1. Introdução Impactante (Abertura)
A buca da noite cai pesada sobre a Baía do Guajará, trazendo consigo o prenúncio de um pau d'água iminente. O cheiro de chuva quente se mistura ao pitiú característico que emana das bancas do Ver-o-Peso, enquanto os cascos e rabetas balançam de bubuia nas águas turvas e misteriosas do rio. É o cenário amazônico em sua essência mais crua, bela e poética. No entanto, por trás dessa bruma úmida que envolve a capital paraense e se estende até as fronteiras mais inóspitas, lá na caixa prega onde o vento faz a curva, ergue-se uma estrutura de poder tão porruda e enraizada quanto uma sumaúma centenária. Falar do Pará sem embaçamento exige, obrigatoriamente, decifrar o código genético de uma família que governa o estado quase como uma capitania hereditária: a família Barbalho.1
Trata-se de uma dinastia política que, com extrema sagacidade, ladinagem e uma resiliência dura na queda, moldou os destinos do Estado do Pará e consolidou uma verdadeira “República familiar” no coração do Norte do Brasil.1 Não estamos falando de políticos de meia tigela. O roteiro desta narrativa investigativa não é para quem tem o juízo leso ou espera respostas simples, afinal, como diz o caboco, quem não presta atenção “leva o farelo”. É um documentário vivo, gravado nas ilhargas dos rios e nos corredores atapetados do Congresso Nacional, mostrando como um grupo político conseguiu se embrenhar na máquina pública até o tucupi.
Égua, a magnitude dessa influência fica escancarada quando os holofotes do mundo inteiro se viram para Belém. Com a aproximação da COP30, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas agendada para 2025, o governo estadual articula um espetáculo de investimentos que ultrapassa a marca estorde de 5 bilhões de reais 2, prometendo transformar a floresta em um grande, reluzente e lucrativo “Vale Bioamazônico”.3 É muita pavulagem para turista ver. Mas, ao mesmo tempo em que a bossalidade toma conta dos discursos oficiais em Nova Iorque e no Fórum de Davos 5, a realidade impõe um choque brutal. Enquanto a Avenida Visconde de Souza Franco, a famosa Doca, recebe injeções macetas de mais de R$ 310 milhões, a histórica Vila da Barca — a maior favela de palafitas da América Latina, cheia de gente brocada de fome — é tratada como zona de sacrifício.7
Diante desse contraste discunforme, a presente reportagem em formato de documentário mergulha fundo nas raízes, na ascensão e nas polêmicas do clã Barbalho. Analisaremos como um grupo oligárquico conseguiu não apenas sobreviver às crises, mas rearticular-se para dominar nacos colossais da República.9 Prepare-se, parente, pois a história dessa dinastia é o bicho, cheia de bandalheira, migué e lero lero político. Desvendá-la é essencial para compreender as engrenagens de um Brasil profundo que resiste, que sofre mais que cachorro de feira, mas que nunca deixa de pulsar e lutar. Pega o teu chibé, te aquieta no jirau, e espia essa história que eu vou te contar.
2. Origem e Ascensão
A árvore genealógica do poder no Pará não brotou do nada; ela germinou em um solo fortemente adubado por disputas históricas, coronelismo e pelo velho caudilhismo amazônico. Para entender a malineza e a genialidade tática da família Barbalho, é preciso olhar para trás, na direção da figura histórica de Magalhães Barata. Barata foi o interventor e governador que, desde a Revolução de 1930, instituiu o chamado “baratismo”, um modelo de política passional, autoritária e baseada na distribuição clientelista de favores, que dominou o Pará por três décadas.10 O patriarca da atual dinastia, Laércio Wilson Barbalho, não era um cara de fora; ele foi um “baratista” legítimo, um homem de política fervilhante que transferiu para seus herdeiros a cartilha exata de como culiar o poder e manter o caboclo na rédea curta.10
O filho de Laércio, Jader Fontenelle Barbalho, nascido em Belém em 1944, não foi um mero herdeiro de berço esplêndido.14 Achi, o bicho era escovado demais para ficar apenas na sombra do pai. Com o braço igual Monteiro Lopes no início da carreira (ou seja, fresco na política), ele provou ser um político ladino e com uma capacidade de articulação que rapidamente ofuscou os antigos caciques.14 A sua trajetória política iniciou-se formalmente em 1967, quando, em plena ditadura militar, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e elegeu-se vereador de Belém.14 A partir dali, o cara meteu a cara e sua ascensão foi meteórica, embalada por um discurso popular que ressoava junto aos curumins, cunhatãs e ribeirinhos que viviam de mariscar.
