A administração pública no interior do Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, frequentemente se assemelha a uma canoa furada navegando em um rio de contradições discunformes. A análise profunda das prioridades orçamentárias de diversas prefeituras revela um cenário verdadeiramente estorde, onde a gestão pública decide investir somas astronômicas e macetas em entretenimento de massa, enquanto a infraestrutura básica do município encontra-se completamente na roça. O presente relatório técnico e sociológico examina, de forma exaustiva e sem nenhum embaçamento, o fenômeno que leva gestores municipais a desembolsarem fortunas estonteantes — como o emblemático e revoltante caso de R$ 800 mil destinados a uma única apresentação do DJ Alok 1 — em cidades que amargam a falta crônica de hospitais estruturados, escolas que estão caindo aos pedaços e uma população vulnerável que sofre mais que cachorro de feira no seu dia a dia.
A linguagem empregada nesta análise mergulha fundo nas raízes do povo, utilizando o rico e expressivo linguajar do caboclo da Amazônia para desvendar as engrenagens dessa política da fulhanca, que tenta a todo custo tapar o sol com a peneira. O objetivo primordial deste estudo é compreender, desmistificar e expor a bumbarqueira financiada com o suado dinheiro público, destrinchando a malineza inerente ao ato de negar direitos básicos à população mais necessitada enquanto o céu da cidade é iluminado por fogos de artifício e o palco treme com equipamentos de som comprados com os parcos recursos do erário. Vamos analisar os rolos econômicos, as manobras com emendas parlamentares, a ineficácia da legislação e a dor do caboclo que fica só no vácuo.
O Fato Novo Que Deu Bug na Mente: O Caso Emblemático de Cocal
Para entender com precisão a rumpança institucional e o nó cego que assola as contas públicas municipais, é imperativo colocar de bubuia o caso específico do município de Cocal, localizado no estado do Piauí. O cenário desenhado pela gestão local é digno de exprimir um sonoro “achi!” de espanto por parte de qualquer analista de políticas públicas. No início do ano de 2025, logo no dia 9 de janeiro, o gestor municipal, ao assumir a peitada da prefeitura, assinou um decreto oficial estabelecendo estado de emergência e calamidade financeira.2 A situação das contas públicas estava, de fato, no prego absoluto: um diagnóstico pormenorizado elaborado pela própria Secretaria Municipal de Finanças e publicado em março daquele mesmo ano apontou que quase 86% de toda a receita mensal da cidade já estava irremediavelmente comprometida com o pagamento de despesas fixas, tais como a folha de pagamento de servidores, o custeio da limpeza pública e outros repasses constitucionais obrigatórios.2
Nesse contexto de penúria absoluta, onde o cofre público chora miséria e a gestão parece dizer um silencioso, porém cruel, “dá teus pulos” para os problemas estruturais que afligem o cidadão, a prefeitura surpreendeu a todos ao anunciar, com muita pavulagem, a realização do festival “Festejo do Povo”.3 A bandalheira estava devidamente armada e orçada com um montante de R$ 1,84 milhão direcionado única e exclusivamente para o pagamento de cachês artísticos, sem sequer contabilizar os custos adicionais de palco, som, iluminação e segurança.3 A atração principal do evento, o DJ Alok, foi contratada pela maceta quantia de R$ 800 mil.1
A disparidade dessa decisão administrativa torna-se uma verdadeira malineza, uma atitude escrota e insensível, quando se cruza o valor milionário da festividade com as recusas sistemáticas da mesma prefeitura em atender demandas vitais e urgentes da sua população. A análise pormenorizada dos autos judiciais e das denúncias do Ministério Público revela que a administração municipal negou a compra de um simples respirador hospitalar para um paciente local.1 O equipamento, essencial para a manutenção da vida, estava avaliado em míseros R$ 5.000, e o pedido foi negado sob a alegação oficial de “falta de recursos”.1
| Rubrica de Despesa / Necessidade Municipal | Valor Estimado (R$) | Situação Determinado pela Gestão Municipal |
| Contratação de Show do DJ Alok | R$ 800.000,00 3 | Contrato firmado (Posteriormente suspenso pela Justiça) 3 |
| Contratação de Show de Natanzinho Lima | R$ 650.000,00 3 | Contrato firmado (Posteriormente suspenso pela Justiça) 3 |
| Contratação de Show de Hungria Hip Hop | R$ 250.000,00 3 | Contrato firmado (Posteriormente suspenso pela Justiça) 3 |
| Contratação de Show de Anjos de Resgate | R$ 140.000,00 3 | Contrato firmado (Posteriormente suspenso pela Justiça) 3 |
| Aquisição de Respirador Hospitalar | R$ 5.000,00 4 | Pedido negado oficialmente por “falta de verba” 4 |
Quando a população humilde, de boca miúda, descobre que a vida de um cidadão parente foi colocada em risco iminente por meros R$ 5 mil, enquanto R$ 800 mil são destinados a algumas poucas horas de música eletrônica, a reação natural é um sonoro e indignado “e-g-u-á!”. O contraste chocante evidencia uma gestão que atua com uma bossalidade sem tamanho para os turistas e pessoas de fora, mas se mostra pão dura, casca grossa e completamente desumana para as necessidades urgentes dos seus nativos. É o retrato de um governante metido a merda, que acredita poder comprar a simpatia do povo com festas, enquanto a saúde pública entra em colapso.
