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O Carimbó: A Batida que é “Só o Filé” e Furou o Silêncio
Égua, mana e mano! Chega mais aqui no veropeso.shop que hoje o papo é de rocha! Se tu pensas que conheces a nossa terra, mas não sabes a fundo a história do Carimbó, então tu manja nada! Vou te contar essa história daora sobre o tambor que a polícia tentou calar, mas que hoje é o orgulho da nossa galera.
A Mistura que Deu no Carimbó: Coisa de Caboclo
Primeiro de tudo, te mete a saber: Carimbó não é só barulho não, parente. É a alma do caboclo. Como dizia o “cabeça” Vicente Salles, é a síntese das nossas folganças. O nome vem do tupi “Curimbó” (pau oco), aquele tambor que o caboclo senta em cima pra tirar o som no braço.
Essa batida é uma mistura pai d'égua que juntou:
Os Indígenas: Que deram o ritmo, o pé arrastado no chão e o maracá.
Os Africanos: Que trouxeram o batuque forte e o molejo do quadril (síncope).
Os Portugueses: Que vieram com o estalar de dedos e as roupas rodadas.
Tempo Feio: Quando Tocar Tambor dava Cadeia
Mas nem sempre foi de bubuia. Lá pelos anos de 1880, em Belém, a coisa ficou carrancuda. Os “bacanas” queriam imitar a Europa e achavam que nosso batuque era bagunça. Criaram leis (Código de Posturas) proibindo o toque.
Quem fosse pego batendo tambor levava multa e levava o farelo (ia preso).
O Carimbó teve que se esconder nas roças, longe da polícia, lá na caixa prega. Mas o povo era duro na queda e manteve a tradição viva nas festas de santo.
Os Mestres que são “O Bicho”
Depois da tempestade, veio a bonança, e surgiram os mestres que fizeram o ritmo estourar.
Mestre Verequete: Esse era invocado! Defendia o “Pau e Corda” (o som original). Pra ele, botar guitarra no carimbó era coisa de gente lesa. Ele queria a tradição pura, sem gambiarra.
Pinduca: Já esse era escovado (malandro). Viu que pra tocar no rádio tinha que modernizar. Botou bateria, baixo e guitarra. Foi ele que inventou a Lambada também. O cara é bacana demais!
Mestre Cupijó: Lá de Cametá, pegou o Siriá e botou metais de banda marcial. O som ficou maceta (gigante)!
Mestre Lucindo: O poeta pescador de Marapanim, que cantava a beleza do mar e da natureza.
A Dança do Peru: Não vá ficar Panema!
Na hora da dança, a coisa pega fogo. As mulheres com aquelas saias coloridas ficam rodando e provocando. E tem a tal “Dança do Peru de Atalaia”.
O desafio: A dama joga o lenço no chão.
A missão: O cavalheiro tem que pegar o lenço com a boca, sem usar as mãos, enquanto ela joga a saia na cara dele.
Se não conseguir: Ah, meu amigo, aí tu é panema! A turma vai dizer “Tu é leso, mano” e tu vais sair da roda debaixo de vaia.
Hoje em Dia: Tá Selado e é Patrimônio!
Depois de muita luta, em 2014, o IPHAN reconheceu o Carimbó como Patrimônio Cultural do Brasil. Agora é oficial: o Carimbó é só o filé!
Hoje temos a Dona Onete, que mesmo depois de idosa, mostrou que tem energia e faz um som “chamegado” que o mundo todo acha maneiro. Tem também a meninada nova fazendo o “Carimbó Urbano” e misturando com guitarrada.
Então, parente, mete a cara! Valoriza nossa cultura porque o Carimbó não morreu e, como disse Verequete, nunca vai morrer. E se alguém falar mal, tu dizes logo: “Olha já!”.
Gostou? Agora vai ouvir um Pinduca pra tirar esse pitiú de tristeza do corpo!
O Tambor que Furou o Silêncio: Uma Crônica Exaustiva da História, Organologia e Ressignificação Política do Carimbó na Amazônia
1. Introdução: A Síntese da Identidade Amazônica e a Matriz do “Pau e Corda”
No vasto e complexo mosaico cultural da Amazônia brasileira, poucas manifestações possuem a potência aglutinadora e a resiliência histórica do carimbó. Definido pelo célebre folclorista Vicente Salles, em seus estudos seminais de 1969, como uma “síntese das folganças caboclas”, o carimbó transcende a categoria de simples gênero musical ou dança folclórica.1 Ele opera, na verdade, como um sistema cultural totalizante, um vetor de memória social que codifica, em sua polirritmia e coreografia, séculos de interações interétnicas, resistências políticas e adaptações socioculturais nas margens dos rios paraenses.