Em 1971, Jader já era deputado estadual; em 1975 e 1979, garantiu mandatos como deputado federal, sempre empunhando a bandeira de uma oposição consentida, mas com os olhos gulosos fincados no Palácio dos Despachos.14 A década de 1980 marcou a consagração absoluta do barbalhismo. Jader Barbalho elegeu-se governador do Pará (1983-1987) e, posteriormente, voltou ao cargo para um segundo mandato (1991-1994).14 Durante esses períodos, a máquina estatal foi utilizada não apenas para governar, mas para embiocar uma estrutura de lealdades profundas que não escafedeu-se até hoje. O clientelismo era a moeda de troca, e Jader dominava a arte de arregimentar prefeitos e lideranças lá de onde o vento faz a curva, estabelecendo um parentelismo que se espalhava pelas vastidões amazônicas.9
A seu lado, na ilharga, uma peça fundamental dessa engrenagem ganhava um protagonismo que deixou muita gente de boca aberta: Elcione Barbalho.16 Como primeira-dama, ela arregaçou as mangas e encabeçou a Ação Social, um projeto colossal de assistência a populações pau duras e carentes, que misturava a velha benemerência com uma fortíssima projeção eleitoral.16 O resultado dessa aproximação com o povo que vivia na caixa prega do esquecimento foi estrondoso, um verdadeiro fato novo. Em 1994, Elcione foi eleita a deputada federal mais votada de todo o Brasil em termos proporcionais, arrebatando a impressionante marca de 153.860 votos.16 Ti mete, mano! A ex-esposa do patriarca consolidou uma força tão téba que hoje, em seu sétimo mandato federal, mantém-se como um pilar mestre do clã na Câmara dos Deputados.16
Mas os Barbalhos sabiam que só voto não bastava; era preciso ter o controle da narrativa. O domínio não se limitaria ao Executivo estadual. A família percebeu cedo que, para não levar o farelo nas disputas contra os rivais históricos, era preciso ter a sua própria voz falando grosso. O Pará tornou-se o palco de uma guerra midiática encarniçada entre o grupo O Liberal, fundado no seio do baratismo e posteriormente controlado pelo empresário Romulo Maiorana, e o Diário do Pará, fundado no sufoco em 1982 pelo próprio Jader Barbalho para dar suporte à sua primeira eleição ao governo estadual.10 A partir desse diário, nasceu o Grupo RBA de Comunicação, uma rede de jornais, rádios e emissoras de TV afiliadas que serviu como escudo e lança da família nas batalhas pela opinião pública.17 O embate entre Maioranas e Barbalhos era uma verdadeira fulhanca de acusações, uma bumbarqueira onde os jornais destilavam veneno e o jornalismo frequentemente cedia espaço à agressão direcionada.17
| Ano / Período | Evento Chave na Ascensão do Clã Barbalho | Impacto Político e Institucional |
| 1967 | Início da carreira de Jader Barbalho | O patriarca elege-se Vereador em Belém pelo MDB, dando início à dinastia.14 |
| 1982 | Fundação do Jornal Diário do Pará | Jader cria o veículo para servir de base e palanque para sua campanha ao governo.17 |
| 1983-1987 | Primeiro mandato no Governo do Pará | Jader Barbalho consolida a base governista; Elcione cria a Ação Social.14 |
| 1991-1994 | Retorno ao Palácio dos Despachos | Segundo mandato de Jader Barbalho como Governador do Estado.14 |
| 1994 | O Fenômeno Eleitoral de Elcione | Elege-se a deputada federal mais votada do país proporcionalmente.16 |
| 1995 | A Chegada ao Senado Federal | Jader inicia seu mandato no Senado, tornando-se uma figura nacional e líder do PMDB.14 |
Esta primeira fase forjou uma estrutura política muito dura na queda. Eles souberam jogar o jogo de Brasília com terno e gravata, enquanto mantinham os pés descalços nas feiras do interior, comendo beiju e tacacá. Eles entenderam que o poder na Amazônia exige uma mistura peculiar de refinamento palaciano com a habilidade caboca de distribuir o peixe, ralhar com os adversários e abraçar o eleitor. A semente do baratismo evoluiu para se tornar o império Barbalho. Já era, o estado estava dominado.
3. Estrutura de Poder
Se as décadas de 1980 e 1990 consolidaram o nome da família, o século XXI testemunhou a sua mutação para uma força hegemônica que faz qualquer um ficar de butuca. A atual estrutura de poder comandada pelos Barbalho é de uma envergadura estorde, funcionando como um verdadeiro polvo de interesses que opera em múltiplas frentes simultâneas e não deixa ninguém respirar fora do seu cerco.1
A joia da coroa dessa estrutura colossal atende pelo nome de Helder Barbalho. Preparado desde curumim para a vida pública, a mãe não o vende por pouco. Helder é visto como um político de perfil incrivelmente pragmático, um “muleque doido” hiperativo da política que veste a camisa da moderação para não impinimar gregos nem troianos.2 O cara não é de ficar de touca; com apenas 21 anos, em 2000, foi o vereador mais votado de Ananindeua.2 Aos 25 anos, já era o prefeito daquele município (o segundo maior do estado), sendo reeleito posteriormente com sobras.2
Helder pegou o beco para Brasília e acumulou experiência como ministro nos governos de Dilma Rousseff e Michel Temer, chefiando as pastas da Pesca, Portos e, mais notavelmente, a Integração Nacional.2 Esse currículo o deixou cascudo. Em 2022, ele assombrou o país ao ser reeleito governador do Pará no primeiro turno com inacreditáveis 70,4% dos votos, a maior votação proporcional entre todos os governadores do Brasil.1 E olha o papo desse bicho: não foi migué; foi a construção de uma aliança maceta de 16 partidos, abarcando desde o PT da esquerda até o PP da direita.1 Helder formou uma couraça política tão espessa que a oposição estadual praticamente escafedeu-se, virou fumaça. Quem tenta bater de frente apanha mais do que vaca quando entra na roça.
No plano federal, a conexão da “República familiar do Pará” com o Palácio do Planalto é umbilical, di rocha mesmo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reconhecendo a força que os Barbalho possuem no Congresso — onde a família foi crucial para a eleição de nove deputados do MDB paraense (o melhor desempenho do partido no país) 1 —, entregou a Jader Barbalho Filho, irmão de Helder, o cobiçado Ministério das Cidades.1 Jader Filho senta-se hoje sobre um orçamento pantagruélico de 23 bilhões de reais, controlando programas de impacto visceral como o Minha Casa, Minha Vida, além de ter o poder da caneta sobre obras de saneamento e mobilidade urbana.1 Meu sumano, ter o controle do Ministério das Cidades é a chave-mestra para cooptar o apoio de prefeitos em todo o território nacional. O clã, portanto, joga pesado nas duas pontas: controla o território local com Helder e possui o cofre federal aberto com Jader Filho. Só o creme mano!