A Infraestrutura Escrota e o Caboclo Brocado na Baixa da Égua
Enquanto a prefeitura se desdobra e tenta culiar parcerias para trazer palcos purrudos, camarins cheios de exigências e uma iluminação de primeira linha que cega os olhos, a realidade longe do centro da festa, lá na caixa prego, lá onde o vento faz a curva, é de dar passamento. A infraestrutura básica da região é, para falar sem embaçamento, de meia tigela. O caboclo que vive nessas áreas periféricas e rurais não tem sequer acesso a um saneamento básico digno, e a água potável, um direito humano fundamental, é um luxo que escafedeu-se das torneiras há muito tempo.3 Relatos e denúncias frequentes mostram que moradores de comunidades locais ficam até 72 horas seguidas com as caixas d'água completamente secas, sem uma gota sequer para o consumo.7 A população precisa gambirar soluções criativas, caminhando longas distâncias sob o sol inclemente, para não morrerem de sede ou para não viverem na tuíra do côro, impedidos de tomar um simples banho após um dia exaustivo de trabalho na roça.
Na área da educação, a situação é ainda mais palha, beirando a calamidade total. As escolas no interior do estado amargam a falta crônica de banheiros adequados, convivendo com esgoto a céu aberto, falta de água encanada e a ausência de refeitórios higiênicos.8 O Ministério Público, em suas investigações, apontou que em municípios próximos, como Luís Correia, o caos na educação levou à abertura de inquéritos para investigar 11 escolas funcionando sem banheiros, sem água e sem esgoto.9 O curumim e a cunhatã que acordam cedo e perambulam quilômetros para estudar encontram prédios com severo risco estrutural, paredes prestes a vergar e ambientes de insalubridade extrema.10
Pior do que a falta de estrutura física é a ausência de alimento. A falta de merenda escolar é uma constante que machuca a alma de quem espia a realidade de perto. Relatos constantes mostram que a falta de suprimentos alimentares e de profissionais qualificados, como merendeiras, força as diretorias das escolas a liberarem os curumins muito mais cedo do que o horário previsto.11 Em casos documentados na região, crianças de até cinco anos de idade são enviadas de volta para casa no meio da tarde, recebendo apenas um lanche improvisado e insuficiente, porque a administração municipal falhou miseravelmente em fornecer o básico do sustento escolar.11 O jovem estudante volta para casa brocado, com o estômago roncando e a mente fraca, incapaz de absorver qualquer conhecimento, tudo porque a gestão pública deu o bug na hora de licitar a comida.
Quando as escolas não possuem sequer água potável para preparar a pouca merenda que chega 8, a promessa de um futuro melhor, de que o jovem crescerá forte e inteligente, fica irremediavelmente ingilhada. A infância cresce à pulso, na base da porrada da vida, sofrendo mais que vaca quando entra na roça. A estatística é de cortar o coração: o Ministério Público evidenciou que 74% da população cocalense é usuária do Cadastro Único e impressionantes 50% vivem em situação de extrema pobreza.5 E é exatamente para esse mesmo povo, que muitas vezes não tem um prato de chibé ou de caribé na mesa e carrega a panemisse do abandono estatal em seus ombros cansados, que a prefeitura se vira e diz: “Vem curtir o show e esquece a dor!”. É uma tentativa ladina, fria e calculista de aplicar na mente da população, oferecendo o circo estrondoso quando falta até mesmo o pão dormido.12
A Política do Pão e Circo: Uma Gaiatice Muito Séria e Perversa
A prática institucionalizada de promover grandes espetáculos artísticos para apaziguar os ânimos de uma população desassistida remonta às engrenagens de poder do Império Romano, consolidada na famosa e antiga política do “panem et circenses” (pão e circo).12 Hoje, no Brasil profundo, nas entranhas dos municípios mais carentes, essa tática ancestral foi refinada e modernizada por prefeitos que agem como verdadeiros políticos influencers.13 A estratégia por trás dessa cortina de fumaça é assustadoramente simples: quando a gestão deu prego, a cidade está cheia de buracos, os salários estão atrasados e a panela de pressão social ameaça explodir, o governante decide organizar uma gigantesca bumbarqueira para silenciar a boca miúda e calar a boca mole da oposição.
O gestor ladino e escovado sabe perfeitamente que a população, exausta da lida diária, enojada com o pitiú da miséria que a rodeia e cansada de perambular sob o sol atrás de um emprego que não existe, sente uma cuíra incontrolável por um breve momento de alegria e esquecimento. Ao contratar, com dinheiro público, um artista de renome nacional — alguém que a galera jovem considera “só o creme mano” ou “chibata” —, a prefeitura cria uma fulhanca que cega a razão coletiva.12 A varrição dessa festividade dura três ou quatro dias intensos. O volume é discunforme, o álcool rola solto e, durante aquele efêmero fim de semana, o povo, mundiado pelas luzes do palco, esquece temporariamente que a rua de sua casa não tem asfalto, que a luz elétrica vive dando prego, que o posto de saúde local não tem médico e que, se ele adoecer, não haverá um respirador para salvar sua vida.1
Entretanto, na era atual, os analistas sociológicos e fiscais apontam que a degradação e a bossalidade dessa política atingiram um nível tão escroto que as prefeituras entregam apenas o circo, negando descaradamente até mesmo o pão.13 O caso do respirador negado e da merenda escolar inexistente é a prova cabal, di rocha, de que a malineza superou qualquer tentativa de afago genuíno. A população fica só no vácuo, enquanto o governante carrancudo esfrega o côro nas redes sociais, posando na ilharga de artistas famosos, ostentando uma pavulagem e uma soberba que não condizem minimamente com o caixa deficitário do município.3
É o típico “espírito de porco” na administração do dinheiro público: a criança fica sem a merenda (o pão essencial), a gestante não tem atendimento no posto, o trabalhador pisa na lama, mas a praça principal da cidade ganha o palco gigante (o circo alienante). O gestor, metido a besta e cheio de si, acredita que essa cambada esquecerá todas as humilhações sofridas durante o ano apenas porque puderam assistir, de longe, a um show pirotécnico que esvaziou os cofres da cidade. É uma aposta na ignorância, um deboche com a miséria alheia que, infelizmente, ainda encontra terreno fértil em terras onde o Estado falha diariamente.
