noitadas nas docas, de sofrências mundanas regadas a muito choro e embriaguez, simplesmente já era. Acabou. Ficou enterrada num passado que, embora não negado, não é mais o seu presente. Villar pendurou, sem olhar para trás, as desgastadas e históricas chuteiras do brega comercial, abdicando dos milhões de plays seculares em plataformas digitais e do dinheiro fácil dos finais de semana, mas a sua magnética e carismática presença cênica e vocal ainda emana um respeito descomunal, reverencial e unânime por onde quer que ele vá. Cada vez mais longe e mais desconectado das estrondosas fulhancas repletas de caixas de som e das antigas culiadas de interesses escusos do show business decadente, o homem que, com tanta maestria e dor, cantou o amor sofredor, ferido, traído e marginalizado das periferias asfálticas, agora, com o coração sereno, canta em alto e bom som unicamente sobre a paz celestial, o conforto da fé inabalável, a salvação eterna e o encontro com o divino. Em sua nova e frutífera fase, ele viaja de maneira muito mais calma, participando como convidado de honra em longas lives nas redes sociais, comparecendo com humildade a diversos e lotados eventos e retiros evangélicos de grande porte 28, e abrilhantando cultos e até mesmo programas regionais nostálgicos transmitidos na televisão local, oportunidades preciosas onde, com a Bíblia nas mãos, ele se senta para conversar e compartilha calmamente, sem nenhuma afetação, os altos e baixos de sua fascinante história pessoal, destacando sempre a sua comovente trajetória de superação absoluta e a sua impressionante transformação espiritual perante os olhos curiosos do público fiel.28

Contudo, apesar da sua drástica, pessoal e definitiva mudança de rumo, de palco e de repertório musical, o impacto monumental e o inestimável legado deixado por Roberto Villar para a vasta cultura popular do Pará, de toda a bacia amazônica e da própria música brasileira como um todo, permanecem maciços, indeléveis, absolutos e indestrutíveis pelo teste implacável do tempo. Se o caboclo moderno, aquele jovem e agitado conectado à internet e morador das baixadas, hoje em dia se orgulha de empinar pipa na rua enquanto escuta altíssimo os mais variados batidões de tecnobrega, as melodias complexas do tecnomelody e as vertentes rápidas do piseiro eletrônico que hoje tomam o país de assalto, esse fenômeno contemporâneo só é possível porque figuras desbravadoras, gigantescas e teimosas como Roberto Villar não tiveram preguiça de afiar o terçado do talento e foram os primeiros a ir lá atrás, a suar a camisa para, literalmente, roçar o terreno ingrato e cheio de mato fechado composto pelo preconceito estético e pela exclusão social das décadas passadas.4

Armado apenas de sua voz poderosa, de arranjos revolucionários em pequenos estúdios suarentos e de um incrível tino comercial independente, ele provou com números estrondosos para todo o establishment nacional, e sem a menor chance de refutação, que a música de matriz regional amazônica não só possuía altíssimo valor e qualidade comercial, como detinha um apelo popular gigantesco e de proporções maciças. Ele escancarou as portas pesadas e enferrujadas do mercado radiofônico. Toda a fervilhante e inventiva nova cena de artistas locais — desde os mais jovens que estouram vertiginosamente na era da internet com milhões de visualizações em vídeos do YouTube ou no Spotify 30, até os modernos cantores, DJs e MCs que continuam a brilhar intensamente sob as luzes hipnóticas das monumentais e insuperáveis aparelhagens que hoje são verdadeiras indústrias de entretenimento, como o colossal Crocodilo e o lendário Super Pop — ainda bebe diretamente, de forma respeitosa e declarada ou até de forma inconsciente, dessa puríssima, cristalina e histórica fonte sonora que o mestre ajudou a cavar com as próprias mãos calejadas nas distantes e analógicas madrugadas dos anos 90.4 A inovadora batida percussiva e acelerada do ritmo Calypso, a forma ímpar e singular de tocar a guitarra chorona que rasga a alma, a inserção arrojada, suingada e dramática de velhos teclados na melodia que trazem ares de nostalgia romântica, e a habilidade única de transformar a dura e rústica narrativa do sofrido cotidiano do caboclo e do trabalhador assalariado em pura e emocionante poesia popular, são elementos fundamentais que permanecem não só vivos, mas altamente relevantes e presentes nas toadas, batidões e marcantes urbanas do cenário musical paraense dos dias de hoje.