A presente análise propõe-se a dissecar, com exaustividade documental e rigor analítico, a trajetória deste bem cultural. O objetivo é ultrapassar a superfície do folclore turístico para revelar as engrenagens históricas que transformaram uma prática rural perseguida pela polícia do século XIX em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2014.2 A narrativa abrange desde as raízes etimológicas e organológicas — o bater do “pau oco” — até a eletrificação promovida pelas radiolas e guitarradas, culminando na cena contemporânea que funde ancestralidade e ativismo político.
1.1 Etimologia e a Centralidade do Objeto Totêmico
A compreensão profunda do fenômeno exige, primeiramente, uma arqueologia da palavra. “Carimbó” é um termo de inegável matriz tupi, derivado da aglutinação dos vocábulos curi (pau ou madeira) e m'bó (furado, oco ou escavado).4 Esta etimologia não é apenas descritiva, mas fundante: ela designa o instrumento central, o tambor, em torno do qual a comunidade se organiza. O curimbó, portanto, antecede o gênero; é o objeto sagrado que dá nome à prática.
Tradicionalmente, este tambor é construído a partir de um tronco de árvore inteiriço, escavado manualmente até atingir a ressonância ideal, e coberto em uma das extremidades por couro de animal — preferencialmente veado, devido à sua tensão e timbre específicos, embora o couro de boi tenha se tornado comum por questões de disponibilidade e preservação faunística.4 O músico, ao sentar-se sobre o instrumento para tocá-lo, estabelece uma conexão física visceral: o corpo do tocador e o corpo do tambor tornam-se uma única caixa de ressonância, transmitindo a vibração diretamente ao solo e aos dançarinos.4
1.2 O Carimbó como Amálgama Cultural
A gênese do carimbó é o resultado de um processo antropofágico de três matrizes civilizatórias que colidiram e conviveram na Amazônia colonial: a indígena, a africana e a ibérica.
- A Base Indígena: É a fundação rítmica e organológica. O passo arrastado da dança, que mantém os pés em contato constante com a terra, e o uso de maracás para a marcação do andamento são heranças diretas das celebrações nativas. Registros do século XIX, como os do escritor José Veríssimo, identificam danças dos povos Mawé que guardam homologias estruturais inegáveis com o que viria a ser o carimbó.8
- O Pulso Africano: A introdução de populações africanas escravizadas na região, especialmente a partir do século XVII, trouxe a complexidade da síncope e a ênfase nos tambores graves. O carimbó floresceu vigorosamente em comunidades remanescentes de quilombos e entre as populações negras, servindo como veículo de coesão social e resistência. O termo “batuque”, frequentemente usado de forma pejorativa pelos colonizadores, descrevia essa pulsação que reordenou a musicalidade amazônica.4
- A Influência Ibérica: A colonização portuguesa e espanhola contribuiu com elementos melódicos, poéticos e coreográficos. O estalar de dedos durante a dança (uma reminiscência das castanholas), a formação em pares e, notavelmente, a indumentária volumosa das mulheres, são adaptações tropicais das modas e danças de salão europeias.4
2. A Cronologia da Resistência: Do Código de Posturas à Campanha de Salvaguarda
A história do carimbó não é linear; é uma narrativa de sobrevivência contra as tentativas institucionais de silenciamento. Durante o ciclo da borracha, quando Belém aspirava ser a “Paris n'América”, as manifestações populares eram vistas como atavismos de barbárie que precisavam ser extirpados ou higienizados.
2.1 A Era da Proibição (Século XIX)
A evidência mais contundente da perseguição ao carimbó encontra-se no aparato legal da época. O Código de Posturas Municipais de Belém, promulgado em 1880, estabelecia em seu artigo 107 (ou correlatos, dependendo da revisão do código) a proibição expressa de “batuques” e toques de tambor que perturbassem o sossego público.6 A letra da música “Chama Verequete”, recuperada pelo grupo Amazônia Sons Percussão, cita explicitamente: “Fica proibido, sob pena de trinta mil réis de multa… fazer batuque ou samba, tocar tambor ou carimbó”.10
Esta criminalização empurrou o carimbó para a clandestinidade, confinando-o às áreas rurais, às ilhas e às periferias distantes do centro afrancesado da capital. Foi nas roças, nos finais de colheita e nas festas de irmandades religiosas — especialmente as devotadas a São Benedito — que o ritmo se manteve vivo, protegido pela fé e pela invisibilidade social.4
2.2 O Século XX e a Emergência dos Mestres
O século XX testemunhou a lenta reemergência do carimbó, que passou de “coisa de preto e índio” a símbolo de identidade regional. Este processo foi conduzido por figuras messiânicas, verdadeiros guardiões da memória oral, que ousaram desafiar o preconceito e levar o curimbó para o rádio e para o disco. A dicotomia entre a tradição purista e a modernização elétrica define a evolução do gênero a partir da década de 1970.