O Migué das Emendas Parlamentares e o Nó Cego da Gestão Orçamentária
Quando questionados e encurralados pela imprensa, pelo Ministério Público ou pela parcela mais instruída da população, os gestores públicos costumam aplicar na jugular dos críticos um argumento técnico que consideram um escudo infalível: “O dinheiro gasto na festa não saiu dos impostos municipais, mas sim de uma emenda parlamentar”.4 O prefeito, com cara lavada, mete a cara na frente das câmeras e dispara o lero lero de que esses valores já vêm carimbados lá de Brasília, oriundos do gabinete de algum sumano ou suprimote deputado, destinados especificamente para a “cultura” e para a realização de “eventos”, argumentando que as regras orçamentárias o proíbem de remanejar esse montante para tapar buracos, construir esgotos ou comprar remédios.14
Essa justificativa, contudo, quando submetida ao escrutínio minucioso da Lei, revela-se uma potoca gigantesca, uma desculpa de meia tigela. Especialistas em orçamento público, economia e relatórios técnicos do Tribunal de Contas da União evidenciam que o funcionamento das emendas parlamentares é muito mais flexível e politizado do que a narrativa oficial sugere. As emendas parlamentares federais — sejam elas Emendas Individuais (com limite de 2% da Receita Corrente Líquida), Emendas de Bancada (limite de 1% da RCL) ou as controversas Emendas de Relator 15 — são, de fato, instrumentos de descentralização de recursos, mas a escolha da rubrica orçamentária para a qual o dinheiro será direcionado obedece a um planejamento estritamente político e negociado.17
O parlamentar que envia a emenda para o município, em parceria com o prefeito, tem o poder discricionário de decidir se aquele recurso federal será rubricado para a construção de um posto de saúde, para a compra de frotas de ambulâncias, para o aparelhamento de escolas, ou para o Ministério do Turismo e Cultura para bancar festividades.18 Quando a dupla política — deputado e prefeito — prefere culiar e assinar a papelada para financiar a fulhanca em vez de reforçar a verba da saúde, eles estão fazendo uma escolha deliberada e consciente pelo espetáculo, na maioria das vezes visando exclusivamente o retorno eleitoral imediato que uma praça lotada proporciona.17 O argumento de que o dinheiro “só podia ser usado para show” é um migué escovado; o dinheiro só tem essa destinação porque eles mesmos, lá na origem do pedido, amarraram esse nó cego.15
Além do mais, a injeção de verbas federais ou estaduais na conta da prefeitura, mesmo que legalmente justificadas por emendas, não isenta o administrador municipal do princípio constitucional da razoabilidade e da moralidade pública. A Justiça piauiense, em sua sábia interpretação, entendeu que é uma ofensa brutal ao princípio da finalidade pública e uma aberração administrativa torrar R$ 1,84 milhão em cachês musicais em uma cidade que, meses antes, decretou estar em estado de calamidade financeira.1
Como bem pontuou, com muita lucidez, o juízo da Vara Única da Comarca de Cocal que suspendeu a festa, não faz o menor sentido e desafia a lógica um município relatar penúria financeira extrema em março — revelando estar com a corda no pescoço, com 85% da receita engolida por despesas fixas e sem ter como pagar dívidas correntes —, e, num passe de mágica inexplicável, aparecer arrotando riqueza e conforto econômico em agosto para pagar R$ 800 mil à vista num show eletrônico.2 É o mesmo que um indivíduo que está na roça, devendo para Deus e o mundo, com os filhos passando fome, pegar um empréstimo bancário gigante para dar uma festa ostentação no final de semana, com churrasco e cerveja no balde para todo o bairro. Uma verdadeira bossalidade que zomba da cara do cidadão de bem.
A Matemática Lesa e o Lero Lero do Retorno Econômico
Outra narrativa corriqueira, repetida à exaustão pelos governantes carrancudos para empurrar o megaevento milionário goela abaixo da população desconfiada, é o poderoso argumento do impacto econômico positivo e da atração de turismo.1 Deputados e prefeitos se reúnem em palanques, chamam a imprensa e declaram aos quatro ventos, com a maior pavulagem, que um investimento em festa de R$ 1,8 milhão vai, como num milagre econômico, injetar R$ 15 milhões na economia local.1 O papo desse bicho tenta convencer que o vendedor de tacacá, o dono da humilde pousada, o barqueiro que trabalha no casco, o mototaxista e a mulher que vende beiju na esquina vão todos prosperar e enriquecer absurdamente durante a festividade.
A literatura acadêmica rigorosa de avaliação econômica de eventos, no entanto, expõe que muito desse discurso é puro migué, uma gambiarra retórica para justificar o injustificável.19 Embora eventos locais de fato movimentem o comércio ambulante, os poucos hotéis disponíveis na região e o setor de transportes 1, o volume de riqueza que efetivamente permanece e circula internamente na cidade é infinitamente menor do que o alardeado pelos políticos.19 Existe na economia um fenômeno chamado “vazamento de capital”, e em shows de grande porte no interior, esse vazamento é um verdadeiro ralo aberto.