Na grandiosa, barulhenta e confusa enciclopédia rítmica da Amazônia brasileira, onde muitos nomes aparecem como um raio e somem como o temporal de fim de tarde, o espaço reservado para este ícone jamais poderá ser apagado. O homem das multidões, aquele mesmo cidadão ladino que no passado chegou a vender impressionante meio milhão de LPs nas lojas empoeiradas da capital, pode hoje ter deixado para sempre as aparelhagens gigantes e trocado em definitivo o balcão encharcado do bar da esquina pelos bancos solenes do templo religioso de sua congregação. No entanto, é inegável que, no fundo do coração de quem foi embalado por suas letras durante tantos anos, a sua essência como o grandioso Rei do Brega continua a reinar serena e poderosa. Roberto Villar não foi apenas um simples intérprete ou um cantor comum na fila dos que buscam a fama rápida; ele foi, antes de tudo, o destemido arquiteto original de toda uma complexa identidade sonora periférica. Ele teve a sensibilidade incomum de se apropriar das queixas reais, das dores silenciosas e das terríveis angústias invisíveis daqueles que estavam frequentemente lisos no fim do mês. Soube escutar com atenção e reproduzir musicalmente o lamento de quem tomou uma cruel canelada da vida implacável, de quem perdeu tudo numa aposta errada, de quem, num dado momento desesperador da juventude e do sofrimento, viu-se sem nenhum paradeiro certo na vida, vagando atordoado e perambulando tristonho pelas ruas desertas, feiras úmidas e praças pouco iluminadas da imensa capital paraense à procura de sentido ou apenas de um copo de bebida.

A genialidade indiscutível de sua obra consistiu justamente na capacidade alquímica de pegar e espremer todos esses elementos brutos, indigestos, tristes e rústicos da vivência marginalizada e, através de sua voz singular, do ritmo envolvente que misturava a Caribe e os ritmos amazônicos, processar e transformar tudo isso numa verdadeira, massiva e hipnotizante catarse coletiva onde as pessoas encontravam a cura e o esquecimento de seus males por meio da pura diversão e do choro abraçado. E, para o povo guerreiro, apaixonado e místico do vasto e ensolarado estado do Pará, um grande artista e curandeiro da alma que realiza um feito de tamanha magnitude e profundidade emocional e cultural simplesmente nunca desaparece nas areias do esquecimento. Pelo contrário: ele fica enraizado. Fica cravado e guardado bem ali ó, num espaço cativo, muito firme, sendo calorosamente protegido e eternizado com enorme reverência na resistente memória coletiva, imune aos bugs e esquecimentos das novas e passageiras modas tecnológicas. Sua voz, seu inconfundível lamento passional e seu ritmo acelerado continuarão tocando e arranhando suavemente as faixas da velha e inquebrantável vitrola da alma nortista, estabelecidos num patamar intocável, cimentados di rocha e para sempre selados na gloriosa história da música. Roberto Villar é, indiscutivelmente, e continuará sendo eternamente lembrado e aclamado como o majestoso, inesquecível e invencível Sabiá do coração da floresta e da noite infinita da Amazônia.

 

Referências citadas

  1. Biografia de Roberto Villar | Last.fm, acessado em março 25, 2026, https://www.last.fm/pt/music/Roberto+Villar/+wiki
  2. Roberto Villar HOJE VIVE ASSIM – YouTube, acessado em março 25, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=m08FfN5o65k
  3. Saiba o que aconteceu com Roberto Villar – YouTube, acessado em março 25, 2026, https://www.youtube.com/shorts/BzSuUm895mI
  4. Tecnobrega: fases de um movimento periférico e os ciclos de música popular no Pará – ANPPOM, acessado em março 25, 2026, https://anppom-congressos.org.br/index.php/31anppom/31CongrAnppom/paper/view/852/502
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  7. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ÁREA DE CO, acessado em março 25, 2026, https://www.historia.uff.br/stricto/td/1734.pdf
  8. Roberto Villar | 3 álbuns da Discografia no LETRAS.MUS.BR, acessado em março 25, 2026, https://www.letras.mus.br/roberto-villar/discografia/
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  29. Roberto Villar- Linha de tempo anos 90- 2024 – YouTube, acessado em março 25, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=JNZO4sMl_Oc

Mell Pinheiro, Lucyan Costa e de Tiffany Boo, conheça alguns nomes da nova cena do brega paraense – O Liberal, acessado em março 25, 2026, https://www.oliberal.com/cultura/mell-pinheiro-lucyan-costa-e-de-tiffany-boo-conheca-alguns-nomes-da-nova-cena-do-brega-paraense-1.747586