A tabela abaixo resume os principais marcos temporais desta evolução:
Tabela 1: Marcos Temporais Críticos da História do Carimbó
| Período / Ano | Evento Histórico ou Marco Cultural | Impacto Sociocultural | Fonte |
| Séc. XVII-XVIII | Consolidação das missões jesuíticas e formação de quilombos. | Fusão das matrizes rítmicas (indígena/africana) e surgimento do proto-carimbó. | 4 |
| 1880 | Código de Posturas de Belém. | Criminalização oficial do toque de tambor e carimbó; multa de 30 mil réis. | 6 |
| 1906 | Publicação de “Glossário Paraense” de Vicente Chermont de Miranda. | Primeiro registro bibliográfico definindo carimbó como “tambor”. | 6 |
| 1971 | Mestre Verequete grava o 1º LP. | Entrada do carimbó “Pau e Corda” na indústria fonográfica (Gravadora CID). | 11 |
| 1974 | Pinduca lança “Carimbó e Sirimbó”. | Introdução da guitarra elétrica e bateria; início do carimbó moderno. | 11 |
| 1976 | Pinduca grava “Lambada (Sambão)”. | O carimbó moderno serve de matriz para o nascimento da Lambada. | 11 |
| 2004 | Lei Municipal institui o Dia do Carimbó (26/08). | Reconhecimento oficial em Belém na data de nascimento de Verequete. | 8 |
| 2005-2006 | IV Festival de Carimbó de Santarém Novo. | Início da mobilização civil para o registro no IPHAN (Campanha do Carimbó). | 1 |
| 2014 | Registro pelo IPHAN. | Declaração do Carimbó como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. | 3 |
3. Organologia e Coreografia: A Mecânica do Ritual
Para compreender o carimbó, é necessário dissecar a sua estrutura material e corporal. O gênero não existe sem o instrumento, e a música não existe sem a dança.
3.1 O Instrumental “Pau e Corda”
A vertente tradicional, defendida ardentemente por mestres como Verequete, baseia-se em uma formação acústica rigorosa, conhecida como “Pau e Corda”.
- Curimbós: O coração do ritmo. São executados em pares. O tambor maior, de som grave, marca o compasso (o “chama”), enquanto o menor e mais agudo realiza os repiques e improvisos. O músico toca sentado sobre o instrumento, utilizando as mãos nuas para extrair o som da pele distendida.4
- Instrumentos de Sopro e Corda: A introdução do banjo foi fundamental para dar sustentação harmônica e rítmica, substituindo gradualmente instrumentos mais antigos como a viola em algumas regiões. A flauta (de madeira, bambu ou metal) encarrega-se da melodia, dialogando com o canto do mestre.
- Percussão Complementar: O maracá (chocalho indígena), o reco-reco (bambu dentado), o ganzá e a onça (uma espécie de cuíca rústica que imita o esturro da onça-pintada) completam a textura sonora, criando uma parede percussiva densa e hipnótica.5
3.2 A Coreografia do Cortejo: O Peru de Atalaia
A dança do carimbó é um teatro de sedução. Os dançarinos apresentam-se descalços — uma exigência simbólica de conexão com o solo e com as raízes caboclas. Os homens vestem calças curtas ou dobradas (remetendo à faina da pesca) e as mulheres, saias amplas e coloridas, que utilizam como extensão do próprio corpo para “cobrir” e provocar o parceiro.5
O ápice coreográfico é a “Dança do Peru” ou “Peru de Atalaia”. Neste momento ritualístico, o casal ocupa o centro da roda. A dama deixa cair um lenço ao chão. O desafio imposto ao cavalheiro é recolher este lenço utilizando apenas a boca, sem o auxílio das mãos e sem perder o equilíbrio, enquanto a mulher gira freneticamente ao seu redor, jogando a saia sobre sua cabeça para dificultar a tarefa. O sucesso do cavalheiro é celebrado com aplausos; o fracasso, com vaias e a saída da roda. Este movimento mimetiza o comportamento animal e reforça a narrativa de conquista e destreza física que permeia o imaginário caboclo.1
4. Os Titãs do Carimbó: Biografias e Legados Estéticos
A história do carimbó no século XX é, em grande medida, a história de quatro homens que definiram as vertentes estética do gênero: Verequete, Pinduca, Cupijó e Lucindo.