Quando uma prefeitura paupérrima paga R$ 800 mil para um DJ de fama internacional 1, esse dinheiro escafedeu-se do município no exato momento da transferência bancária (que muitas vezes exige 50% de adiantamento logo na assinatura do contrato 21). A produtora do artista e seus escritórios ficam baseados em outro estado do país (geralmente no eixo Sul-Sudeste).17 Os fornecedores da estrutura gigantesca de som, luz, painéis de LED e camarins (que custam outros milhares de reais, fora o cachê) geralmente vêm da capital do estado ou de fora, pois empresas locais de pequeno porte não possuem capacidade técnica para atender exigências de superastros. Até mesmo a segurança especializada e os produtores executivos não representam mão de obra local. O dinheiro grosso da prefeitura pega o beco e sai voando para a caixa prega, enriquecendo megaempresários do show business que sequer pisarão novamente naquela cidade.
| Destino Estrutural do Recurso do Megaevento | Impacto na Microeconomia Local | Retenção e Permanência do Dinheiro no Município |
| Cachê Artístico Principal (Ex: DJ Alok – R$ 800 mil) 3 | Nulo de forma direta (Caracteriza-se como exportação de capital municipal). | Zero. O dinheiro é transferido e sai da cidade imediatamente.17 |
| Infraestrutura de Palco, Som, Luz e Camarim | Mínimo (Empresas terceirizadas costumam vir da capital ou de outros estados). | Muito baixa. Contratação de poucos braçais locais apenas para montagem. |
| Comércio Ambulante / Venda de Comidas (Chibé, Tapioca, Tacacá, Bebidas no Balde) | Alto impacto para a renda do pequeno comerciante que está trabalhando na peitada. | Alta retenção, porém o volume financeiro movimentado por ambulantes representa uma fração mínima frente aos milhões investidos.20 |
| Setor Hoteleiro e Transporte Local (Mototáxi, Triciclos, Barcos a Rabeta) | Médio a Alto (Depende diretamente do fluxo real de turistas e visitantes de fora). | Alta retenção, mas sujeita à sazonalidade curtíssima do evento (apenas 3 a 4 dias). |
Para o caboco humilde que ficou a madrugada inteira acordado na buca da noite, ralando e suando a camisa para vender cerveja, espetinho de carne e churrasquinho, a festa realmente dá uma forra no fim do mês. Ele leva um trocado para casa. Mas, ao passar a régua e colocar os números frios na balança, a gestão municipal gastou milhões dos cofres públicos para gerar um benefício marginal, temporário e concentrado para poucos munícipes, enquanto o coletivo da cidade, o todo, continua acordando no dia seguinte enfrentando vias esburacadas, mato alto, carapanã a dar com pau pela falta crônica de saneamento, escolas sem infraestrutura e as filas deprimentes e intermináveis nos postos de saúde. A matemática lesa da gestão prova que, sob a ótica do bem comum e da eficiência do gasto público, o investimento é de uma assimetria que dói na alma. O povo trabalhador ganha o trocado na sexta-feira de festa para comprar a carne, mas gasta muito mais no sábado comprando remédio particular na farmácia porque o posto do SUS está zerado. É, literalmente, tapar o sol com a peneira e rir da cara do eleitor.
A LRF, Os Atalhos Ladinos e o Tribunal de Contas de Mutuca
A origem de todo esse imbróglio jurídico, social e financeiro reside na forma flexível, leniente e muitas vezes criminosa com que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é tratada e driblada por certos administradores de meia tigela. A LRF foi desenhada e sancionada no passado exatamente para evitar que prefeitos dessem o bug nas finanças, gastando de forma irresponsável, gastando muito mais do que arrecadam e comprometendo o futuro e a viabilidade econômica da cidade para as próximas gerações.22 A regra básica impõe limites severos (como o teto de 60% da receita corrente líquida para gastos com funcionalismo público).22 No entanto, ao longo dos anos, pressões políticas no Congresso Nacional e brechas legislativas criaram atalhos que flexibilizaram as punições aos maus gestores, permitindo manobras orçamentárias.22
Quando um município tem a arrecadação em queda vertiginosa e os gastos fixos com pessoal engolem a receita 2, a conduta esperada de um gestor probo e responsável seria acionar os freios de emergência, cortar radicalmente gastos supérfluos, exonerar cargos comissionados ocupados por parentes (o famoso nepotismo cruzado) e focar a parca verba no essencial: garantir saúde, educação e segurança.23 Mas o que se vê na prática, na calada da noite, é o político se amalocar em gabinetes fechados com advogados e contadores para buscar atalhos jurídicos. Eles assinam decretos de calamidade financeira 2 não para ajustar as contas, mas sim para facilitar compras em caráter emergencial (muitas vezes sem licitação rigorosa 24) e para receber aportes extraordinários e transferências voluntárias do Governo Federal com menos burocracia.
Após conseguirem respirar financeiramente ou, pior ainda, apenas fingirem no papel que estabilizaram o cenário, usam a primeira sobra de caixa ilusória — ou aquela emenda parlamentar milionária que caiu do céu — para montar uma fulhanca desproporcional. Eles sabem que o povo, carente de tudo e já acostumado a sofrer, raramente vai às ruas fazer baderna ou protestar contra uma festa gratuita. O cidadão protesta duramente contra a falta de água nas torneiras, sim, mas na hora que o grave do som bate e o show do DJ famoso começa, a praça inevitavelmente enche. É a manipulação sociológica e psicológica da pobreza. O gestor, astuto como uma raposa, aplica na mente do eleitor a ilusão sensorial de que a cidade está próspera e pulsante.