Mas a estrutura não para por aí; ela se estende para as instituições que deveriam fiscalizá-los. A indicação de Daniela Barbalho, esposa do governador Helder, para o cargo vitalício de conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PA), no início de 2023, foi um movimento que deixou a oposição dando passamento.2 A Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA), sob forte influência do Executivo e cheia de aliados enrabichados, aprovou o nome de Daniela de forma quase unânime (36 dos 38 deputados presentes disseram “amém”).22 Parte da população gritou “Axí credo!”, a imprensa de fora acusou a bossalidade de um óbvio nepotismo cruzado e quebra da impessoalidade. A nomeação chegou a sofrer reveses judiciais na primeira instância sob acusações de ofensa à moralidade pública, mas, como no Pará as coisas sempre dão um jeito de indireitar para o lado dos poderosos, o Tribunal de Justiça do Pará rapidamente reverteu o afastamento.23 O argumento? A ausência dela desestruturaria o controle externo e causaria insegurança jurídica. “Tá no balde!”, sacramentou a justiça, e o poder do clã sobre os órgãos de controle permaneceu inabalado.23
Para garantir que toda essa maquinaria opere sem ruídos e sem gente abelhuda e enxerida metendo o bedelho, o controle dos meios de comunicação é absoluto. O Grupo RBA cresceu vertiginosamente. No entanto, o barbalhismo moderno inovou na forma de passar a régua nos críticos. Segundo denúncias registradas por portais como o Esquerda Online, o silenciamento da imprensa não se dá apenas pela posse direta das emissoras, mas também pelo uso das polpudas verbas de publicidade governamental.25 Concorrentes e críticos de meia tigela foram supostamente neutralizados ou comprados por meio de contratos milionários.25 Cria-se, assim, uma redoma narrativa. Se o povo quer reclamar de alguma mazela — como a denúncia de 3.800 professores concursados sem nomeação —, os órgãos de imprensa local fingem que “eu choro”, não dão um pio.25 É um estrangulamento sutil, onde a liberdade de imprensa é asfixiada de forma educada, com dinheiro público bancando a potoca oficial.
Para 2026, Helder Barbalho, que já cumpre seu segundo mandato consecutivo e não pode se reeleger ao governo, prepara cuidadosamente o terreno. Ele posicionou Hana Ghassan, sua atual vice-governadora, como a herdeira natural do Palácio dos Despachos.2 Enquanto isso, o próprio Helder desponta como o fona favorito para uma das cadeiras do Senado Federal, ou até mesmo como um forte nome para vice-presidente na chapa de Lula.1
| Membro da Família / Aliado | Cargo / Posição de Poder Atual | Nível de Influência Estratégica |
| Helder Barbalho | Governador do Pará (Reeleito c/ 70,4%) 1 | Chefe do Executivo Estadual, principal articulador político paraense, vitrine da Bioeconomia e COP30. |
| Jader Barbalho Filho | Ministro das Cidades 1 | Gestor de R$ 23 bilhões federais, controle do Minha Casa Minha Vida, forte cooptação de prefeitos. |
| Jader Barbalho | Senador da República 1 | Patriarca e “raposa velha”, atua nos bastidores e comanda as grandes articulações do MDB nacional. |
| Elcione Barbalho | Deputada Federal 1 | Manutenção da base governista na Câmara dos Deputados; controle histórico de pautas sociais. |
| Daniela Barbalho | Conselheira do TCE-PA 22 | Assento vitalício no Tribunal de Contas, garantindo blindagem institucional familiar. |
| Hana Ghassan | Vice-Governadora do Pará 26 | Sucessora designada para segurar a cadeira do Executivo a partir das eleições de 2026. |
A estrutura de poder dos Barbalho no Pará assemelha-se a um paneiro bem trançado. Cada fio (político, midiático, financeiro e jurídico) está tão perfeitamente amarrado ao outro que se torna quase impossível desfazer o nó cego. A oposição, ralada, lisa e sem recursos, restringe-se a ficar de mutuca, espiando e resmungando, enquanto a máquina avança como um trator. E se reclamar muito? “Te vira, tu não é jabuti”.
4. Controvérsias e Investigações
Porém, nenhuma dinastia se ergue aos céus sem acumular esqueletos nos armários, e o histórico da família Barbalho possui uma varrição de escândalos, inquéritos e operações policiais que, embora muitas vezes terminem em arquivamentos cheios de migué, deixam uma cicatriz profunda na política brasileira. A trajetória do patriarca e do filho é pontuada por episódios onde a linha entre o dinheiro público e o bolso privado foi sistematicamente borrada.
A tempestade perfeita contra Jader Barbalho ocorreu na virada do milênio, resultando num verdadeiro pau d'água de denúncias que quase fez o patriarca levar o farelo. O caso mais escabroso foi o escândalo da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), onde a banda podre do governo montou um colossal esquema de fraudes focado em atividades entre 1997 e 1999.27 A mamata envolvia 151 investimentos totalmente fictícios que sorveram a quantia estratosférica de 547 milhões de reais dos cofres públicos.27 A bandalheira contava com empresas fantasmas, projetos agropecuários inventados no meio do mato, e relatórios forjados, onde a impunidade andava de braços dados com o colarinho branco.27
Ao mesmo tempo, vieram à tona as investigações sobre desvios absurdos de recursos do Banco do Estado do Pará (Banpará) e a fraude milionária com os Títulos da Dívida Agrária (TDAs).28 A imprensa nacional aplicou na jugular de Jader. Pressionado por todos os lados, num ambiente político hostil e na iminência de um humilhante processo de cassação, Jader Barbalho não teve outra escolha: capou o gato. Em outubro de 2001, renunciou à presidência do Senado e, logo depois, ao seu próprio mandato parlamentar, jurando ser vítima de perseguição e que a culpa era dos outros.14 O relatório do Banco Central, contudo, mostrava contradições severas e inexplicáveis em suas declarações de patrimônio.30 Após anos de embromação judicial, chicanas e lentidão — provando que a justiça costuma vergar para o lado de quem tem dinheiro —, o caso da SUDAM prescreveu e foi cinicamente arquivado em 2014.27 Jader, tebudo e inabalável, retornou ao Congresso em 2011 e segue incólume, arrotando caviar. Deu prego na justiça.