4.1 Mestre Verequete: O Profeta do Carimbó Raiz
Augusto Gomes Rodrigues (1916-2009), nascido na localidade de Careca, próximo a Quatipuru/Bragança, é a figura central da vertente tradicional.7 Líder do conjunto O Uirapuru, Verequete foi pioneiro ao gravar o primeiro LP de carimbó em 1971, provando que o som “pau e corda” tinha viabilidade comercial.
Sua filosofia era de preservação absoluta. Verequete rejeitava a eletrificação, argumentando que ela descaracterizava a “alma” do carimbó. Suas letras documentavam a fauna, a flora e o cotidiano, como em “O Carimbó Não Morreu” e “Xô Peru”. A expressão “Chama Verequete”, imortalizada em suas canções e regravada por artistas como Fafá de Belém, tornou-se um mantra de invocação da ancestralidade paraense.17 Apesar de sua importância monumental, Verequete morreu pobre, sem receber os devidos direitos autorais, uma injustiça histórica denunciada repetidamente pelos movimentos culturais.17
4.2 Pinduca: O Rei da Modernidade e a Gênese da Lambada
No polo oposto, Aurino Quirino Gonçalves, o Pinduca (nascido em Igarapé-Miri, 1937), assumiu o papel de modernizador. Autointitulado o “Redescobridor do Carimbó”, Pinduca entendeu que, para penetrar nas rádios e nas festas da elite de Belém, o ritmo precisava de uma “roupagem” cosmopolita.21
A partir de 1974, Pinduca introduziu a bateria, o baixo elétrico e, crucialmente, a guitarra elétrica no carimbó. Ele “colocou paletó e gravata” no ritmo, fundindo-o com influências do Caribe (zouk, merengue) e do Nordeste. Esta fusão foi o laboratório onde nasceu a Lambada. Em 1976, Pinduca gravou a faixa instrumental “Lambada (Sambão)”, considerada o marco zero do gênero que explodiria mundialmente na década seguinte.6
4.3 Mestre Cupijó e a Revolução do Siriá
Em Cametá, às margens do Tocantins, Joaquim Maria Dias de Castro, o Mestre Cupijó (1936-2012), realizou outra fusão genial. Oriundo de uma família de músicos de banda marcial (seu pai dirigia a Euterpe Cametaense, fundada em 1874), Cupijó pegou o ritmo do Siriá — uma variante do carimbó ligada aos quilombos e ao “samba de cacete” — e adicionou arranjos de sopros (saxofones) típicos de orquestras de baile.23 O resultado foi uma música de dança frenética e sofisticada, que hoje é cultuada internacionalmente através de reedições de selos como o Analog Africa.25
4.4 Mestre Lucindo: O Poeta da Ecologia
Na região do Salgado (Marapanim), Lucindo Rebelo da Costa, o Mestre Lucindo, representou a vertente poética e ambientalista. Pescador de ofício, suas letras são crônicas da vida marinha e denúncias sutis da degradação ambiental. Sua canção mais famosa, “Pescador”, questiona a ausência de perigos no mar noturno (“Pescador, pescador, por que é que no mar não tem jacaré?”), celebrando a paz da pescaria como um refúgio espiritual.26 Lucindo manteve a tradição do carimbó de pau e corda numa região que se tornaria o epicentro dos festivais de raízes.
5. A Eletrificação e a Indústria: Gravasom e Guitarrada
A modernização iniciada por Pinduca abriu as portas para uma cena instrumental vigorosa, consolidada na década de 1980 pela gravadora Gravasom. Fundada por Carlos Santos, a Gravasom criou um ecossistema industrial inédito em Belém: possuía estúdio próprio, rádio para divulgação e uma rede de lojas para venda direta.11
Este ambiente permitiu o florescimento da Guitarrada, um gênero instrumental derivado do carimbó elétrico e da lambada. Mestre Vieira, com seu álbum Lambadas das Quebradas (1978), é considerado o criador do estilo, mas a Gravasom impulsionou nomes como Aldo Sena, Mário Gonçalves (irmão de Pinduca e responsável pelos solos de guitarra nos discos do Rei) e Solano.11 A guitarra paraense, com seus timbres agudos e vibrantes, tornou-se uma assinatura sonora da Amazônia moderna, influenciando diretamente a música pop brasileira contemporânea.