Felizmente, diante dessa rumpança institucionalizada e sem tamanho, o papel investigativo dos órgãos de controle torna-se o único farol de esperança. O Ministério Público Estadual (MPE), o Ministério Público Federal (MPF) e os Tribunais de Contas (TCE e TCU), quando não estão dormindo no ponto ou acomodados, ficam de mutuca alerta, observando com lupa a movimentação suspeita das contas públicas.3 No trágico episódio do Piauí, a Promotoria de Justiça aplicou um golpe fatal na jugular da gestão municipal ao ingressar rapidamente com uma Ação Civil Pública, com pedido de Tutela de Urgência, exigindo a suspensão e a anulação imediata de todos os contratos artísticos.5
A argumentação do Ministério Público na petição foi irretocável, um verdadeiro nocaute jurídico: afirmou, sem meias palavras, que não há o menor termo em gastar valores milionários (R$ 1,84 milhão) em uma festividade que classificaram como um “desvio de finalidade”, enquanto a cidade sangra e carece tragicamente de serviços básicos.1 O Promotor destrinchou a situação escrota do município para o juiz, apontando uma lista de calamidades documentadas em inquéritos: débitos municipais parcelados, processos judiciais intermináveis de servidores cobrando salários atrasados sem receber, a interdição oficial do matadouro municipal por graves questões sanitárias e falta de higiene, falta de limpeza essencial em lagoas que servem à população, inquéritos sobre irregularidades crônicas em bibliotecas escolares e a vergonhosa demora na implantação de uma simples sala de escuta especializada para proteger crianças e adolescentes vítimas de violência.5 Fazer uma megafesta de R$ 1,8 milhão em um cenário de miséria crônica, desemprego e colapso administrativo é, na visão da promotoria, esfregar o côro do povo na brita e praticar um sadismo fiscal.
A Justiça, na figura de juízes que não levam desaforo pra casa, que são duros na queda e não se deixam mundiar pela pressão política dos coronéis locais, tem acatado essas ações do MP com severidade.3 A decisão judicial proferida em agosto de 2025 que suspendeu o festejado “Festejo do Povo” foi cristalina ao proibir expressamente qualquer repasse de pagamento aos artistas, barrar a transferência de fundos e impedir categoricamente novas contratações similares.3 Para garantir que o prefeito não tentasse dar uma de joão sem braço, o magistrado estabeleceu uma pesada multa diária no valor de R$ 3 milhões caso o gestor teimasse em bancar o enxerido e descumprir a ordem da corte.3
Mais ainda, a Justiça mandou um sonoro “te orienta” institucional para o gestor ao exigir a remoção imediata de todos os outdoors, lonas e materiais publicitários físicos e digitais da festa que exibiam a foto sorridente do prefeito e da primeira-dama.1 Essa prática populista, tão comum entre políticos que adoram uma pavulagem e uma promoção, configura claramente autopromoção pessoal utilizando dinheiro público, ferindo de morte o artigo 37 da Constituição Federal, no que tange aos princípios da impessoalidade e moralidade.1 O gestor achou que estava safo, quis posar de bacana na região, ficar bem na foto como o benfeitor do povo às custas do erário, mas levou uma mijada memorável da magistratura, teve seu evento embargado e teve que recolher toda a sua ostentação para dentro do gabinete.
O Artista no Meio da Rumpança: Ignorância ou Conveniência de Boca Mole?
No meio de todo esse furdunço administrativo, judicial e midiático, surge inevitavelmente a figura do artista contratado. Como se comporta o recebedor do cheque de R$ 800 mil ao ver, da noite para o dia, seu nome estampado nas manchetes no centro de uma polêmica de calamidade pública e descaso com a saúde? No caso em tela, o famoso DJ Alok, que é amplamente conhecido na mídia por suas ações de filantropia em outras ocasiões (chegando inclusive a doar cachês inteiros de apresentações para instituições beneficentes, como a Fundação Santa Casa de Misericórdia no estado do Pará 27), viu-se encurralado numa tremenda sinuca de bico.
Ao ser notificado da encrenca pela boca miúda das redes sociais e exposto no jornalismo nacional, o artista utilizou seus perfis na internet para se pronunciar rapidamente.2 A mensagem passada para o público foi um clássico “nem com nojo eu sabia disso”, buscando distanciar sua imagem do escândalo. Ele afirmou publicamente e de forma categórica que concordava di rocha com a sábia decisão judicial de suspender a festa milionária, alegando, em sua defesa, que desconhecia por completo o estado de emergência e calamidade financeira da cidade contratante, bem como as condições de vida paupérrimas da população local.2 Disse, ainda em seu pronunciamento, que o fato serviu de alerta e que seu escritório de agenciamento de shows passaria a ficar muito mais ligado e teria muito mais rigor e critério investigativo nas futuras contratações fechadas com órgãos governamentais.14
Para o caboclo mais escovado, que já apanhou muito da vida e observa a cena de longe, a resposta e o recuo do artista dividem profundamente as opiniões. Uma parcela da população diz “má rapa, o cara não tem culpa”, entendendo perfeitamente que as grandes agendas de superastros são fechadas de forma impessoal por gigantescos escritórios de agenciamento. Esses escritórios lidam com centenas de datas, e é humanamente impossível exigir que o músico faça uma auditoria minuciosa, como se fosse um conselheiro do Tribunal de Contas, nas planilhas de cada prefeitura, em cada cafundó do judas onde ele vai se apresentar.6 Se o contrato é legal e o dinheiro entra na conta, o escritório fecha o negócio.