O filho, governador Helder Barbalho, também tem seu quinhão de dores de cabeça com a Polícia Federal, embora possua um talento notável, de cara escovado, para sair pela tangente e sair limpo da poça de lama. O episódio mais dramático de sua gestão ocorreu durante o auge do sofrimento da pandemia de COVID-19. Enquanto o povo morria sufocado, a PF deflagrou a Operação Para Bellum em junho de 2020.31 O governo do Estado havia realizado uma compra suspeitíssima de R$ 50,4 milhões em respiradores chineses, mediante dispensa de licitação e com pagamento antecipado.31 A safadeza foi exposta quando os equipamentos chegaram com um atraso imenso e, para o desespero de quem estava na pedra, descobriu-se que eram modelos inadequados e inservíveis para o tratamento grave da doença.31
Os agentes federais meteram o pé na porta e realizaram buscas no próprio Palácio dos Despachos e nas secretarias estaduais. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) chegou a determinar o bloqueio de R$ 25,2 milhões em bens do governador Helder.31 Helder, sem demonstrar que estava encabulado, foi para a TV, falou sem embaçamento que estava tranquilo e alegou publicamente que havia agido a tempo de devolver os equipamentos escrotos e que o erário foi ressarcido.33 Como um passe de mágica institucional que só acontece no Brasil, após a poeira baixar e a memória do eleitor dar um bug, o inquérito contra Helder foi sorrateiramente arquivado pelo STJ anos depois, por suposta “ausência de provas de envolvimento direto” do governador.2 A culpa ficou para os peixes menores. E vida que segue.
As controvérsias mais recentes e pungentes, contudo, ganharam uma nova roupagem com a badalada aproximação da COP30. Se por um lado o evento traz status internacional, por outro, escancara o que os críticos chamam de “maquiagem verde” e uma gentrificação escandalosa de Belém. A gestão barbalhista abriu o cofre para investir maciçamente, torrando R$ 310 milhões em projetos de embelezamento na “Nova Doca” — a avenida Visconde de Souza Franco, onde moram os engravatados e os apartamentos custam R$ 13 milhões.7 Mas a ironia macabra é que os dejetos, entulhos e o esgoto dessa obra majestosa estão sendo literalmente despejados nas águas da Vila da Barca, a imensa e pauperizada favela de palafitas que sofre calada na periferia.7
Os moradores, ribeirinhos, cabocos e pescadores que sentem o cheiro forte da inhaca na porta de suas casas de madeira, foram tratados como meros figurantes de uma “zona de sacrifício”, sem sequer serem consultados sobre os impactos em suas vidas.7 O governo prega sustentabilidade para gringo ver, mas arranca árvores nativas para substituir por “eco-árvores de plástico” importadas de Singapura.7 Axí credo! E para completar a gaiatice e a falta de respeito, enquanto a educação pública sofre cortes e professores amargam salários ruins, o governo patrocinou a escola de samba carioca Grande Rio com espantosos R$ 15 milhões.7 É a velha política do pão e circo, sambando na cara do povo trabalhador.
Não podemos deixar de lembrar, também, da histórica e sangrenta guerra da comunicação no Pará, que expõe o caráter violento das elites locais. Muito antes de silenciarem a imprensa apenas com a força do dinheiro, a briga era no pé de porrada. O ódio entre o Grupo RBA (dos Barbalhos) e as Organizações Romulo Maiorana (do grupo O Liberal) não poupou o jornalismo independente. Em janeiro de 2005, o veterano e corajoso jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do “Jornal Pessoal”, publicou uma reportagem chamada “O rei da quitanda”, expondo como a notícia era vendida como mercadoria barata e como o poder de Romulo Maiorana Jr. chantageava a sociedade.19 A resposta foi bestial e criminosa: Lúcio Flávio foi covardemente espancado pelas costas, dentro do sofisticado Restô do Parque, por Ronaldo Maiorana e seus seguranças (policiais militares pagos com dinheiro público), sob ameaças de morte.19
O Diário do Pará, pertencente a Jader, deu ampla cobertura ao episódio, esfregando as mãos de alegria não por defender a liberdade de imprensa, mas apenas como munição pesada para massacrar o rival Maiorana e vender jornal.35 O irônico, e triste, é que o tempo passou, os ódios esfriaram diante dos interesses econômicos, e hoje os dois grandes grupos selaram um compadrio, uma união para manter o status quo.35 Para o jornalista independente, a lição é clara: ou tu te alinhas aos donos do poder, ou a pancada come solta.
5. Análise Sociopolítica
Mas como então, diante de tantos escândalos, de tanta potoca e de processos de dar dor de cabeça, essa família não apenas sobrevive, mas ganha eleições com margens humilhantes de 70%? O cara é só tese? Não. A resposta para a perpetuação da dinastia Barbalho não reside apenas na malandragem, mas encontra ressonância profunda na análise sociológica do comportamento político no Norte do Brasil. O eleitor amazônico, o caboco simplório, não vota irracionalmente por ser leso; ele vota em resposta a um sistema cruel, desenhado minuciosamente para mantê-lo eternamente refém e dependente.