6. O Processo de Patrimonialização: Da Campanha ao IPHAN
A virada do milênio trouxe uma nova consciência sobre a necessidade de proteger as raízes do carimbó. Em 2005/2006, durante o IV Festival de Carimbó de Santarém Novo, técnicos do IPHAN e detentores locais iniciaram a “Campanha Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro”.1
Este movimento não foi imposto de cima para baixo; foi uma mobilização comunitária que envolveu mais de 400 entrevistas e o mapeamento de 150 localidades.29 O dossiê resultante documentou a vitalidade do gênero e a urgência de políticas públicas. Em 11 de setembro de 2014, o Conselho Consultivo do IPHAN aprovou por unanimidade o registro do Carimbó como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, garantindo recursos para salvaguarda e transmissão de saberes.3
7. A Cena Contemporânea: Protagonismo Feminino e Ativismo Urbano
O registro do IPHAN não congelou o carimbó no tempo; pelo contrário, catalisou novas transformações.
7.1 Dona Onete e o “Chamegado”
A grande estrela da atualidade é Ionete da Silveira Gama, a Dona Onete. Professora de história e ex-secretária de cultura, ela iniciou sua carreira artística profissional após os 70 anos, criando o “Carimbó Chamegado” — uma variação mais lenta e sensual. Dona Onete levou o carimbó para palcos globais (Roskilde, Womad) e trouxe letras que falam de amor e sedução na terceira idade, rompendo estereótipos.31
7.2 As Mulheres e o Carimbó Político
O protagonismo feminino, antes restrito à dança, agora ocupa a percussão e a composição. O grupo As Boiúnas, de Marapanim, e o festival homônimo, levantam bandeiras de gênero e diversidade LGBTQIA+ dentro de um ambiente tradicionalmente machista.33 Em Belém, o “Carimbó Urbano” de grupos como Batucada Misteriosa e Encantos do Carimbó utiliza a roda como espaço de protesto contra o racismo e a precarização da vida na periferia.35
8. Conclusão
O carimbó é, em última análise, uma tecnologia de resistência. Ele sobreviveu à escravidão, à proibição legal do século XIX, ao desprezo das elites afrancesadas e às pressões da indústria cultural global. Ao invés de desaparecer, ele fagocitou a modernidade (guitarras, metais, estúdios) sem jamais abandonar o tambor de tronco escavado.
Seja no passo miúdo do pescador de Marapanim, nos solos de sax de Mestre Cupijó, ou na lírica sensual de Dona Onete, o carimbó reafirma diariamente a identidade amazônica: uma identidade que é, a um só tempo, ancestral e futurista, local e universal. Como vaticinou Mestre Verequete, em sua sabedoria cabocla: “O carimbó não morreu / E nem há de morrer” — pois ele é o próprio pulso da floresta e do povo que nela habita.
Tabela 2: Instrumentação Comparada – Tradicional vs. Moderno
| Instrumento | Função no Carimbó “Pau e Corda” (Raiz) | Função/Substituição no Carimbó Moderno/Elétrico |
| Curimbó (Tambor) | Centralidade absoluta; define a pulsação e a identidade. | Mantido, mas muitas vezes amplificado ou acompanhado por bateria completa. |
| Banjo | Base harmônica e rítmica; substituiu a viola/cavaquinho. | Substituído ou complementado pela Guitarra Elétrica (base e solo). |
| Sopros | Flautas artesanais ou transversais (madeira/metal). | Seção de metais (Saxofones, Trompetes, Trombones) – influência de Cupijó. |
| Percussão Menor | Maracá, Reco-reco, Ganzá, Onça. | Mantidos, acrescidos de percussão latina (congas, timbales). |
| Baixo | Inexistente (função feita pelo Curimbó grave). | Baixo Elétrico introduzido por Pinduca para “peso” e groove. |
Tabela 3: Principais Mestres e Contribuições Singulares
| Mestre | Região de Origem | Contribuição Principal / Inovação | Obra de Referência | Fonte |
| Mestre Verequete | Bragança (Quatipuru) | Pioneiro da gravação (1971); Defesa do “Pau e Corda”; Composições sobre natureza. | O Legítimo Carimbó (LPs); “Chama Verequete”. | 11 |