Por outro lado, muitos cidadãos e críticos, mais invocados com o desperdício, acreditam firmemente que a classe artística — especialmente os artistas de grande porte que cobram fortunas discunformes — deveria ter a obrigação de estabelecer um filtro moral e ético prévio muito mais rigoroso. Eles argumentam que aceitar rios de dinheiro de pequenas prefeituras perdidas no interior do Brasil, sem pesquisar minimamente a origem do fundo ou a condição da cidade, é compactuar tacitamente, mesmo que por omissão, com a política predatória do pão e circo.6 De qualquer forma, o recuo do artista foi uma jogada ladina e inteligente de gerenciamento de crise para preservar sua imagem milionária intacta; ele sacou perfeitamente que, se insistisse no show e tentasse forçar a barra, o pau ia achar ele perante a implacável opinião pública nacional. Ele capou o gato, escafedeu-se da confusão o mais rápido que pôde e deixou o prefeito de Cocal falando sozinho para segurar o rojão com o Ministério Público.
O Abandono da Cultura Nativa e a Invasão Bossal dos Megaeventos
Existe ainda, nessa discussão, uma dimensão cultural profunda que precisa ser trazida à tona e falada sem embaçamento. Quando a prefeitura do interior decide abrir os cofres e gastar milhões em um final de semana, raramente — ou quase nunca — o faz com o intuito genuíno de valorizar a cultura local, autêntica e nativa. O dinheiro grosso, as emendas parlamentares gordas, não vão para as mãos do curumim talentoso que toca toadas na escola de música local, nem para as tradicionais associações de Bois-Bumbás que constroem com muito suor a identidade e o folclore do lugar o ano inteiro.30 Esse dinheiro não compra o paneiro do artesão indígena, não valoriza quem trabalha com tipitis ou quem rasga as mãos no curuatá para ralar a mandioca e sustentar a tradição alimentar local.30
A obrigatoriedade legal de contratação de artistas e bandas locais para abrir os shows nacionais existe em muitas legislações municipais (como no caso de Itabaianinha) 31, mas na prática, é tratada pelos prefeitos como um estorvo, um favor indesejado, uma verdadeira esmola de fim de feira.31 Grupos folclóricos de raiz, músicos de barzinho que cantam a realidade local, os tocadores de carimbó que animam a buca da noite e as pequenas bandas de bairro são invariavelmente contratados por valores pífios, infinitamente menores que a atração nacional. Recebem muitas vezes apenas um “muito obrigado”, um prato de comida nos bastidores, ou cachês irrisórios que demoram dolorosos meses para serem empenhados e pagos pela Secretaria de Cultura. São tratados como artistas de segunda classe, intrusos na sua própria terra, mendigando espaço no palco de sua própria cidade.
Enquanto isso, a atração “de fora” 30 — o mega-artista nacional — chega ao aeroporto mais próximo a bordo de um jatinho particular fretado, exige ser transportado em vans blindadas, demanda que o camarim seja montado com ar-condicionado de alta potência no meio do calor amazônico ou nordestino, exige buffet com comidas ispiciás, espumantes caros e, muitas vezes, não pisa os pés no mesmo chão de barro que o morador local pisa diariamente. A prefeitura gasta rios de dinheiro extra, além do cachê, com a estrutura faraônica apenas para acomodar confortavelmente o astro que levará o suor do imposto municipal embora em poucas horas de apresentação.17 O contraste entre o tratamento dispensado ao artista nativo (que rala o ano inteiro) e ao astro pop importado escancara a bossalidade de uma elite política que despreza a própria origem.
Se a desculpa que os prefeitos usam repetidamente no rádio é “investir e promover a cultura do município”, a pergunta que não quer calar é: por que não aplicar com responsabilidade esse R$ 1,84 milhão em escolas de artes e música espalhadas pelos bairros pobres? Por que não investir na construção de centros culturais permanentes (semelhantes aos grandiosos Bumbódromos que preservam a magia em Parintins)?30 Por que não criar programas de fomento perene aos artesãos locais que vivem da palha de guarimã, na infraestrutura logística dos pequenos produtores que sofrem nas farinhadas produzindo tapioca e beijus de qualidade, e que movimentam a microeconomia da base o ano inteiro?30 Por que não equipar e construir espaços de lazer e esporte para a juventude a fim de afastar os moleques doidos do trágico caminho do tráfico de drogas e da marginalidade?
A resposta para essas indagações lógicas é dura, cínica e extremamente dolorosa: porque o investimento e o desenvolvimento a longo prazo não rendem fotos fáceis de arrastão de multidão no Instagram e no Facebook do prefeito metido a besta e de sua primeira-dama. O investimento social constante, feito dia após dia na surdina de uma escola ou num posto de saúde, não gera o clamor imediato, o grito ensurdecedor e a ovação da galera na praça que embriagam o ego do político miúdo. O gestor demagogo não quer o desenvolvimento da sua gente; ele deseja o delírio, a adoração cega e a euforia momentânea que se converte rapidamente em votos fáceis na próxima eleição municipal. É a vitória do efêmero sobre o duradouro.