O estudo sério sobre as elites e oligarquias no Pará, conduzido pelos professores do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da UFPA (como Marília Emmi e Rosa Acevedo), tira a venda dos nossos olhos. O NAEA define que a estrutura de poder oligárquico não é um fóssil enferrujado do passado coronelista, mas uma força elástica, em constante e engenhosa rearticulação.9 A família Barbalho percebeu que o cacete não funciona mais tão bem quanto antes. O poder deles é fechado, dividido por uma cambada muito restrita, e alicerçado na velha trindade do atraso brasileiro: clientelismo (a troca direta de favores por votos), parentelismo (colocar a família toda pendurada nas tetas do governo) e o mandonismo (a capacidade de decidir quem come e quem passa fome nos municípios do interior).9
Diferente dos coronéis ignorantes de antigamente, Jader e Helder Barbalho modernizaram a bossalidade da oligarquia. Eles adaptaram as amarras da dominação para o teatro da democracia representativa, tornando-se o que a ciência política classifica como “oligarquias competitivas”.9 O interiorano, o ribeirinho que vive perambulando atrás de um trocado e que cresceu “à pulso”, desamparado de estradas, esgoto, saúde e escolas decentes, olha para a estrutura do Estado e não vê uma instituição republicana; ele vê o patrono, o coronel caridoso.
Quando o governo do Estado chega de barco numa comunidade distante, lá no meio do rio Tajapuru, e distribui o “Renda Pará”, ou quando Helder entrega 120 “Cheques Pecuária” em Redenção 3, a percepção imediata do roceiro não é de que o governador está cumprindo uma obrigação orçamentária. A sensação é de benemerência divina. O eleitor, com os lábios sujos da piririca do açaí com farinha d'água, agradece o prato de comida que salva o dia de sua família brocada. Ele não entende de PIB ou das tretas no STJ. Esse clientelismo institucionalizado cria uma armadilha perfeita, um labirinto sem saída. Como observadores perspicazes e youtubers indignados pontuam, a tática é brutal: “mantém o povo na miséria de propósito para continuar governando para sempre”.36 Eles se alimentam da nossa precariedade.
A sociabilidade política local é construída fortemente através de uma narrativa de familiaridade e falsa empatia. Helder, Jader e Elcione sabem jogar para a galera. Eles vestem a camisa de times locais, caminham pelas feiras fedendo a peixe, tomam tacacá suando na calçada, adotam a gíria caboca — chamam o outro de “mano”, de “parente” —, distribuem tapinhas nas costas e se posicionam não como deuses do Olimpo, mas como “gente da gente”. Eles conseguem mundiar o eleitorado com um lero lero envolvente. É um populismo refinadíssimo. Quando a oposição, geralmente formada por intelectuais engravatados da capital, tenta discursar sobre pautas abstratas como ética, moralidade pública ou responsabilidade fiscal, o discurso simplesmente soa muito palha. Não adere. É visto como frescura de quem tem o braço igual Monteiro Lopes (que nunca pegou sol na enxada).
E a cereja do bolo que fortalece esse império é a total subserviência e simbiose com as esferas do governo federal. Famílias poderosas como a Barbalho tornaram-se as grandes fiadoras da estabilidade para presidentes como Temer, Bolsonaro ou Lula.1 O MDB paraense oferece a base legislativa dócil e numerosa para que Brasília passe suas leis urgentes; em troca da votação, a família Barbalho recebe o controle de ministérios orçamentários mastodônticos (como Cidades) e a garantia de que ninguém do planalto vai meter o nariz nas bandalheiras que acontecem nas prefeituras do Pará.1 O “barbalhismo” consolidou-se porque entendeu que no Brasil profundo, a democracia pode ser terceirizada e gerida como uma grande capitania. Eles sufocam a mídia independente, lotam os tribunais com parentes, e deixam o povão anestesiado. É uma engenharia diabólica de poder que apanha, mas não cai.
6. Impacto no Estado do Pará
Toda essa engrenagem de poder, concentrada nas mãos de tão poucos, gera resultados extremamente esquizofrênicos. A atuação do clã Barbalho criou, na prática diária, duas realidades que não se cruzam. De um lado, resplandece o “Pará-Vitrine”, o Estado do futuro, da Bioeconomia, do marketing agressivo e das grandes e bacanas ambições diplomáticas. Do outro, agoniza, na lama e na malária, o “Pará-Real”, um estado açoitado por índices desumanos de pobreza, falta de saneamento, violência e devastação ambiental endêmica. É a mais pura materialização da expressão caboca de “tapar o sol com a peneira”.
Do lado positivo — ou, ao menos, politicamente e visualmente rentável —, não se pode negar que Helder Barbalho meteu a cara e implementou um pacote macroeconômico astuto e proativo. Vestindo a roupa do “estadista verde”, ele pegou o Pará, que sempre era sinônimo de tragédia na mídia sudestina, e o colocou no centro das discussões mundiais sobre o clima.3 O projeto do “Vale Bioamazônico” é a grande menina dos olhos do governo; foi apresentado orgulhosamente no palco chique do TEDx Amazônia e nos salões luxuosos do Fórum de Davos.3 Helder tenta mudar a vocação do estado: a venda antecipada de 12 milhões de toneladas em créditos de carbono rendeu perto de R$ 1 bilhão para os cofres públicos.1 Segundo a narrativa oficial, esse “pudê” de dinheiro será dividido com os “guardiões da floresta”, quilombolas, indígenas e extrativistas.37
Além disso, a gestão lançou o programa assistencial “Pará Sem Fome”, e inaugurou, com muita pompa, o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia 38, num projeto desenhado para atrair grana da iniciativa privada e restaurar terras destruídas. O apogeu absoluto dessa era de glória, a coroação de Helder como o “rei do norte”, é a confirmação de Belém como a sede da COP30 em 2025.1 O evento mágico catalisou a liberação de absurdos R$ 11 bilhões em investimentos federais e estaduais para rasgar avenidas, dragar rios e modernizar a infraestrutura urbana.1 O discurso é que a cidade vai deixar de ser panema e entrará no mapa do turismo internacional.40 “Tá selado”, a COP30 vai mudar tudo.