| Pinduca | Igarapé-Miri | Modernização elétrica; Introdução de bateria/guitarra; Fusão com ritmos caribenhos; Lambada. | Carimbó e Sirimbó (1974); “Lambada (Sambão)”. | 21 |
| Mestre Cupijó | Cametá | Modernização do Siriá; Uso intensivo de sopros (bandas marciais); Fusão com Mambo. | Siriá (Vários volumes); “Mestre Cupijó e seu Ritmo”. | 23 |
| Mestre Lucindo | Marapanim | Poética ecológica; Representante do estilo do Salgado; Crônica da pesca. | “Pescador”; Isto é Carimbó!!. | 26 |
| Mestre Vieira | Barcarena | Criação da Guitarrada; Transformação do carimbó em música instrumental de guitarra. | Lambadas das Quebradas (1978). | 11 |
| Dona Onete | Cachoeira do Arari | “Carimbó Chamegado”; Visibilidade feminina e idosa; Projeção internacional recente. | “No Meio do Pitiú”; “Jamburana”. | 31 |
Referências citadas
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- Notícia: O país está em festa: Carimbó é Patrimônio Cultural brasileiro – IPHAN, acessado em janeiro 6, 2026, http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/197
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- Entrevista exclusiva com Pinduca – O BOTO – Alter do Chão, acessado em janeiro 6, 2026, https://o-boto.com/blog/entrevista-exclusiva-com-pinduca
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- Mestre Cupijó, a fusão da música amazônica, desde Cametá – Senhor F -, acessado em janeiro 6, 2026, https://senhorf.com.br/amazonia-bigrave/mestre-cupijo-o-genio-das-tres-racas-ganha-tributo-com-regravacoes/
- Mestre Cupijó E Seu Ritmo – Siriá – Intercommunal Music, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.intercommunalmusic.com/produtos/mestre-cupijo-e-seu-ritmo-siria/
- HISTÓRIAS E CANTORIAS DO PESCADOR LUCINDO – O MESTRE DO CARIMBÓ, acessado em janeiro 6, 2026, https://mapacultural.pa.gov.br/projeto/1392/
- Pescador – YouTube, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=db5_N0zOI5I
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- Texto para consulta pública – Dossiê Carimbó.pdf – IPHAN, acessado em janeiro 6, 2026, http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Texto%20para%20consulta%20p%C3%BAblica%20-%20Dossi%C3%AA%20Carimb%C3%B3.pdf
- Alepa comemora 10 anos de registro do carimbó como patrimônio cultural nacional, acessado em janeiro 6, 2026, https://alepa.pa.gov.br/Comunicacao/Noticia/10532/alepa-comemora-10-anos-de-registro-do-carimbo-como-patrimonio-cultural-nacional
- Entrevista com Dona Onete | A rainha do Carimbó Chamegado. – Caderno Virtual de Turismo, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/article/download/2328/917/7680
- O FEITIÇO CABOCLO DE DONA ONETE: UM OLHAR ETNOMUSICOLÓGICO SOBRE A TRAJETÓRIA DO CARIMBÓ CHAMEGADO, DE IGARAPÉ-MIRI A BELÉ – Cotas – Instituto de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.cotas.org.br/files/downloads/12/Dona%20Onete%20e%20o%20carimb%C3%B3%20chamegado%20um%20olhar%20etnomusicol%C3%B3gico%20sobre%20a%20constru%C3%A7%C3%A3o%20de%20um%20novo%20estilo%20musical.pdf
- Festival Boiúnas do Carimbó celebra cultura, ancestralidade e diversidade em Marapanim, acessado em janeiro 6, 2026, https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2025/09/25/festival-boiunas-do-carimbo-celebra-cultura-ancestralidade-e-diversidade-em-marapanim.ghtml
- Boiúnas do Carimbó – Mapa cultural do Pará, acessado em janeiro 6, 2026, https://mapacultural.pa.gov.br/agente/42332/
- Jovens de Ananindeua mantêm vivo o carimbó e sonham com apresentação na COP 30, acessado em janeiro 6, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=wwEAlqlv4K0
Conheça a novíssima música do Pará: carimbó urbano, brega pop e uma geração que redesenha o som da Amazônia – G1, acessado em janeiro 6, 2026, https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2025/12/07/conheca-a-novissima-musica-do-para-carimbo-urbano-brega-pop-e-uma-geracao-que-redesenha-o-som-da-amazonia.ghtml