Passando a Régua: O Confronto Inevitável com a Dura Realidade
Quando a cortina finalmente cai, quando as luzes potentes de LED do palco milionário se apagam, quando a caixa de som silencia, os equipamentos pesados são rapidamente desmontados pelos roadies e colocados dentro das grandes carretas para pegar o beco em direção ao próximo show no estado vizinho, o que sobra verdadeiramente para a cidade e para a população local é o silêncio pesado, sujo e melancólico da sua realidade habitual. A varrição que ocorre após a festa limpa da praça os copos plásticos, as latas amassadas e deixa no chão apenas os resíduos de uma noite de alegria efêmera e irreal. Contudo, essa mesma varrição não consegue, de forma alguma, varrer as mazelas e a podridão administrativa da gestão para debaixo do tapete.
Na segunda-feira de manhã, com a poeira baixada, o cidadão caboclo que pulou, gritou, bebeu e dançou ao som ensurdecedor do DJ de R$ 800 mil acorda de ressaca e precisa, invariavelmente, voltar para o hospital público caindo aos pedaços, onde, tragicamente, o respirador de R$ 5 mil continua faltando, ameaçando a vida de seus entes queridos.1 A mãe trabalhadora acorda cedo e manda o filho para a escola sabendo, com um aperto no coração, que ele vai voltar para casa no meio da tarde, brocado e desanimado, porque a licitação suspeita da merenda deu prego de novo e a escola não tem o que servir para os alunos.11 A torneira completamente seca e enferrujada continua zombando da dona de casa que, impotente, tenta lavar uma singela panela suja de tucupi para preparar a escassa refeição do dia.7
Não se trata, em hipótese alguma neste estudo, de defender o puritanismo ou de tentar proibir a diversão do povo. Isso seria um despropósito. O caboclo é festeiro por natureza desde que o mundo é mundo, adora uma boa bandalheira, um lero lero descontraído na beira do rio ao entardecer, uma cerveja estupidamente gelada no jirau da varanda e escutar uma boa toada na companhia da família e dos parentes.30 O entretenimento cultural é um direito fundamental garantido por constituição, promove alívio, saúde mental, pertencimento e coesão social numa rotina pesada. A crítica incisiva e feroz apresentada aqui não é contra a festa em si, mas contra a brutal imoralidade das prioridades estabelecidas pelo poder público.
A analogia é simples e direta: quando uma casa de família não tem teto para se proteger da chuva e falta comida na dispensa, o pai de família não pega o salário inteiro para comprar uma televisão gigante e cara de última geração. O gestor público que inverte intencionalmente essa lógica básica de sobrevivência em nível municipal está atestando para todos a sua completa incompetência administrativa, agindo com uma malineza inescrupulosa e tratando seu próprio povo — aqueles que lhe conferiram o mandato — como um bando de lesos, galas secas e idiotas fáceis de enganar.
A atuação diligente e proativa de instâncias fundamentais como o Ministério Público, a Defensoria, as Controladorias e os Tribunais de Contas, quando acatada por uma Justiça corajosa e veloz 3, mostra que o tempo obscuro da impunidade total para esse tipo de farra com o erário está, lenta mas firmemente, encurtando no Brasil. O recado judiciário foi dado na bicuda, de frente, sem nenhuma massagem: se o governante de plantão não sabe ou não quer administrar os parcos recursos e o dinheiro do povo com responsabilidade fiscal e zelo social, a força da lei vai achar ele onde quer que ele tente se esconder. A suspensão imediata de contratos absurdos e a aplicação de multas pessoais severas, que atingem o CPF do infrator (como a multa de R$ 3 milhões diários estipulada no Piauí 3), são remédios amargos, extremamente severos, porém os únicos necessários e eficazes para tentar curar de uma vez por todas essa doença endêmica da administração pública brasileira que tanto penaliza o mais fraco.
Os prefeitos de todo o país precisam acordar para a realidade e entender que o eleitor, mesmo o mais simples lá da roça, está ficando a cada eleição mais ladino e politizado. A mesma conexão de internet que serve para expor as luzes da festa no perfil do Instagram da prefeitura é a mesma internet implacável que, no dia seguinte, viraliza rapidamente para o Brasil inteiro o vídeo assustador do teto da escola desabando, da falta de médicos na UPA e da criança humilhada sendo liberada no meio da aula por pura falta de almoço.11 O povo, que durante décadas só ficava de bubuia aceitando pacificamente as migalhas que caiam da mesa dos poderosos coronéis da política, agora começa a exigir respeito, transparência e retorno em serviços. O cidadão comum e pagador de impostos percebe nitidamente que a verdadeira pavulagem de um governante não é fazer uma festa monumental e passageira por uma noite que enriquece terceiros, mas sim ter a coragem política e a decência moral para garantir água tratada, saneamento básico, ruas iluminadas, saúde pública de excelência e uma educação de base forte que prepare efetivamente os seus jovens para o mercado de trabalho do futuro.
A mensagem final para gestores que ainda tentam teimosamente tapar o sol com a peneira e insistir nesse modelo político arcaico, parasitário e falido é claríssima: te orienta enquanto há tempo. O tempo de brincar roleta russa com o dinheiro sagrado da saúde e da educação, apostando todas as fichas apenas na memória curta e na suposta ignorância do povo trabalhador, já era. É uma aposta fadada ao fracasso e à cadeia. Se as gestões municipais continuarem gastando suas fortunas discunformes no que é fugaz e passageiro, ignorando de forma leviana o sofrimento crônico, o desespero de um paciente dando passamento por falta de respirador e a fome daqueles mesmos que, em tese, deveriam ser protegidos pelo Estado, a resposta da população nas urnas será um retumbante e inesquecível “arreda aí, te sai daqui, pega o seu beco e vai te lascar longe”. A mamata do circo vazio, construído às custas do sofrimento do pão negado, está, a cada nova decisão judicial e a cada cidadão que desperta, com os dias irremediavelmente contados na história administrativa do país. Até por lá.