Mas aí tu espias o outro lado da moeda, o Pará-Real. E o cenário é escroto, sombrio, refletindo uma miséria que deixa qualquer pessoa de boa índole encabulada e impinimada de raiva. Apesar de todo o falatório chique em inglês sobre “floresta em pé”, o Pará continua firme, forte e impenitente na liderança do triste ranking nacional de desmatamento.1 As árvores tombam dia e noite. O garimpo ilegal, especialmente no sudoeste paraense (em municípios sem lei como Itaituba), opera livremente, destruindo rios imensos, contaminando as populações ribeirinhas com mercúrio, causando doenças e enchendo de tuíra e miséria as vastas terras indígenas Munduruku e Kayapó.1 A dicotomia entre o governador aplaudido na Europa e a motosserra zunindo na selva é de um cinismo assustador.
A crise social no estado é um abismo. Em pleno século XXI, o Pará ostentava a vergonha de possuir o segundo pior Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de todo o Brasil no ensino médio da rede pública (dados de 2021).1 São escolas com teto caindo, sem merenda, onde a taxa de alunos que abandonam ou reprovam chega a um quarto de todos os estudantes.41 A juventude sem perspectiva vai parar na vala. Na área da segurança, mesmo com a máquina de propaganda alardeando a redução nas taxas, o Estado continuava a abrigar sete dos trinta municípios mais violentos e perigosos de toda a nação brasileira.1 O derramamento de sangue nas disputas agrárias históricas moldou uma cultura de rumpança e impunidade que não se resolve com vídeo bonito em rede social.
O choque violento entre esses “dois Parás” atinge seu ápice nauseante com as próprias obras da COP30 em Belém. A capital está recebendo um banho de cimento e promessas de mobilidade.42 Mas o legado real e doloroso questiona a quem, de fato, serve toda essa maquiagem caríssima. Como um curumim faminto espiando pelas frestas ralas de uma casa de tábuas na beira do rio, a população da periferia vê, impotente, a gentrificação empurrá-los cada vez mais para a margem. Condomínios de luxo brotam do chão nas poucas áreas verdes restantes.7 A COP30 varre os mais pobres para áreas de risco invisíveis aos gringos. O estado arrecada bilhões com royalties de mineração (ferro, bauxita, cobre) exportados aos montes para a China, mas o ribeirinho nativo continua dependendo de poço artesiano contaminado e c*gando no rio. O povo sente que tá tomando uma canelada diária do próprio governo. É a sina do gala seca: o estado é podre de rico, mas a pança do povo tá sempre roncando.
| Dimensão Crítica | O “Pará Vitrine” (A Narrativa Oficial) | O “Pará Real” (A Dura Realidade das Ruas) |
| Meio Ambiente | Anúncio do Vale Bioamazônico e venda de créditos de carbono gerando quase R$ 1 Bilhão.1 | Histórico líder absoluto em desmatamento na Amazônia; avanço descontrolado do garimpo ilegal no sudoeste.1 |
| Obras da COP30 | Mais de R$ 11 bilhões em investimentos para transformar a capital numa metrópole global e sustentável.1 | Gentrificação pesada, expulsão de famílias pobres de suas casas e dejetos das obras ricas lançados direto em favelas de palafitas (Vila da Barca).7 |
| Educação Pública | Promessas modernas de tecnologia, internet nas escolas e programas de retenção de alunos. | O 2º pior IDEB do Brasil (2021); taxas alarmantes de evasão e abandono escolar chegando a 25% no Ensino Médio.1 |
| Economia e Renda | PIB crescendo rápido, puxado pela grande mineração de ferro, agronegócio pujante e exportação de commodities. | População refém do clientelismo estatal (Bolsa Família / Renda Pará) num modelo que perpetua a miséria e a dependência política extrema.36 |
7. Simulação de Entrevistas
Para compreender as nuances dessa estrutura de poder através dos olhos de quem vive a realidade nua e crua do Estado, longe das propagandas institucionais, simulamos abaixo relatos (roteirizados) que capturam diferentes espectros da sociedade paraense, desde a torre de marfim acadêmica até o sufoco diário na periferia alagada.
O Especialista em Sociologia Política da UFPA (Tom Acadêmico, mas Puto da Vida com Sotaque Regional):
“Meu sumano, olha o papo desse bicho. Para analisar o fenômeno Barbalho com seriedade, não adianta vir com teorias empoladas importadas lá da Europa. É preciso mergulhar de cabeça na genética maldita da nossa política local. Desde a época do Magalhães Barata, na década de 30, nós convivemos passivamente com essa estrutura de mandonismo que nunca escafedeu-se, ela apenas trocou de roupa e se perfumou.9 O que o Jader e agora o Helder fazem é de uma inteligência maquiavélica, os caras são ladinos demais. Eles não dão tiro, eles abraçam. Eles estabeleceram o que a gente chama na academia de ‘oligarquia competitiva'. O Helder governa com o PT, governa com o PP, loteia o estado inteiro; e tem o irmãozinho, Jader Filho, lá no ar-condicionado de Brasília comandando o maior orçamento do Brasil.1 Eles formaram uma aliança que é puro culiar institucional. Não há mais nenhum espaço para a oposição respirar. O adversário ou leva uma porrada humilhante nas urnas, ou é comprado com cargo. E o caboco lá do interior, que sofre mais que cachorro de feira com a falta de tudo, enxerga no assistencialismo de migalhas do Helder a única tábua de salvação num mar de pobreza. É um sistema clientelista perfeito que se autoalimenta; um nó cego que vai demorar décadas para alguém conseguir desatar.”