A realistic conceptual photograph in a 16:9 aspect ratio. The image is split in half down the middle to show a stark, dramatic socioeconomic contrast in a small, impoverished Brazilian Amazonian town. On the left side, a vibrant, extravagant, and massive mega-stage for a famous DJ is shown, intensely illuminated with blinding laser lights, colossal LED screens displaying colorful visuals, bursts of pyrotechnics, and a dense, dancing crowd, symbolizing exorbitant and unchecked public spending on fleeting entertainment. On the right side, seamlessly connected but in stark visual and emotional contrast, a dilapidated, unpaved dirt street at night is shown, illuminated only by a single, flickering, weak yellow streetlight. A simple, humble, and crumbling local hospital building with peeling paint and a broken sign sits quietly in the background, while a weary, indigenous-descendant local resident (caboclo) stands near a dry, rusted public water tap holding an empty plastic bucket. The atmosphere on the right side is somber, dusty, neglected, and quiet. The transition between the two sides should be striking and seamless, powerfully highlighting the theme of “panem et circenses” (bread and circuses) versus the severe lack of basic human infrastructure and health resources.
Referências citadas
- Prefeitura de Cocal vai gastar R$ 1,8 milhão com shows de Alok e outras bandas após decreto de calamidade financeira; MP pede cancelamento, acessado em fevereiro 15, 2026, https://portalclubenews.com/2025/08/06/prefeitura-de-cocal-vai-gastar-r-18-milhao-com-shows-de-alok-e-outras-bandas-apos-decreto-de-calamidade-financeira-mp-pede-cancelamento/
- ‘Não sabia sobre as condições', diz Alok sobre decisão que suspendeu show no PI – G1, acessado em fevereiro 15, 2026, https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2025/08/09/eu-nao-sabia-sobre-as-condicoes-diz-alok-sobre-decisao-da-justica-que-suspendeu-show-em-cidade-do-pi-que-decretou-calamidade-financeira.ghtml
- Justiça do Piauí suspende shows do Festejo de Cocal por gastos milionários em meio a crise financeira – Folha Expressa, acessado em fevereiro 15, 2026, https://folhaexpressa.com/geral/justica-do-piaui-suspende-shows-do-festejo-de-cocal-por-gastos-milionarios-em-meio-a-crise-financeira/
- Justiça cancela show de Alok de R$ 800 mil em cidade que havia …, acessado em fevereiro 15, 2026, https://tanabinoticias.com.br/noticia/2247/justica-cancela-show-de-alok-de-r-800-mil-em-cidade-que-havia-negado-respirador-de-r-5-mil
- Ministério Público quer barrar festa com DJ Alok no valor de R$ 1,84 milhão em Cocal, no Piauí – Campo Maior em Foco, acessado em fevereiro 15, 2026, https://www.campomaioremfoco.com.br/noticia/29961-ministerio-publico-quer-barrar-festa-com-dj-alok-no-valor-de-r-184-milhao-em-cocal-no-piaui%C2%A0
- Justiça do PI cancela show de Alok em cidade que negou respirador de R$ 5 mil – YouTube, acessado em fevereiro 15, 2026, https://www.youtube.com/shorts/AjGvKAj1wcI
- Moradores denunciam mais de 72h sem água no interior do Piauí; vídeo mostra vazamento em tubulação – G1 – Globo, acessado em fevereiro 15, 2026, https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2025/12/17/sem-agua-interior-piaui.ghtml
- Falta de condições nas escolas filiais gera dificuldades na preparação da merenda escolar, acessado em fevereiro 15, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=TykWkAV3GIs
- Caos na Educação: Ministério Público investiga falta de banheiros, água e esgoto em 11 escolas de Luís Correia – GP1, acessado em fevereiro 15, 2026, https://www.gp1.com.br/pi/piaui/noticia/2025/10/2/caos-na-educacao-ministerio-publico-investiga-falta-de-banheiros-agua-e-esgoto-em-11-escolas-de-luis-correia-604803.html
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- Alok se posiciona sobre cancelamento de show em Cocal: “concordo com a decisão” – GP1, acessado em fevereiro 15, 2026, https://www.gp1.com.br/pi/piaui/noticia/2025/8/9/alok-se-posiciona-sobre-cancelamento-de-show-em-cocal-concordo-com-a-decisao-601068.html
- DJ Alok apoia suspensão de show em Cocal (PI) e pede mais, acessado em fevereiro 15, 2026, https://ftp.campomaioremfoco.com.br/noticia/29994-dj-alok-apoia-suspensao-de-show-em-cocal-pi-e-pede-mais-criterio-nas-apresentacoes
- girias+do+para.pdf
Lei nº 985 – Estabelece a obrigatoriedade de contratação de cantores, instrumentistas, Bandas ou conjuntos musicais locais na abertura dos shows musicais financiados por recursos públicos. | Prefeitura Municipal de Itabaianinha, acessado em fevereiro 15, 2026, https://itabaianinha.se.gov.br/legislacoes-e-atos/leis/lei-n%C2%BA-985-%E2%80%93-estabelece-obrigatoriedade-de-contrata%C3%A7%C3%A3o-de-cantores