O Jornalista Independente e Veterano de Belém (Tom Denuncista, Cansado, Fumaçando de Indignação):
“Vou te falar sem embaçamento, mano. Quem tenta fazer jornalismo sério, investigativo por aqui, ou se vende pro diabo, ou leva o farelo rapidinho. Vocês acham que a paz e o sorriso fácil reinantes nas manchetes dos jornais de hoje sempre foram assim? Mas quando! Na época brava, em que o Grupo RBA brigava de faca cega com as Organizações Romulo Maiorana (O Liberal), era uma bandalheira de denúncias diárias, um exposed atrás do outro.10 A gente via o jornalista Lúcio Flávio Pinto, um dos caras mais cabeça da região, sendo covardemente espancado e ameaçado de morte no meio de um restaurante chique porque teve a audácia, a peitada, de expor o esquema sujo do ‘rei da quitanda'.19 Foi um pé de porrada! Hoje, a tática dos poderosos mudou. Eles viram que bater pega mal. Eles não precisam te dar uma canelada; eles te asfixiam lentamente. Compram as linhas editoriais de quase todos os sites, rádios e TVs despejando milhões em contratos de publicidade governamental.25 Se tu és um professor desempregado reclamando que o concurso não chamou, ou um médico de posto de saúde sem esparadrapo, meu amigo, tu és invisível pra mídia. A imprensa daqui, no balde, finge que tá tudo daora, de bubuia, publicando só o release oficial que a assessoria do governador manda. É só papo furado pra enganar besta.”
Dona Mariazinha, Moradora Ribeirinha e Trabalhadora da Vila da Barca (Tom Popular, Regional e Revoltado):
“Ai papai, nem te conto a tristeza que é morar aqui. Quando eles vieram na televisão com essa presepada toda de COP30 pra Belém, o caboco ignorante achou que era só o filé, né? Disseram que ia jorrar dinheiro, que ia indireitar a vida de todo mundo. Mas tu acha que os engravatados olharam pra nossa cara de pobre? Égua não! Axí credo pra essa gente mentirosa! Nós tamos aqui é levando uma mijada atrás da outra do governo. Lá pra banda da avenida Visconde de Souza Franco, ali ó, na Doca, onde os apartamento de luxo custam os olhos da cara, o governo tá gastando o pudê de dinheiro com praça bonita, chafariz e viaduto.7 Mas e o esgoto? E a água fedendo a piché, aquela inhaca desgraçada dessa obra bilionária toda? Eles meteram um cano bem ali, jogando a sujeira e a tuíra toda na nossa porta, em cima das palafitas da Vila da Barca!7 Tu acha justo um negócio desse tamanho perante a Deus? O político, cheio de pavulagem, chega nas nossas palafitas perto da eleição, dá um tapinha nas tuas costas, te chama de mano e de chegado, dá um beijo no teu curumim catarento, mas na hora de resolver o nosso passamento de fome de verdade, ele manda tu dar teus pulos. A gente vive brocado aqui, malinada pela vida, com medo de perder o nosso barraco pra essas obras deles, e ainda temos que aguentar o carapanã comendo nosso sangue à noite. É muita obra de luxo pra turista gringo ver e bater palma, enquanto o povo nativo paraense fica só no vácuo, perambulando, panema de tudo. Pra eles, nós somos lixo. Toma-lhe-te, povo besta que vota neles!”
8. Conclusão Reflexiva
A saga interminável da Família Barbalho é, sem dúvida, o reflexo mais escarrado e perfeito das engrenagens enferrujadas do poder no Brasil profundo. É uma narrativa cheia de lero lero e extremos, onde a astúcia política se sobrepõe rapidamente a qualquer revés ético, processo legal ou barreira moral. Da herança coronelista e passional do antigo baratismo de Laércio Barbalho à consolidação impiedosa, tecnológica e puramente pragmática do governador Helder, essa dinastia demonstrou aos seus pares que, na política predatória da Amazônia, ser duro na queda não é uma qualidade opcional; é a única regra válida de sobrevivência.
O barbalhismo em sua versão 2026 é um projeto de hegemonia impecável e quase à prova de balas. O governador alcançou uma popularidade invejável que beira a unanimidade (mais de 70% de aprovação) 1, solidamente alicerçada por uma máquina de marketing ultraeficiente, algumas entregas de obras estruturantes essenciais que o povo sentia falta, e uma blindagem jurídica quase absoluta. Essa blindagem é garantida pelo aparelhamento sutil, porém firme, de órgãos de controle estaduais (como o TCE) 22 e pelo silenciamento institucionalizado e comprado da mídia crítica.25 Com um pé atolado na lama da floresta e o outro usando sapato italiano brilhante nos tapetes do Ministério das Cidades em Brasília 1, o clã dos Barbalho não atua mais apenas como um cacique regional de meia tigela. Hoje, eles são os fiadores, os grandes sócios do projeto político nacional, imprescindíveis para a balança de governabilidade de qualquer presidente. Se o Lula quer governar, tem que sentar e dividir a pizza com eles.
A iminência e o desenrolar da tão badalada COP30 apresentam o teste final e derradeiro para o legado desta gestão tebuda. O Estado do Pará terá a chance dourada de esfregar o sucesso na cara de seus críticos históricos do sul do país, entregando uma estrutura que justifique todo o auê sobre o “Vale Bioamazônico” e o ambicioso status de capital verde do planeta Terra. Contudo, as severas denúncias de gentrificação agressiva e a brutal, criminosa discrepância entre os investimentos torrados em áreas nobres e o descaso cruel com favelas históricas, como a Vila da Barca, servem como um lembrete nojento e incômodo.7 O crescimento econômico nos balanços contábeis e as obras monumentais de fachada não conseguem tapar o sol com a peneira; não apagam o abismo da desigualdade profunda que assola o povo.36 É como maquiar um rosto profundamente machucado, passar perfume francês numa ferida podre, sem curar a infecção que corrói o osso.
O futuro político do Pará parece estar selado e amarrado, ao menos no curto e médio prazo. Com o natural e provável salto gigantesco de Helder Barbalho para o Senado Federal nas eleições, ou mesmo seu nome sendo ventilado para compor uma chapa presidencial em 2026, ele continuará ditando as regras.1 A preparação meticulosa de sucessores totalmente alinhados e fiéis ao clã, como a vice Hana Ghassan 2, garante que as chaves do cofre continuem na mesma gaveta. À rala e desorganizada oposição, caberá a triste missão de engolir o choro, ficar de mutuca, dar os seus pulos e rezar, ciente de que derrubar um império financeiro, midiático e eleitoral tão bem construído exigirá muito mais do que textões indignados no WhatsApp ou indignação passageira de meia dúzia de universitários.
A democracia nas terras da Amazônia é um teatro complexo, cruel e fascinante. Para o caboco, para o ribeirinho que acorda cedo para remar o seu casco e que perambula o dia inteiro vendendo farinha nas feiras sob o sol escaldante de rachar a moleira ou sob um toró incessante, os Barbalho assumiram um papel místico. Eles são, ao mesmo tempo, a origem profunda de muitas de suas mazelas e a única mão que lhes estende o remédio ou o prato de chibé. São o carrasco que açoita e o patrono benevolente que afaga. Resta-nos aguardar para saber se o legado real que ficará para o Pará após o desmonte das luxuosas tendas da COP30 será o de uma verdadeira emancipação do povo e uma bioeconomia sustentável para todos, ou se, como manda o trágico costume da velha política coronelista brasileira, as bilionárias promessas de transformação social simplesmente irão capar o gato, pegar o beco. Deixando para o caboclo nativo, mais uma vez na sua sofrida história, apenas o entulho, a conta amarga e o pitiú de uma imensa festa da qual, no fundo, ele nunca pôde participar de verdade. Passar a régua nessa história cabulosa é constatar que o poder, afinal, é a arte macabra de reinar eternamente sobre o sofrimento e as contradições do seu próprio povo.
Referências citadas
- Tradicional clã Barbalho se renova e ganha espaço no governo …, acessado em março 16, 2026, https://veja.abril.com.br/brasil/tradicional-cla-barbalho-se-renova-e-ganha-espaco-no-governo-lula/
- Quem é Helder Barbalho? O governador responsável pela COP30 …, acessado em março 16, 2026, https://www.brasilparalelo.com.br/noticias/quem-e-helder-barbalho-o-governador-responsavel-pela-cop30
- Helder Barbalho projeta Vale Bioamazônico e posiciona o Pará no debate global sobre bioeconomia em palestra no TEDx Talks – SEMAS, acessado em março 16, 2026, https://www.semas.pa.gov.br/2026/02/03/helder-barbalho-projeta-vale-bioamazonico-e-posiciona-o-para-no-debate-global-sobre-bioeconomia-em-palestra-no-tedx-talks/
- Helder Barbalho apresenta visão do Pará para a bioeconomia global no TEDx Amazônia, em Belém, acessado em março 16, 2026, https://www.agenciapara.com.br/noticia/72534/helder-barbalho-apresenta-visao-do-para-para-a-bioeconomia-global-no-tedx-amazonia-em-belem
- Brasil precisa atrair negócios da bioeconomia, diz governador do PA | VISÃO CNN, acessado em março 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=rmywWsOinmM
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- Dinastia Barbalho: O império que transformou a floresta em negócio – Jornal O Futuro, acessado em março 16, 2026, https://jornalofuturo.com.br/artigo/edc65L-dinastia-barbalho-o-imperio-que-transformou-a-floresta-em-negocio
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- Ministro do STJ vê indícios de que governador do Pará direcionou irregularmente compra de respiradores – G1 – Globo, acessado em março 16, 2026, https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2020/06/10/ministro-do-stj-determina-bloqueio-de-bens-de-governador-do-pa-em-investigacao-sobre-compra-de-respiradores.ghtml
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- A agressão, 17 anos depois – Lúcio Flávio Pinto – WordPress.com, acessado em março 16, 2026, https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2022/07/20/a-agressao-17-anos-depois/
- A família BARBALHO DESTRUIU o PARÁ! – YouTube, acessado em março 16, 2026, https://www.youtube.com/shorts/jUXkkrQRG48
- Helder Barbalho: Obras para a COP30 estão em fase de entrega | CNN ARENA – YouTube, acessado em março 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=QbVK0qNPEms
- Governo do Pará lança pacote macroeconômico para desenvolvimento social e combate à fome, acessado em março 16, 2026, https://www.agenciapara.com.br/noticia/66731/governo-do-para-lanca-pacote-macroeconomico-para-desenvolvimento-social-e-combate-a-fome
- Governo do Pará entrega Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, pioneiro no mundo – SEMAS, acessado em março 16, 2026, https://www.semas.pa.gov.br/2025/10/07/governo-do-para-entrega-parque-de-bioeconomia-e-inovacao-da-amazonia-pioneiro-no-mundo/
- Governador HELDER BARBALHO lista OBRAS E DESAFIOS do PARÁ para SEDIAR A COP 30 – YouTube, acessado em março 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=JKGCsXtZMOA
- seplad – mensagem do governador do pará, acessado em março 16, 2026, https://seplad.pa.gov.br/wp-content/uploads/2019/02/mensagem_do_governador_do_para_2019.pdf
- “Todas as obras estão em dia”, diz Helder Barbalho sobre COP30 | CNN Brasil, acessado em março 16, 2026, https://www.cnnbrasil.com.br/politica/todas-as-obras-estao-em-dia-diz-helder-barbalho-sobre-cop30/

